Pongaí – A Câmara de Pongaí (100 quilômetros de Bauru) realiza amanhã, às 20h, no prédio do Legislativo, cerimônia solene para homenagear dois soldados do município que participaram da missão de paz no Haiti e retornaram à cidade natal na tarde de anteontem. O evento deverá contar com a presença dos nove vereadores, ente eles o presidente da Casa, além de familiares e amigos dos militares. Eles foram recebidos na cidade como “heróis”.
De acordo com o diretor de secretaria da Câmara, Heltman Viscainho Terenciani, os soldados Carlos Eduardo Matias dos Santos e Danilo Constantino Ferreira estavam entre os 83 militares do 37º Batalhão de Infantaria Leve, com sede em Lins, que participaram da missão humanitária no Haiti desde junho do ano passado.
Os dois, juntamente com outros 22 militares da unidade, retornaram ao Brasil na semana passada, mas tiveram que passar por processo chamado de “desmobilização”, que incluiu uma série de procedimentos médicos, entre eles, exames de sangue e testes psicológicos. Somente na tarde de anteontem, por volta das 15h, os dois puderam voltar para suas casas em Pongaí.
“Vai ser lido um breve histórico da vida dos dois”, explica Terenciani. Em seguida, os presentes cantarão o Hino Nacional e os parlamentares farão um relato sobre a atual situação do Haiti e sobre o trabalho realizado pelos militares brasileiros no País. “Depois, vai ser entregue uma placa para cada um, em nome da Câmara, homenageando eles pelos relevantes serviços prestados no Haiti”, diz.
Recepção calorosa
Em nota oficial, o comandante do 37º Batalhão de Infantaria Leve de Lins, o tenente-coronel Paulo Maurício de Moraes Magalhães, informou que, após seis meses no Haiti em missão de Paz comandada pela Organização das Nações Unidas (ONU), o primeiro escalão, formado por 24 militares que constituíam a 3ª Companhia de Força de Paz, chegou à unidade às 12h20 de anteontem.
O grupo foi recebido pelo comandante do Batalhão de Lins em cerimônia restrita aos familiares. Em seguida, os militares participaram de coquetel no refeitório de oficiais. “Na chegada, todos os militares demonstraram o sentimento de missão cumprida, mostrando também a tristeza e o pesar pela perda do subtenente Raniel Camargos e de vários outros que lá estiveram, mas não sobreviveram à tragédia”, afirma a nota.
Segundo a nota enviada pelo comandante, após a entrega dos materiais de emprego militar e do armamento, os membros do primeiro escalão, também chamados de “Boinas Azuis”, foram recompensados com 15 dias de dispensa pela ONU e 30 dias de férias. Logo após a recepção em Lins, os militares se dirigiram para suas cidades de origem. Em Pongaí, cerca de 100 pessoas entre familiares, amigos e populares se aglomeraram no trevo de entrada do pequeno município para aguardar a chegada dos soldados Carlos Eduardo Matias dos Santos e Danilo Constantino Ferreira.
Os militares, recebidos como heróis pela população, percorreram as principais ruas da cidade acompanhados por uma grande carreata. O encontro contou com a presença do presidente da Câmara de Pongaí, Orlando Zini; da vice-prefeita Maria Helena Papetti Navarro e vereadores.
Em Uru, uma grande festa foi preparada por amigos e familiares para receber o cabo Rodolfo Henrique Lucas Buzo, de 22 anos, que também retornou na semana passada do Haiti. Na chegada, o militar foi cumprimentado pelo prefeito João Luiz Veronezi e por vereadores do município. Em seguida, Buzo saiu em carreata pelas ruas da cidade, onde foi recebido como herói. Procurado pelo Jornal da Cidade, o cabo informou que não tinha autorização para revelar detalhes sobre a missão no Haiti.
____________________
‘Começou a tremer tudo’
O soldado Danilo Constantino Ferreira, 20 anos, é solteiro e mora em Pongaí com quatro irmãos e uma irmã. Ele contou à reportagem do Jornal da Cidade detalhes sobre o que viu e sentiu no momento do terremoto que abalou o País na tarde do dia 12 de janeiro às 16h53 locais, ou 19h53 de Brasília.
Segundo ele, no dia do forte tremor de terra, estava tudo preparado para seu retorno ao Brasil. “A gente estava na nossa Base esperando dar o horário para ir para o aeroporto e poder pegar o avião”, afirma. “Começou a tremer tudo, cair as coisas e a gente saiu de lá correndo. Na hora em que começa a tremer tudo você não sabe para onde vai, todo lugar está balançando”.
O soldado diz que tremores de terra com menor intensidade continuaram a ocorrer logo em seguida. “Todo mundo que estava lá conseguiu sair”, revela. “A gente não tinha conhecimento que tinha sido tão forte aquele tremor. Não tínhamos noção do que tinha acontecido. Ninguém tinha passado por aquilo antes”.
Ferreira diz que passou a compreender a real dimensão do terremoto quando começaram a chegar mensagens via rádio informando sobre a existência de grande quantidade de feridos nas ruas da capital Porto Príncipe implorando por socorro e pessoas soterradas sob os escombros de prédios em ruínas.
“Tudo é muito difícil, mas você ver pessoas sem ter lugar para ficar, deitadas todas na rua, é uma experiência difícil”, conta. “Nossa missão lá era prover a paz e a segurança do País. Mas, com esse acontecimento, a gente foi ajudar na distribuição de alimentos e baldes de água para a população”.
Segundo o soldado, além da sensação de sentir tudo tremendo, uma das situações que mais lhe chocou foi ver o desespero de centenas de pessoas que haviam perdido tudo o que tinham em apenas alguns segundos. “No País tem muita pobreza. A gente aprende muita coisa como dar mais valor na vida”.
Questionado se voltaria algum dia para o Haiti, o jovem militar responde, após um período de hesitação. “No momento, eu não voltaria não. A gente fica muito preocupado com a nossa família. É uma coisa que marca muito a gente”, desabafa.