São Paulo - O ímpeto consumista dos jovens, especialmente de classe média alta, está levando as finanças das famílias para o vermelho. Os lares com filhos entre 12 e 19 anos têm despesa mensal familiar que excede em 5% as receitas, enquanto as famílias sem adolescentes conseguem poupar 5% do que ganham, revela pesquisa realizada pela Kantar Worldpanel (ex- LatinPanel).
A consultoria visita semanalmente 8,2 mil domicílios no País para fotografar o consumo do brasileiro.
O furo no orçamento que está levando as famílias a se endividarem para quitar as contas do mês é ainda maior entre as camadas sociais mais altas. Os domicílios das classes A/B, com renda mensal superior a dez salários mínimos (R$ 5,1 mil), gastam em média 8% a mais do que ganham por causa das despesas de consumo dos adolescentes.
No caso da classe C, a despesa excede em 3% a receita e nas camadas D/E o diferencial é de 5%. “Hoje os filhos são paparicados e os pais estão endividados”, resume a diretora da consultoria e responsável pela pesquisa, Christine Pereira.
O engenheiro Wagner Varela, 48 anos, pai de Beatriz, 17 anos, confirma a constatação da pesquisa: “Hoje está difícil poupar”. Varela conta que há vezes que precisa recorrer ao cheque especial para fechar o mês. Entre despesas com faculdade, aulas de inglês, piano, jazz, academia, cabeleireiro, celular, cinema, lanche, transporte e roupas, ele gasta com a filha única cerca de um terço da renda familiar. Só com roupas, o desembolso gira em torno de R$ 300,00.
Beatriz não se considera consumista perto dos amigos que vão todo os finais de semana ao shopping e exibem, com frequência, um par de tênis novos, mas ela admite que prefere roupa de marca. “Calça eu compro na ponta de estoque da Carmim porque ela veste bem”, afirma a adolescente, que não gosta de balada. “O que eu mais gasto é com roupa.”
De fato, a pesquisa revela que as famílias com adolescentes desembolsam 43% a mais com artigos de vestuário do que as famílias sem jovens. As despesas com serviços de comunicação e alimentação fora de casa também são 9% e 10% maiores, respectivamente, nas mesmas bases de comparação.
Outra pesquisa, só que qualitativa, feita pela empresa Millward Brown para avaliar relação dos jovens com as marcas no mundo digital, mostra que de sete consideradas como grandes marcas pelo público jovem, quatro são de artigos de vestuário. Valkiria Garre, diretora da empresa e responsável pela pesquisa, conta que os jovens falam das marcas de roupa como seus pais, ressaltando a qualidade.
Rodrigo Messias, diretor de Sport Performance da Adidas, que é uma das marcas tidas como consagradas pelos adolescentes, segundo a pesquisa, diz que mais da metade do faturamento da empresa vem das vendas para o público jovem e entre 70% e 80% dos lançamentos estão voltados para esse consumidor. “Os teens são muito representativos no mercado de material esportivo”, observa.
Nas Lojas Renner, especializada em itens de vestuário, por exemplo, as vendas para o público teen não representam a maior fatia da receita. “Mas têm um papel estratégico”, afirma Gabriela Lima, gerente geral de Estilo da rede. Ela ressalta que, se esse consumidor jovem for conquistado pela empresa, poderá se tornar fiel à loja quando adulto.
Hoje a rede tem três marcas próprias de artigos de vestuário voltadas para jovens. Uma delas, a Mix Teen masculina, está apoiada na Adidas como marca principal entre os itens vendidos na loja. Gabriela diz que a Adidas é referência para os meninos que têm ídolos no esporte.
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Gigantismo
São Paulo - O mercado de consumo dos teens é gigantesco. Nas contas de Christine, da Kantar Worldpanel, entre alimentos diferenciados, roupas de marca, celulares sofisticados e serviços de cabeleireiro, por exemplo, são movimentados R$ 48 bilhões por ano. A cifra se equipara ao total de desembolsos destinados à indústria feitos pelo BNDES entre janeiro e setembro de 2009.
A pesquisa revela também que a alimentação em casa é a despesa que mais pesa no orçamento das famílias com adolescentes (18%). O carrinho de supermercado dos lares com jovens é mais cheio do que o das famílias sem teens, em todos os estratos sociais.
Segundo a enquete, as famílias das classes A/B com adolescentes compram 41 categorias de produtos, quatro a mais que os lares sem teens. No caso das classes D/E, o diferencial é ainda maior: 38 categorias no carrinho das famílias com adolescentes, ante 32 categorias nos lares sem jovens.
O engenheiro Varela, por exemplo, conta que conheceu alguns itens, como bebidas isotônicas e lanches rápidos que vão direto ao micro-ondas, por intermédio da filha adolescente. E esses itens foram incorporados à lista de compras da casa.
Um dos destaques da pesquisa, observa Christine, é exatamente a forte presença de alimentos práticos e rápidos na lista de compra das famílias com jovens. A penetração do catchup é 23% maior no carrinho de compras das famílias com jovens em relação ao das famílias sem jovens. No leite aromatizado e na massa instantânea, por exemplo, os índices de penetração são 20% e 13% maiores, respectivamente, nas mesmas bases de comparação.
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Jovens da classe C administram recursos e economizam 32% do que ganham
São Paulo - O estudante de engenharia André Paparazzo, 20 anos, operador de máquinas da Volkswagen, poupa desde os 15, quando começou a estudar no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). No início deste ano, ele alcançou uma de suas metas: comprou o primeiro carro, um Gol zero quilômetro e à vista. “Quando comecei a trabalhar, sempre pensei em comprar o meu carro.”
Para atingir esse objetivo, Paparazzo conta que poupava tudo que dava. “Quando recebia o 13.º e a participação nos lucros, fingia que nem recebia e colocava tudo na caderneta de poupança.” O espírito poupador, segundo ele, vem desde criança. Quando ganhava uma mesada ou algum presente em dinheiro da família, ele guardava tudo numa “latinha”.
Hoje, com salário de quase R$ 1,6 mil mensais, ele paga boa parte da faculdade (a sua maior despesa), gasta pouco com roupas, controla o uso do celular. Com isso, consegue cobrir a maior parte das suas despesas, apesar de morar na casa dos pais.
Paparazzo é o retrato fiel dos jovens de menor poder aquisitivo que, segundo a pesquisa Kantar Worldpanel (ex- LatinPanel), mostra que, quando a análise é feita na esfera da renda individual, os adolescentes das classes C e D/E administram melhor os recursos que recebem da família ou de seus ganhos pessoais no mercado de trabalho.
Segundo a pesquisa, os jovens da classe C economizam 32% do que ganham e os das camadas D/E poupam 48% da sua renda individual. Já os mais ricos, das classes A/B, são descontrolados, diz Christine Pereira, responsável pela enquete. Isto é, eles gastam 14% mais do que recebem.
“Prefiro gastar mais do que poupar”, afirma a adolescente Vitória Franco Arrivabene, 13 anos. Estudante da 6.ª série do ensino fundamental, ela conta que vai ao cabeleireiro fazer as unhas a cada 15 dias, compra roupas e só não gasta mais com celular porque sua conta é controlada pela avó, que impôs o limite de R$ 35,00 por mês.
O telefone celular, por exemplo, um dos itens mais citados na lista de compras dos jovens, ela troca uma vez por ano. “Eu gosto de aparelhos com mais recursos”, diz a estudante, que ainda não trabalha e depende da renda dos pais.