Porto Príncipe - O governo do Haiti estará na liderança da recuperação de seu próprio país, destruído por um terremoto há duas semanas, mas a ONU (Organização das Nações Unidas) terá papel-chave na coordenação dos esforços. Esta foi a principal decisão da Conferência Preparatória Ministerial em favor do Haiti, que reuniu cerca de 20 países e instituições multilaterais ontem no Canadá.
Acaba assim, pelo menos no papel, a disputa de bastidores pela primazia nas ações de recuperação do país, que nos últimos dias tem causado confusão e tensão entre EUA, ONU, Brasil, França e União Europeia, entre outros atores com interesse e participação ali.
Além disso, foi convocada para março, na sede da ONU, em Nova York, uma conferência internacional de doadores para coordenar o uso do dinheiro arrecadado para a reconstrução do país, que segundo alguns cálculos já passa de US$ 1 bilhão de dólares, ou um sexto do PIB haitiano.
“Os haitianos são donos de seu futuro’’, começa o documento divulgado ao fim da reunião ministerial, chamado pelos participantes de “mapa do caminho” para a reconstrução. “Nós respeitamos a soberania haitiana, vamos envolver o povo haitiano e estaremos alinhados com as prioridades do governo do Haiti.”
Antes, pela manhã, falando ao plenário da reunião, o primeiro-ministro do Haiti, Jean-Max Bellerive, já tinha lançado o apelo. “O governo haitiano está funcionando em condições precárias, mas é capaz de prover a liderança que o povo haitiano espera dele nos desafios colossais em direção ao desenvolvimento”, disse ele, afirmando que o esforço seria “dos haitianos, pelos haitianos’’.
A questão sobre quem está no comando dos esforços vem mobilizando a atenção da opinião pública internacional, pelo grau de destruição do país, o recorde do dinheiro arrecadado e o histórico tanto de intervenções estrangeiras no Haiti como de mau uso da verba pública por sucessivos governos.
Também preocupam o longo prazo previsto para a reconstrução e o custo total. Para o premiê canadense, Stephen Harper, que falou ontem na reunião como convidado, “não é um exagero afirmar que dez anos de trabalho duro esperam o mundo”, prazo mínimo repetido pelo documento.
Quanto ao custo, o ministro haitiano do Turismo, Patrick Delatour, chegou a dizer ao “New York Times’’ que US$ 3 bilhões seriam necessários, mas o valor não foi confirmado pelo primeiro-ministro Bellerive, que só ressaltou o tamanho da necessidade atual.
____________________
Desabrigados resistem a abandonar Porto Príncipe
Porto Príncipe - Com as buscas por sobreviventes praticamente encerradas e o foco mudando para o reassentamento dos desabrigados, o Haiti e a ONU têm de enfrentar a ira de pessoas como o padre vodu Dessaiville Espady.
“Não vou sair daqui para um lugar que nem sei onde fica!”, diz, exaltado, o morador de uma tenda numa praça em Delmas 2, bairro central de Porto Príncipe.
Duas semanas após o terremoto, há milhares de desabrigados tomando as praças da capital haitiana. Ontem, o governo disse querer realocar nesta semana ao menos 400 mil sobreviventes em acampamentos na periferia da cidade. Mas a ideia de se mudar desagrada mesmo a quem passa o dia em ruas imundas.
O medo é que não seja um alívio temporário, mas uma mudança definitiva de endereço, longe de empregos e da possibilidade de recomeçar a vida.
Em muitos casos, residências e negócios não desabaram, mas racharam. Muitos querem dinheiro para reconstruir seus imóveis.
As estimativas da ONU são que 1 milhão de pessoas ficaram desabrigadas no Haiti, e 700 mil delas estão vivendo nas ruas de Porto Príncipe (que tinha 2 milhões de habitantes antes do terremoto). Cerca de 30 mil casas, a maioria no centro da capital haitiana, ficaram completamente destruídas, e um número indefinido está comprometido.