Bocaina - O domingo amanheceu cinzento em Bocaina. Não somente o tempo estava carrancudo, mas o estado de espírito de boa parte da população também estava carregado. A notícia de que Edson Muniz Barreto, 35 anos, havia matado os dois filhos em um quarto de hotel, na noite de sábado, em Jaú, como o JC adiantou ontem, deixou os moradores perplexos. Nathan Gabriel, 9 anos, e Ana Beatriz, 5 anos, foram mortos a facadas. O pai, Edson Barreto, cometeu suicídio em seguida.
Os corpos das crianças foram velados durante toda a manhã de ontem e parte da tarde. O enterro ocorreu às 16h no cemitério municipal. A tragédia que prostrou uma família da cidade levou muita gente ao velório. O corpo de Barreto teria sido levado para Pirajuí, onde moram os pais dele.
Inconsoláveis e inconformados, os parentes evitaram falar com a imprensa. Nas poucas vezes que se animou a dizer alguma coisa, o avô das crianças, José Navarro, criticou o que considera passividade da polícia e da Justiça. Segundo ele, Edson era para ter sido preso por causa das seguidas agressões que teria praticado contra a esposa, a professora Fabiana. Na opinião dele, a Lei Maria da Penha (que visa coibir a violência contra a mulher) é ignorada pelas autoridades.
O casal estava morando em uma cidade do litoral paulista. Há um ano, eles se separaram por causa dos desentendimentos e Fabiana voltou para Bocaina com os dois filhos. Ela estava morando em uma casa que fica ao lado da casa do pai, no Jardim Nova Bocaina 2.
De vez em quando, Edson ia até a cidade buscar os filhos para passar o fim de semana juntos. Na semana passada, ele pegou as crianças na quarta-feira e combinou devolvê-las no fim de semana. Eles se hospedaram em um hotel na cidade de Jaú.
Antônio Guica, 63 anos, nascido e criado em Bocaina, compareceu ao velório. Sem entender ao certo como um pai pode praticar tal crueldade contra os próprios filhos, ele se dizia chocado. Segundo ele, durante todos esses anos acompanhando o cotidiano da cidade, nunca ouviu falar de algo parecido. Guica lembrou de um incêndio em uma residência que matou três crianças em 1991. Até então, era o caso mais trágico ocorrido em Bocaina, envolvendo crianças.
Quem também não entendia muito bem o que aconteceu sábado à noite em um hotel de Jaú, era o casal Aparecido Donizete Baldo e sua esposa Marlene Aparecida Pereira da Silva. Eles moram em frente à casa onde residiam as crianças mortas.
Aparecido contou à reportagem que Ana Beatriz e Nathan brincavam quase todos os dias com os filhos dele, que são da mesma faixa etária. Vitor tem 5 anos e Amanda tem 9.
Segundo Marlene, as crianças frequentavam a casa dela e sempre foram muito educadas. Sem conseguir controlar as lágrimas, ela disse que uma das brincadeiras que eles mais gostavam era pular corda, brincar de escolinha e “digitar” em um teclado velho de computador. “É triste pensar que essas crianças não estarão mais aqui para brincar porque estão mortas. É difícil compreender isso”, lamentava ela.
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Pai deixou carta
O JC apurou que o crime foi premeditado. Antes de matar as crianças, o pai escreveu uma carta e mandou um moto-taxista levá-la para a mãe delas, em Bocaina. Na carta, ele relatava a intenção de matar os filhos. Antes de colocar o plano em prática, ele informou que iria dopar as crianças para que elas não sentissem dor ou não vissem o que o pai iria fazer.
Segundo parentes, que não quiseram se identificar, Edson golpeou as crianças no peito cinco vezes. Em seguida, ele voltou a faca contra si e desferiu outros golpes. Edson chegou a ligar para a recepção do hotel relatando o que havia acontecido. A recepcionista ligou para a polícia. Quando os policiais chegaram, o pai ainda estava vivo, mas morreu logo em seguida. Quando a mãe das crianças leu a carta entregue pelo mototaxista, os filhos já estavam mortos.