A tempestade 45 minutos que atingiu a cidade de Bauru na tarde de ontem foi capaz de derrubar árvores e outdoors, destelhar casas, apagar semáforos, desalojar famílias, alagar ruas e interromper o abastecimento de energia elétrica para, pelo menos, 60 mil pessoas por mais de horas. Duas pessoas chegaram a ficar presas em elevadores durante da chuva, no mínimo. Apesar dos estragos, ninguém ficou ferido.
O Instituto de Pesquisas Meteorológicas da Universidade Estadual Paulista (IPMet/Unesp) calcula que choveu 30 milímetros em menos de uma hora. O volume é considerado grande. O maior índice pluviométrico registrado em 2010 foi calculado no dia 28 de janeiro. Na ocasião, durante o dia todo, chouveu 40 milímetros. Mas foi o vento o responsável pelos principais estragos.
Ele atingiu velocidade de 66 quilômetros por hora, o que já pode ser classificado como vendaval. Nas imediações do IPMet, condomínios foram atingidos por granizo.
O temporal teve início às 16h15, quando uma célula vinda de Itápolis, onde também choveu granizo, atingiu Bauru. A cidade rapidamente escureceu. De acordo com a CPFL Paulista, os bairros atingidos com a falta de energia foram o Distrito Industrial, Centro, Parque Estoril, Jardim Europa, Jardim América, Parque São Geraldo, Vista Alegre e Bela Vista. Entretanto, vários outros pontos ficam no escuro em toda cidade, durante várias horas.
O JC recebeu dezenas de queixas. Bauru, literalmente, apagou. Para se ter uma ideia, às 21h30, a CPFL ainda tinha 60 eventos para atender. Por causa da ventania, que não poupou árvores centenárias e as arrancou pela raiz, as 15 equipes de manutenção da CPFL Paulista demoraram mais do que o inicialmente previsto – duas horas - para atender todos os chamados. É que muitas árvores caíram sobre os fios da rede, interrompendo o fornecimento de energia.
Pelo menos 20 árvores grandes vieram abaixo com a velocidade do vento em Bauru. O volume de ligações no Centro de Operações do Corpo de Bombeiros (Cobom) era tanta que os policiais de plantão não conseguiam parar para contabilizar o número de atendimentos. A única informação era a de que todas as solicitações eram relativas à queda de árvores.
Frustração
Quem resolveu ter um domingo de lazer e passear no shopping passou por momentos de tensão. A energia foi interrompida e, segundo relato de lojistas, o gerador não foi ligado. No entanto, nas imediações, a Polícia Militar localizou um veículo aberto, todo molhado. O proprietário aproveitava o domingo para fazer compras. Já o aposentado Edson dos Santos Alves, 61 anos, ainda estava tomando coragem para chegar perto de seu carro, um Corsa Sedam preto, placas CKB 2883, depois da tempestade. Um galho caiu sobre ele, que estava estacionado na quadra 2, da avenida Cruzeiro do Sul, na Vila Cardia. “Acho que foi só a ponteira da árvore que caiu. Espero que não tenha muito dano material”, afirma. Somente neste quarteirão, o vento arrancou mais três árvores.
Na avenida Duque de Caxias, na altura da quadra 16, um outdoor que pesa toneladas parecia uma folha de papel retorcida na calçada, após a ventania. No viaduto, a poucos metros dali, uma árvore deitada quase impedia o trânsito na avenida Nações Unidas. A fiação elétrica do local foi arrancada com a força da queda.
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Quedas
Da janela de um restaurante, que fica em frente ao Parque Vitória Régia, a proprietária do Corsa Sedam preto, placas EKT 7763, viu seu veículo, que estava estacionado, ser literalmente partido ao meio por uma palmeira. Quem estava no estabelecimento contou que ela entrou em estado de choque. Dezenas de curiosos se aglomeraram no local, mesmo embaixo de chuva, para ver a situação do veículo e até tirar fotografias. Era difícil acreditar no que se via. A árvore era tão grande que sua queda provocou, inclusive, a interdição da rua.
No Jardim América, minutos antes da árvore cair sobre a rua Paulo Valle, o promotor de vendas Pedro Barbosa, 39 anos, pensou em deixar seu carro estacionado em baixo dela. “Foi por pouco. Sai para comprar um chocolate. Quando voltei, pensei em estacionar fora da casa, mas desisti e entrei. Estava na sala quando escutei o barulho. Se meu carro estivesse ficado para fora, teria virado um papel agora”, diz.
Na alameda Octávio Pinheiro Brisolla, a professora Léa Silva Braga de Castro Sá, 64 anos, estava sozinha em casa quando escutou um forte barulho. “Pensei que fosse um galho. Fui olhar, mas o portão não abria”, afirma. A árvore caiu sobre o muro da casa, que já ameaçava ceder, na tarde de ontem.
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Chuva destelha casas
Dois quarteirões da rua Padre João, na Vila Universitária, ficaram devastados com a forte chuva que atingiu Bauru na tarde de ontem. Toldos e coberturas de estabelecimentos comerciais caíram e casas ficaram destelhadas. “Ouvi o barulho e chovia muito. Abri a janela e vi que o toldo do vizinho da frente tinha caído. Mas depois, assustei quando vi que as calhas e as antenas da minha casa dobraram”, afirma.
Outra casa que sofreu avarias por causa da tempestade seguida de vendaval foi a dos irmãos Maria Aparecida e Tadeu dos Santos Melo, de 55 e 57 anos, respectivamente. Os dois possuem deficiência mental. Ele é também deficiente visual e passa por tratamento de hemodiálise no Hospital de Base (HB). A casa onde moram, na rua Aviador Gomes Ribeiro, está ruindo. Os muros vieram abaixo ontem. “Na hora da chuva, fiquei orando para Santo Expedito. Pensei que a parede iria cair. Fiquei com medo desta vez”, diz Maria Aparecida.
Preocupadas com o situação dos irmãos, assistentes sociais acionaram o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito. “Conseguimos uma vaga para eles passarem a noite no Albergue Noturno”, afirma. Depois, elas (assistentes sociais) vão resolver como vai ficar a situação deles, até que o terreno onte fica a residência seja vendido e uma nova casa, adquirida. Interessados em ajudá-los podem obter informações pelo telefone (14) 32184021.