Em sua obra clássica “O Leviatã”, de 1651, o pensador inglês Thomas Hobbes afirmava que “os pactos sem a espada não passam de palavras, sem força para dar segurança a ninguém”. Porém, numa sociedade como a nossa atual, que se afirma democrática, seria preferível que as regras não necessitassem da mão pesada do Estado para se fazerem valer. Seria...
Se observarmos atentamente à nossa volta, notaremos que muitas normas só são respeitadas porque as pessoas têm medo de ser punidas. No trânsito de Bauru, essa verdade se torna ainda mais notória. Diante dos fiscais e dos radares, todo os motoristas são responsáveis e atentos às regras.
Basta, porém, os azuizinhos - como são conhecidos popularmente os agentes de tráfego da Empresa de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) - virarem as costas para a barbárie começar. À noite, quando os fiscais saem das ruas e os radares deixam de funcionar, as leis de trânsito transformam-se em “letra morta”.
As placas de limite de velocidade, por exemplo, são vistas por grande parte dos motoristas como meros adornos esquecidos ao largo das ruas e avenidas. Na última quarta-feira, a Emdurb realizou uma operação de fiscalização na quadra 4 da Nações Unidas, no Centro, das 20h às 22h30. O objetivo da autarquia não era multar (tanto que sequer chegaram a ser elaborados autos de infração), mas sim aferir o comportamento dos condutores no período noturno.
Os veículos que passaram pelo local no período em questão circulavam, em média, a uma velocidade de 65 quilômetros por hora (km/h). O limite permitido para aquele trecho é de 50 km/h. O recorde de rapidez coube a um carro, que cruzou o radar a 93 km/h. Um motociclista por pouco não igualou a marca: passou pelos fiscais a 85 km/h.
Na noite seguinte, a reportagem resolveu ir às ruas para acompanhar “in loco” o comportamento dos condutores bauruenses. Chovia sem parar e, por essa razão, a maioria dos motoristas preferiu adotar uma postura cautelosa para evitar acidentes
Isso não impediu que muitos ases do volante “atropelassem” o Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Por volta das 21h10, um Ford Fiesta preto, de Bauru, passou pela lombada eletrônica da avenida Nações Unidas (na altura do Parque Vitória Régia) a 69 km/h. Como a lei determina uma margem de erro de sete km/h a menos em favor do infrator, o condutor do veículo acabou autuado por transitar a 62 km/h, infração considerada média.
Sem autoridade
À noite, os semáforos têm tanta autoridade quanto um pisca-pisca de árvore de Natal. Às vezes, dá a impressão de que o acender da luz amarela dispara uma espécie de gatilho mental nos cérebros dos condutores, os motoboys em especial.
Tão logo percebem que o semáforo está para fechar, os motociclistas aceleram o máximo que podem, na tentativa de atravessarem o cruzamento antes de o farol abrir. Alguns buzinam freneticamente, exigindo que os demais veículos abram passagem.
A falta de respeito aos semáforos é um problema fácil de ser percebido na avenida Duque de Caxias. Estacionamos lá às 22h. Mal pusemos os pés para fora do carro e já flagramos quatro veículos (dois automóveis e duas motos) passando no sinal vermelho. Nos minutos que se seguiram, vimos o CTB ser “atropelado” várias outras vezes.
Essa ousadia desnecessária pode custar muito caro a um motorista apressado. Quando o sinal amarela, demora apenas três segundos para a luz vermelha acender. Depois disso, o tráfego ainda fica paralisado nas duas vias por mais dois segundos, somente - dois segundos, que podem significar a diferença entre a vida e a morte trágica.
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Motos flagradas
Às vezes, o desejo de burlar as regras leva alguns condutores a apelarem para saídas bastante trabalhosas. Os motociclistas bauruenses descobriram que poderiam driblar a lombada eletrônica da avenida Nações Unidas (próximo ao Parque Vitória Régia) se transitassem exatamente sobre a faixa branca que separa a via ao meio ou se passassem rente às guias.
Desde o último dia 25 (quando os radares fixos voltaram a multar em Bauru), porém, a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) ampliou a capacidade das câmeras do equipamento e passou a ter condições de registrar as imagens dos motociclistas infratores. “Antes, conseguíamos até aferir os excessos de velocidade, mas tínhamos dificuldade de fotografar as motos”, explica Gustavo Cardoso, da Gerência de Multas da autarquia.
De lá para cá, 30 motociclistas foram flagrados pelo equipamento transitando pela faixa branca acima da velocidade permitida (60 quilômetros por hora). Os autos de infração estão sendo lavrados e deverão ser enviados aos condutores apressados a partir de segunda-feira.