Crianças e pré-adolescentes que utilizam frequentemente os torpedos via SMS desenvolvem melhor a leitura e a escrita. É o que aponta um estudo, publicado semana passada, feito pelos pesquisadores da British Academy. Conforme o estudo, boa parte das crianças que usam as abreviações de palavras nas mensagens de texto entre telefones celulares, domina a pronúncia correta.
Motivado por reclamações de que as abreviações nos textos, comuns também nas trocas de mensagens em programas de comunicação online, como o MSN, atrapalhariam a assimilação da norma culta (no caso, da língua Inglesa), os estudiosos ingleses analisaram um grupo de crianças e jovens para avaliar uma possível associação entre o uso da linguagem abreviada e a alfabetização.
“Ficamos surpresos em ver que não apenas a associação era forte, mas que o uso de mensagens de texto auxilia no desenvolvimento de habilidades fonoaudiológicas e da capacidade de leitura das crianças”, afirmou Clare Wood, especialista em desenvolvimento psicológico da Universidade Coventry, na Inglaterra, em matéria publicada pela Folha On Line, na semana retrasada.
Para estudiosos e educadores brasileiros, tanto as formas abreviadas, obrigatoriamente assimiladas de forma coletiva em função da própria velocidade com que trafegam as informações, seja via celular ou Internet, devem andar de mãos dadas. Cada uma, avaliam, deve ser usada de maneira específica.
“Há de haver uma adaptação”, considera a professora Terezinha Fortes Mestrinelli, doutora em linguística em língua portuguesa e docente na disciplina de técnicas de comunicação das Faculdades Integradas de Bauru (FIB). “Contudo, ainda existe a necessidade do uso da norma culta”, pondera. “Ninguém pode, por exemplo, enviar um currículo a procura de emprego iniciando com a saudação: ‘e aí carinha?’, ilustra.
Já Ricardo Luiz Nicola, professor de jornalismo digital do curso de jornalismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Bauru liga o advento das mensagens trocadas entre celulares a uma alegada mutação nas matrizes textuais. O fenômeno, conforme o acadêmico, com pós-doutorado na Universidade de Toronto pelo Programa Mc Luhan em Cultura e Tecnologia, não se restringe apenas ao SMS. “Temos que aceitar a transformação. Vivemos uma era de mudança com a entrada da TV digital, I-Phones, blogs, twitter”, exemplifica Nicola, que define os campos abrangidos pelas normas culta e “informal/eletrônica” como “fronteiras”. “São as fronteiras on e offline”, conceitua.
De ‘volta’ para o passado
O estudioso vai além e acredita que a era virtual pode nos levar, ao futurismo de mensagens trocadas em velocidade cada vez maior eletronicamente ao nosso próprio passado: “Isso pode nos remeter ao passado. Pode ser que a norma culta continue, mas a crise na matriz entre texto virtual e analógico faz com que estejamos cada vez mais híbridos, propiciando uma ‘renegociação de fronteiras’”, observa, ao comparar o Português falado no Brasil e o praticado na Península Ibérica como outra forma de “encontro com o passado”, no caso dos portugueses.
“A língua falada aqui é a que era utilizada em Portugal antigamente. Os primeiros portugueses que aqui chegaram falam igual aos brasileiros de hoje em dia. Da mesma forma em que o MSN, por exemplo, pode nos remeter ao passado”, supõe.