Os bauruenses terão de conviver mais um tempo com o saldo negativo do temporal de anteontem à tarde. Com uma precipitação acumulada de 30 milímetros em apenas 30 minutos (um milímetro por minuto) e rajadas de até 70 quilômetros por hora (km/h), o vendaval de domingo mandou para o chão em torno de 60 árvores - a maioria delas saudável, segundo o secretário municipal de Meio Ambiente, Valcirlei Gonçalves da Silva.
“O vento afetou plantas de todas as idades e tamanhos”, disse, enquanto providenciava a remoção da palmeira-imperial que esmagou um carro no Parque Vitória Régia. Pelas contas do coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, entre 35 e 45 árvores teriam tombado em decorrência do vento.
Segundo as estimativas do Corpo de Bombeiros, esse número poder passar de 60. “Deverá demorar mais uns dois dias para remover todos os detritos do temporal”, avaliou Brito. Valcirlei era menos otimista. “Acho que vamos demorar mais uns três dias para recolher todos esses galhos e troncos”, ponderou.
Os estragos do temporal ficaram restritos a uma parte relativamente pequena da cidade: parte da área central e da zona sul. “Podemos dizer que foi sorte. Se a chuva tivesse atingido regiões mais vulneráveis, como os bairros das regiões oeste e noroeste (onde existem muitas favelas), a destruição seria tremenda”, avalia Brito.
Ainda assim, a Defesa Civil teve trabalho para atender a todas as ocorrências que chegavam. Em um determinado momento, o órgão ficou sem material para isolar as áreas de risco. Os bombeiros viveram situação semelhante. Ontem pela manhã, eles ainda recebiam inúmeros pedidos de remoção de árvores e galhos caídos.
Os detritos da tempestade causaram transtorno aos moradores da zona sul. Os funcionários do Centrinho tiveram trabalho para retirar os galhos de sibipiruna que interditavam a calçadas e parte das rua ao redor da instituição.
A quadra 24 da rua Araújo Leite passou a manhã toda interditada para que os bombeiros pudessem podar uma árvore que ameaçava cair sobre uma clínica odontológica. O construtor Joaquim Duarte, 57 anos, trabalhava no local no momento da tempestade.
“Se não fossem os prejuízos causados à população, seria até uma cena bonita de se ver. Nunca, na vida, vi tantos galhos voando”, disse. Na avaliação dele, se os galhos da sibipiruna tivessem caído sobre o imóvel, teriam causado um prejuízo de, no mínimo, R$ 25 mil.
Só de pensar na hipótese, a proprietária da clínica, a dentista Márcia Kawauchi, quase vai às lágrimas. “Nem me fale numa coisa dessas”, disse. Recentemente, ela entrou em contato com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) para solicitar a supressão da árvore. “Não sou contra a natureza. Muito pelo contrário. Na minha opinião, o capitalismo não pode ser desenfreado. Só que a população não pode arcar com um risco desses (a árvore comprometida)”, afirma.
O oftalmologista José Carlo Tosi tem opinião parecida. A clínica dele quase foi atingida por uma sibipiruna que tombou com raiz e tudo, devido ao vendaval. “Depois da chuva é que me avisaram desse desastre. Sorte que ninguém se feriu”, afirmou.
Tosi garantiu que há tempos desejava substituir as árvores antigas por mudas novas. “Só que a Semma sempre negou os pedidos”, disse. Uma das sibipirunas estaria atacada por cupins. Os insetos estariam infestando o madeiramento do telhado da clínica.
Os irmãos Maria Aparecida e Tadeu dos Santos Melo, que no domingo foram levados para o Albergue Noturno porque a casa onde moram, na rua Aviador Gomes Ribeiro, está ruindo, ontem continuavam abrigados na entidade. Os dois possuem deficiência mental e ele também é deficiente visual.
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Em meia hora choveu 30 milímetros
Segundo o Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, o temporal de anteontem teve intensidade alta, com ocorrência de granizo e ventos de até 70 quilômetros por hora. A precipitação acumulada foi de 30 milímetros em 30 minutos. Com isso, Bauru fecha janeiro com 211 milímetros de chuva acumulada, ainda abaixo da média histórica do mês, que é de 293 milímetros.
“Essa chuva veio da região norte do Estado, o que não é muito comum, mas pode acontecer nesta época do ano”, explica o meteorologista José Carlos Figueiredo. Segundo ele, a chuva atingiu apenas uma parte da cidade. “Devido à sua trajetória, o temporal não afetou certas áreas do município”, salienta.
Conforme o próprio meteorologista disse, tempestades vindas do norte não são comuns na região. Temporais como o de domingo são denominados popularmente de “chuva que molha a casa do joão-de-barro”. Conhecidos como os arquitetos do reino animal, os joões-de-barro costumam fazer a entrada de seus ninhos para o norte, a fim de evitar que o interior seja atingido pelas chuvas. Eles fazem isso instintivamente.
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Restruturação
O coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, afirma que o órgão que deverá passar por uma restruturação nos próximos meses. A intenção é criar núcleos do órgão nos bairros afastados, diminuindo o tempo de resposta em situações de emergência, como a registrada anteontem.
“Atualmente, demoramos, em média, 40 minutos para responder a um chamado nas áreas distantes do município”, explica Brito. Os núcleos da Defesa Civil consistiriam em pessoas da comunidade treinadas para realizar ações imediatas contra catástrofes - isolar áreas de risco, interditar ruas, desligar a energia elétrica em locais ameaçados. As primeiras experiências nesse sentido deverão ser desenvolvidas no distrito de Tibiriçá.