Porto Príncipe - Três dias após o terremoto que devastou o Haiti e pode ter deixado até 200 mil mortos, segundo o ministro do Interior, Paul Antoine Bien-Aime disse ontem, o país caribenho vê o clima de tensão se elevar, conforme a ajuda humanitária não chega efetivamente para a maioria da população devido a problemas logísticos e mais pessoas sucumbem à falta de socorro médico.
O tremor de magnitude 7 graus ocorrido na terça-feira pode ter matado entre 50 mil e 100 mil pessoas, afirmou a Organização Pan-americana de Saúde, ligada à ONU (Organização das Nações Unidas). Já o CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha) apontou ontem para um número entre 45 mil e 50 mil vítimas.
No único número concreto sobre a extensão da tragédia, o presidente do Haiti, René Préval, disse que 7.000 corpos já foram colocados em uma vala comum.
Apesar da intensa mobilização internacional para o envio de ajuda humanitária - em forma de equipes de resgates, equipamentos, mantimentos e dinheiro -, ela ainda não chegou para a grande maioria dos haitianos. Desabrigados e sem ter como retirar parentes dos escombros ou enterrar os corpos, a tensão começa a tomar conta das ruas de Porto Príncipe.
“Perdemos tudo. Estamos esperando a morte. Não temos nada para comer, nenhum lugar onde viver. Não tivemos ajuda nenhuma. Ninguém veio nos ver”, disse Andres Rosario, instalado em um acampamento improvisado num aterro sanitário de Porto Príncipe. “Ninguém está nos ajudando. Por favor, tragam água ou as pessoas vão morrer logo”, ecoou Renelde Lamarque, que abriu o quintal da sua casa para cerca de 500 vítimas no devastado bairro do Fort National. Sobreviventes esfarrapados estendem os braços para jornalistas estrangeiros nas ruas, implorando por água e comida.
A limitada infraestrutura do Haiti, ainda mais precária após o terremoto, é o principal obstáculo para que a ajuda chegue aos necessitados. De acordo com o porta-voz do Departamento de Estado americano, Philip Crowley, oficiais americanos avaliaram que o aeroporto de Porto Príncipe, que tem apenas uma pista, só pode operar 90 decolagens e pousos por dia -número que ainda não foi alcançado.
Segundo Crowley, a chegada do porta-aviões Carl Vinson, com 19 helicópteros, dará ao Haiti uma infraestrutura equivalente a um segundo aeroporto. Os Estados Unidos estão tentando construir um heliporto provisório próximo ao aeroporto de Porto Príncipe para ajudar a entregar água, comida e medicamentos.
O secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, disse que, exceto por alguns casos de pessoas vasculhando escombros em busca de comida e pequenos saques, a situação no Haiti continua “relativamente boa” em termos de segurança. “A chave é colocar a comida e a água lá o mais rápido possível para que as pessoas não recorram em seu desespero à violência ou levem a uma deterioração da situação de segurança”, disse.
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Amorim liga para Hillary para reclamar de controle sobre aeroporto
Brasília - O ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, telefonou ontem para a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, para se queixar do controle americano sobre o aeroporto de Porto Príncipe, no Haiti, que dificultou o pouso de aeronaves brasileiras com doações e militares que vão ajudar no resgate das vítimas do terremoto no país.
Os militares americanos também teriam impedido homens da Minustah (Missão de Estabilização da ONU no Haiti) de ingressar no aeroporto, apesar de o Brasil liderar a força de paz no país caribenho.
“Havia um pequeno mal entendido em relação à questão do aeroporto, a sequência dos aviões, o acesso da Minustah ao aeroporto. Ela (Hillary) prometeu que ia reforçar a instrução que já tem o comando militar deles de se coordenar com a Minustah”, afirmou.
Ao desembarcar ontem no Brasil depois de uma visita de 24 horas ao Haiti, o ministro de Defesa, Nelson Jobim, também criticou o controle dos EUA sobre o aeroporto de Porto Príncipe. Jobim disse que a decisão foi “unilateral” dos norte-americanos, sem que outros países fossem consultados.
Amorim disse que a secretária de Estado dos EUA esclareceu que as forças americanas vão cumprir funções essencialmente humanitárias, sem interferir na segurança pública do país, já que isso é a função da Minustah. O ministro disse que Hillary reconheceu a liderança do Brasil na recuperação do Haiti, por isso se mostrou disposta a dialogar com as tropas dos EUA no país caribenho.
“É importante ter clareza de que nós estamos sendo tratados com a prioridade adequada. A secretária de Estado mais uma vez manifestou que o Brasil é um país que tem liderança nesse processo, portanto a nossa ajuda e presença tem que ser tratada de maneira adequada. Ficou também de tomar providências. Ela manifestou preocupação com eventuais mal entendidos que possam haver e esclareceu esse objetivo das forças americanas”, afirmou.
O ministro disse que o Brasil está “permanentemente em contato” com outros países para evitar “pequenos problemas e mal entendidos” no Haiti. Mas admitiu que pode estar havendo uma certa “descoordenação” das tarefas entre os países que ajudam a recuperação haitiana.
Entre os problemas relatados pelo ministro, está o acesso de aviões brasileiros ao aeroporto de Porto Príncipe. “Uns voos não puderam pousar. Isso acontece em vários aeroportos. Mas como levamos material que é urgente, inclusive além do lado humanitário, é o abastecimento das nossas próprias forças. Se as forças da Minustah, especialmente as brasileiras, não estiverem abastecidas, elas não podem cumprir a função para a qual estão lá.”
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Obama vai enviar 10 mil soldados
Washington - O presidente dos EUA, Barack Obama, autorizou ontem uma escalada militar no Haiti que, até segunda-feira, deixará aquele país com entre 9.000 e 10 mil soldados norte-americanos. Isso pode dar a Washington o controle de fato das operações de resgate, auxílio e de segurança, apesar de o controle de direito ser das forças de paz da ONU, hoje com cerca de 7.000 soldados e comandadas militarmente pelo Brasil. O aumento da presença dos EUA tem causado atritos com os comandos militares e a diplomacia de outros países.