08 de julho de 2026
Articulistas

Frouxidão e crises

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

A crise econômica que atingiu o mundo em sua fase mais aguda em 2007/2008 é uma continuidade das crises que já começavam a envenenar o sistema financeiro em 2001/2002 e até um pouco antes, desde 1999, graças à frouxidão da política praticada pela maioria dos Bancos Centrais. Nos mercados que se assumiam como os “mais dinâmicos”, os órgãos controladores preferiram fechar os olhos ao ritmo acelerado de inovações praticadas pelos bancos e outras instituições financeiras, com implicações muito mais sérias do que pareciam.

De uma forma mais ou menos concertada, esses bancos centrais mantiveram as taxas de juro relativamente baixas, não acordaram para a gravidade das irregularidades contábeis nas grandes empresas que vieram à luz em 2000/2001 e deixaram as coisas se arrastando, na crença que a descontaminação viria a seu tempo, pelas “virtudes” próprias da desregulamentação, ampliada!

Em 2008/2009 eclodiu a crise que exigiu ações duríssimas dos governos para reduzir pelo menos uma parte dos pavorosos efeitos sobre os níveis de emprego e o equilíbrio do bem-estar das populações ao redor do globo. Aparentemente, neste início de 2010, estamos saindo dessa grande crise, com os Bancos Centrais atentos aos movimentos nos mercados, mas não se pode apostar muito nisso. Ainda agora o BIS (Bank of International Settlements), que é uma espécie de banco central dos bancos centrais emitiu um alerta sobre um sério problema: em várias partes do mundo, bancos estão outra vez estimulando empréstimos arriscados, mostrando que não aprenderam com o financiamento de bolhas, estão repetindo o comportamento das últimas três crises, como se já tivessem passado a limpo toda a imoralidade da década. O que o BIS está dizendo é o seguinte: prestem atenção, nós mal estamos saindo de uma crise e vocês não aprendem, porque já estamos entrando em uma outra, por causa do comportamento irresponsável de muitos agentes.

Na verdade, os governos não conseguiram ainda mudar o regime de controles dos sistemas financeiros e eu não tenho muita esperança que vão conseguir. Nos EUA eles controlam a política, na Inglaterra é a mesma coisa, talvez na França não tanto. O que importa, no entanto, é o exercício do poder dos sistemas financeiros nos EUA e na Inglaterra. Se estes dois continuarem sem uma regulamentação efetiva, os bancos fantasmas vão continuar articulando seus golpes às custas do setor real da economia, vão continuar fazendo as patifarias que fizeram nos últimos anos e continuar a distribuir como “bônus” aquilo que no futuro vai se transformar em prejuízo para os investidores/aplicadores e para os consumidores/contribuintes. São eles que, além de perderem sua poupança, vão ter que pagar o rombo na praça porque o Tesouro é que vai “marchar” com os recursos para salvar a situação dos bancos e recompor a fratura dos mercados, no final.

Uma recaída tão rápida é realmente inaceitável: o risco de contaminação é enorme em se tratando do mercado global. No Brasil, mantivemos o sistema bancário hígido, o nosso Banco Central em matéria de fiscalização jogou muito duro e corretamente antes e durante a grande crise, mas alguns poderosos bancos centrais do mundo já estão outra vez com uma política frouxa, permitindo que o sistema financeiro internacional repita as patifarias das últimas três crises.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br