09 de julho de 2026
Bairros

Amizades e desrespeito marcam rotina das varredoras de rua

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Os coletores cuidam do lixo domiciliar, livrar a cidade do lixo das ruas é função das meninas que realizam a varrição. Com jornada de trabalho de 44 horas semanais, elas desempenham um papel tão importante quanto o dos colegas. A serviço é igualmente exaustivo.

A equipe de varrição foi criada há cerca de 1 ano e é composta por 29 mulheres, responsáveis pela limpeza de 23 setores, que envolvem a região do Poupatempo, Nações Unidas, Prefeitura Municipal, Centro e Getúlio Vargas.

“Antes o serviço era realizado por homens, mas há cerca de 1 ano isso mudou. Eles foram substituídos por mulheres e remanejados para um setor que exige mais força”, explica Luis Antônio Amorim, 37 anos, encarregado do setor. Para ele, a alteração tem justificativa. “Elas levam mais jeito, são mais cuidadosas”, aponta.

O expediente começa às 7h, quando as funcionárias se reúnem em uma casa na rua Virgílio Malta para tomar café da manhã. A tranquilidade tem fim em 20 minutos, quando elas começam a se dirigir para os seus respectivos setores. Quem trabalha no Centro vai a pé mesmo, a condução só leva quem precisa ir mais longe.

Regiane Gouveia Monteiro, 23 anos, trabalha na varrição das ruas há seis meses. Ela conta que o trabalho, no geral, é tranquilo, mas pontua que o sol quente e algumas atitudes que partem da população dificultam o trabalho.

“O período da manhã é o mais gostoso, ruim é de tarde. Sempre paramos às 11h para almoçar e retornamos ao trabalho às 13h, daí é difícil, temos que ficar procurando uma sombra para nos escondermos. Fora isso, o desrespeito incomoda. Às vezes a pessoa vê que você está limpando e, ainda assim, joga lixo no chão”, reclama Regiane.

Se por um lado sobra gente disposta a atrapalhar, por outro não faltam boas intenções. Ao contrário do que todo mundo pensa, a rua Batista de Carvalho, especificamente a área do Calçadão, é o local mais disputado pelas garis.

“Nós fazemos muita amizade, e isso é muito legal. É claro que no Calçadão tem mais serviço, mas em compensação há um grande número de lojistas que colabora bastante conosco. Nossos carrinhos de limpeza, por exemplo, sempre ficam abrigados em alguma loja e, quando precisamos de alguma coisa, temos sempre a quem recorrer”, justifica Regiane.

Amorim, que atualmente é encarregado do setor, trabalhou durante 15 anos como varredor e conhece bem as mazelas e os benefícios da função. “Quase nada mudou durante os anos: a educação, as dificuldades e as amizades permanecem as mesmas, certamente a única coisa que aumentou foi a quantidade de lixo”, destaca.

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Lixo é problema

A quantidade de lixo produzida por um brasileiro semanalmente é de aproximadamente 5 quilos. Os números são ainda mais assustadores se analisados a nível de País: no Brasil, podem chegar a 240 mil toneladas por dia.

Diante da facilidade em se produzir lixo, a grande discussão tem sido o que fazer com ele. Ao longo da história, a solução mais prática encontrada foi a criação dos aterros sanitários, mas nem sempre a praticidade vem ao encontro do que é ecologicamente correto e enterrar o lixo certamente não é a melhor solução.

Foi pensando em minimizar este problema que alguns estudantes e docentes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Bauru iniciaram um projeto para viabilizar a construção de uma usina regional de lixo na cidade.

“A ideia é unir a iniciativa pública e privada para transformar o lixo produzido por cerca de 1 milhão e 200 mil pessoas em energia ou em materiais reciclados. Já explicamos o projeto aos municípios e 15, dos cerca de 45 necessários, já assinaram o protocolo de intenção. Esperamos concluir o projeto em dois anos”, aponta Jair Manfrinato, diretor da Faculdade de Engenharia (FEB) da Unesp de Bauru.

O projeto também prevê a implantação de uma cooperativa da reciclagem e programas de reeducação para cada cidade. Os encargos do transporte do lixo até a usina ficam por conta dos municípios e a renda obtida por meio da usina ficará com a iniciativa privada, como pagamento pelos investimentos.