11 de julho de 2026
Bairros

Foliãs de salão produzem as próprias fantasias

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 6 min

A busca pelo tecido ideal, viagens a São Paulo e inúmeras visitas à costureira são algumas das atividades incorporadas à rotina de mulheres que, no mês do Carnaval, se transformam em foliãs e não medem esforços para garantir sucesso nos tradicionais bailes da época.

Produzir a própria fantasia é o principal quesito para quem quer se destacar pela originalidade e exclusividade ou, ainda, para quem deseja atrair olhares para os famosos blocos. Kátia Regina Alves Broco do Amaral, 43 anos, adotou o costume quando ainda era menina. Ela conta que nos tempos áureos da festa era comum as pessoas passarem boa parte do ano economizando dinheiro para caprichar na produção da fantasia carnavalesca.

A tradição está tão presente na personalidade de Kátia que ela confessa que já passou noites em claro para dar conta de finalizar a produção a tempo para estrear no grande dia, e também já cogitou a hipótese de fazer um curso de corte e costura unicamente para poder atuar em todas as etapas da confecção.

“Sou muito exigente e começo a planejar minha fantasia no mês de outubro, para que tudo saia nos conformes. Não compro roupas prontas porque nem sempre são adequadas ao meu desejo, além de serem pobres em detalhes. Uma vez passei dias bordando uma fantasia de havaiana e quando vi o resultado tive certeza de que compensou o esforço”, afirma.

As amigas Jacira Prudente Pinceli, Norma Lapa e Maria Inês Santos Caetano compartilham da mesma opinião de Kátia. Este ano elas participaram do tradicional Baile de Carnaval, realizado ontem na Sociedade Hípica de Bauru. Nas últimas semanas que antecederam o evento, o clima era de expectativas.

“Fomos para São Paulo para comprar o material que faltava para produzir as cabeças das fantasias. Momentos como este também fazem parte da festa e por isso produzir a própria fantasia é tão gostoso”, justifica Maria Inês.

Junto delas mais quatro mulheres compõem o bloco Brilho Alegria, cujo principal objetivo é relaxar e esquecer por algumas horas os problemas diários. Norma explica que ao vestir a fantasia o grupo incorpora um personagem e deixa de lado as preocupações rotineiras.

Além do cuidado na personalização da fantasia, Norma, Maria Inês e Kátia sentem falta dos tempos áureos da festa. “Antes as pessoas dedicavam tempo produzindo uma fantasia para ir ao baile. Atualmente, dependendo do local, se você coloca uma fantasia para brincar o Carnaval os jovens te olham como se você fosse anormal. Para eles basta vestir uma bermuda e chinelos que está tudo certo”, critica Kátia.

A ligação de Jacira com a festa é a exceção dentre as histórias do grupo de amigas. Isso porque ela não costumava brincar o Carnaval até frequentar um baile pela primeira vez há seis anos e se apaixonar. A partir de então, mesmo com as tarefas diárias, ela dá um jeito de encaixar os compromissos que antecedem a folia em sua rotina, e faz planos. “Quem sabe um dia eu ainda participo de um desfile na passarela do samba, representando uma escola?”, planeja.

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Rainha do Carnaval

Para Marina Vanini Dal Colletto, 76 anos, Carnaval é sinônimo de reinado. Adepta da folia desde a infância, Marina já perdeu as contas de quantos títulos levou para casa, dentre eles o de Rainha do Carnaval do Bauru Tênis Clube, quando tinha 16 anos.

Sua paixão pela festa surgiu quando ainda criança. Ela morava na zona rural e todos os anos sua mãe fazia questão de confeccionar uma fantasia para que ela e os irmãos brincassem o Carnaval em uma fazenda próxima. Ao se mudar para Bauru, fez questão de manter a tradição.

“Participei todos os anos, amo Carnaval. Para mim, a etapa de fazer a própria fantasia é tão importante quanto a noite do baile. Penso assim porque quando comecei a participar da folia não existia essa possibilidade de comprar roupa pronta, então acostumei”, conclui ela, que confessa vibrar cada vez que vê sua ideia transformada em figurino.

Foi brincando o Carnaval que Marina pôde notar as transformações sofridas pela festa. Fantasias mais elaboradas, marchinhas e pessoas que incorporavam um personagem e sonhavam em levar o título de melhor caracterização para casa estão dentre as lembranças que ela viu desaparecer em ao serem substituídas pelo que ela chama de moda praia, uma mistura de roupa curta e axé.

Ainda assim, Marina mantém os costumes a todo custo. Ano passado ela investiu cerca de R$ 800,00 na confecção que um sari (traje típico indiano), que resultou no primeiro lugar do concurso de melhor fantasia.

A razão para tanta animação e capricho na produção é clara para ela: “Quando me fantasio, olho no espelho e me sinto maravilhosa, como uma rainha”, confessa, sorrindo.

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Sinônimo de luxo

Aos 92 anos de idade, a costureira Betty Pereira de Freitas ainda faz modelos, risca e corta tecidos para confeccionar roupas e fantasias. Por de trás da máquina de costura, ela acompanhou as mudanças sofridas pelas tradições carnavalescas ao longo dos anos.

Damas e cavalheiros ostentando roupas luxuosas e personalizadas, incrementadas com plumas e paetês, fazem parte das recordações que Betty tem da época em que brincava o Carnaval ao lado do esposo, e delineiam o que ela entende por fantasia.

“Muita coisa mudou com o passar dos anos. Atualmente os jovens não se importam com que roupa vestir, inclusive eu os acho muito mal vestidos. Antes as pessoas tinham mais pompa”, acusa a costureira, que custa a se adaptar às atuais comemorações carnavalescas.

Isto porque Betty aprendeu a coser quando ainda era jovem. Ela abandonou o ofício para se dedicar ao casamento e somente o retomou aos 49 anos de idade, em consequência da aposentadoria de seu marido. Depois disso, não parou mais.

Adepta da alta-costura, Betty sempre fez roupas para mulheres de famílias tradicionais da cidade e, com o sucesso das confecções, os pedidos para que ela produzisse fantasias não tardaram a chegar.

Ela já perdeu as contas de quantas fantasias fez durante os anos de profissão, mas uma coisa é certa: todas tinham o luxo como característica marcante.

“Para mim, roupa de Carnaval tem de ser detalhada, rica e bem feita. Atualmente, só faço este tipo de serviço para uma única cliente porque demanda tempo, paciência e exige muito de minha saúde. E se for para fazer mal feito, eu nem faço”, explica ela, que aceita um número reduzido de encomendas por conta das limitações características da idade.

Isso porque exercer o ofício certamente fez com que ela apurasse o seu senso de exigência, pois como costureira fazia questão de ser a mais bem vestida da festa. “Fantasia simples não tem graça. Requinte é sinônimo de luxo, e luxo requer verba. Hoje ninguém quer pagar por uma fantasia o mesmo valor de uma roupa de alta-costura”, relaciona.