07 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Tragédias


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Aconteceu noite dessas em estrada de grande tráfego do Interior paulista. Dirigindo de forma inconseqüente, pela contra-mão de direção, motorista chocou seu veículo contra outro, arremessando-o para a pista contrária, aonde nova colisão veio a ocorrer. O desastre tomou vulto ainda maior quando uma fagulha envolveu os autos, transformando-os aos poucos, em uma bola de fogo. Movidos pelo instinto de solidariedade, tão comum ao povo interiorano, outros condutores pararam seus carros, e, com os extintores, procuraram prestar o auxílio necessário. Três deles, ao cruzarem a auto-estrada, foram atropelados, vieram a morrer.

Entre os vitimados estava Fernando, querido menino-moço, casado com Miriane, minha afilhada. Ele se foi, como herói anônimo, desses que o dia-a-dia forja, deixando a pranteá-lo - mágoa inesquecível - sua mãe que a tudo assistiu do interior do automóvel estacionado; seu irmão, que descrendo da realidade, ficou a abraçá-lo, por longo tempo. Ele se tornou saudades, daquelas que não se apagam, nas lembranças dos inocentes Guilherme e Helena, crianças que endeusavam o pai...

Pecado mortal do escritor, bem o sei, é deixar que a emoção dele tome conta; é trazer suas intimidades, e com ela suas dores ao leitor. Peço, porém, hoje, excepcionalmente, a compreensão de todos. O fato atordoou-me, e eu queria dividi-lo, e entendi fazê-lo com aquele que, mesmo à distância, já se tornou meu companheiro, quase cúmplice.

Queria, mais que isso, chamar a atenção para a alarmante sucessão de acidentes de trânsito que vem acontecendo – entre nós, segundo reportagem deste jornal, no domingo, mais de onze acontecem por dia, indo além de vinte por cento os casos fatais – infelicitando famílias, ceifando vidas, provocando a orfandade, levando nossos “Fernandos”.

Que os novos tempos, propiciados por uma economia estável e até certo ponto em alta, permitiu acesso incondicionado aos automóveis, é inquestionável (que o digam os diários engarrafamentos que acontecem nas metrópoles). Que o mesmo governo que propiciou o benefício, negligentemente, não se preocupou em educar aqueles que os usariam, também incontestável.

Assim, choferes bêbados, abusando da velocidade, circulando em desacordo com as regras de trânsito, efetuando manobras absurdas, despreocupados com seus semelhantes, a todos os momentos são flagrados.

Assim, tragédias previamente anunciadas continuam a ocorrer, deixando no ar a desesperança e o desconsolo, na boca, o gosto amargo da tristeza. À falta de medidas oficiais, que cada um se conscientize, se auto-eduque, reconheça sua responsabilidade, é o que se espera. Diminuirão então os “assassinos ocasionais”.

Paulo Passos - advogado - professor universitário - mestre e doutor em Direito pela PUC/SP