09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Verônica Maria Alves Lima

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 10 min

‘Descobri o quanto os latinos são solidários’

Mochilas nas costas e muitos sonhos. Foi assim que a jornalista Verônica Maria Alves Lima saiu de Bauru com destino ao Peru, no mês passado. Estudar e conhecer os principais pontos turísticos da cidade, inclusive Machu Picchu, eram os principais intuitos da estudante que faz mestrado em comunicação na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp). Ela só não contava que passaria dias de angústia e aflição no tão sonhado passeio pela região de Águas Calientes.

As fortes chuvas que assolaram o Peru destruíram rodovias, ruas e a única estrada de ferro que permite a passagem a Machu Picchu. Verônica e milhares de outros turistas ficaram ilhados na região e sentiram na pele a angústia do abandono e de não saber quando voltar para casa. “Um dia fomos em cinco pessoas tomar café e o dono do estabelecimento disse que só tinha três pães. Naquela hora bateu um desespero porque as coisas estavam começando a acabar e não havia perspectiva de sair dali”, lembra.

Comida e água potável escassa, falta de acomodação para todos e a incerteza de que tudo daria certo fizeram parte dos momentos de terror da semana em que Verônica Maria Alves Lima passou com amigos e, até então, estranhos que se tonaram próximos e com a solidariedade presente. Porém, como tudo na vida tem dois lados, o sofrimento trouxe bons aprendizados e experiências para a garota que conta, com exclusividade ao JC, tudo o que viu e sentiu até desembarcar em Bauru, na última terça-feira.

Jornal da Cidade - Você foi ao Peru para estudar, certo?

Verônica Maria Alves Lima - Meu voo saiu do Brasil no dia 12 de janeiro. Fiz uma escala em Lima, onde conhecemos alguns pontos turísticos e depois fomos para Cuzco, onde ficamos por um tempo maior. De Cuzco fomos para outras cidade do Peru e da Bolívia, foi um circuito feito para conhecer a cultura das cidades. O intuito da viagem foi estudar espanhol e conhecer o País. O curso começou no dia 18 de janeiro e, antes, a ideia era conhecer o máximo possível. As aulas teriam duração de duas semanas, mas acabei perdendo uma, que foi a semana em que ficamos ilhados. Porém, o curso foi muito bom. Tínhamos aulas de manhã e, à tarde, saíamos para fazer turismo. Como já tínhamos conhecido muitos lugares, deixamos o final de semana para Machu Picchu.

JC - Imagino que conhecer Machu Picchu era uma das prioridades da viagem.

Verônica - Com certeza. Deixamos dois dias para conhecer a cidade, subir a montanha, conhecer as ruínas e voltar. Apesar de Cuzco ter muitas ruínas, sabemos que Machu Picchu é uma cidade quase intacta e estávamos muitos ansiosos porque é o que leva a maioria das pessoas ao Peru. Ir ao País e não conhecer a cidade é como vir ao Brasil e não conhecer a feijoada ou a caipirinha (risos).

JC - Vocês tinham guia?

Verônica - Sim. Tínhamos um guia local da nossa escola de idiomas. Ele acabou se tornando nosso amigo. Chegamos em Águas Calientes, cidade que abriga o complexo turístico de Machu Picchu, de trem, porque é só assim que se pode chegar até lá. Tínhamos um bilhete para o sábado à noite e não pudemos fazer a viagem porque havia chovido e eles nos disseram que talvez não iriam conseguir “arrumar tudo” até domingo, mas que era para tentarmos. Morri de medo de perder a oportunidade. Mas deu tudo certo, porém, a viagem já foi estranha.

JC - Estranha?

Verônica - Sim. Ela dura, normalmente, uma hora e meia, segundo o pessoal de lá, e ficamos umas três horas no trem porque ele estava indo muito devagar. O Rio Vilcanota estava muito bravo e perto dos trilhos, percebi que aquilo não era normal. Era uma cena impressionante, o rio estava levando tudo, arrasando plantações de milho... Apesar disso, tudo estava bem. Chegamos felizes.

JC - Quando descobriram que estavam ilhados?

Verônica - Conhecer Machu Picchu foi maravilhoso. Começou a chover muito e até agradecemos não termos subido mais para ver as ruínas. Nos falaram que era normal chover daquele jeito, mas não imaginávamos tanto. Não sabia que era tão bravo assim. Descemos de Machu Picchu para a estação e fomos informados de que não estavam mais vendendo bilhetes. Conseguimos um hotel, por sorte, porque muita gente estava procurando, e, na segunda de manhã, tentamos ir embora novamente e descobrimos que não íamos. Um cara veio com uma foto, todo nervoso, e mostrou para as pessoas a situação real da estrutura do trem que havia desmoronado. Não cheguei a ver pessoalmente, mas quando fomos resgatados, vi uma parte que havia sido totalmente destruída e levada pela água. Dava para ver um vão dos trilhos que foi levado pela força do rio.

JC - Qual foi a sua reação ao saber que estava ilhada?

Verônica - E agora, como vamos ir embora? Foi o que todos se perguntavam, porque a única forma de saída é o trem. Podíamos ir a pé com o guia que conhecia muito bem a região. Cogitamos essa possibilidade, mas fomos desencorajados por não termos condicionamento físico para trilhas e não conhecermos os caminhos. Ficamos sem saber o que fazer até que chegaram os primeiros rumores de que helicópteros resgatariam os estrangeiros.

JC - Vocês estavam em quantas pessoas?

Verônica - Mais de 2 mil estrangeiros e uns 250 brasileiros. Brasileiros e argentinos predominavam. Na segunda-feira, eles começaram a separar os estrangeiros por línguas e nos levaram para um campo ou quadra que tem em Águas Calientes. Passava um ou dois helicópteros e nada. Não sabíamos por que estávamos lá. Eu estava com duas amigas, conhecemos uns garotos de São Paulo e saimos em busca de hotel. Conseguimos vaga para dividir cama. Pegamos um quarto duplo e ficamos em três meninas, nosso medo era ficar ao relento.

JC - Havia notícias de tragédias maiores?

Verônica - Ah, nós ouvíamos muita coisa. A chuva estava destruindo as cidades menores vizinhas e teve uma argentina que morreu em uma trilha com um guia peruano, e outras pessoas também. Nesse meio tempo que eles separaram os turistas, nosso guia disse que iria embora a pé. Ele disse que nós não aguentaríamos, mas ele já estava acostumado. Apoiamos porque tínhamos informações de que os helicópteros resgatariam apenas os estrangeiros e não os peruanos. Ele foi com um amigo e não soubemos mais nada sobre ele. Apenas no último dia em que estivemos lá é que descobrimos que eles foram por um caminho onde atravessaram o rio com água pelo pescoço. Quando chegaram a uma hidrelétrica que está destruída, viram que não dava para passar e voltaram para Águas Calientes, mas não nos encontramos mais por lá.

JC - Não havia certeza ou informação de quando seriam resgatados?

Verônica - Na segunda-feira (25/01) ninguém saiu, na terça algumas pessoas e, na quarta-feira, chegou gente na nossa barraca do comitê brasileiro dizendo que algumas pessoas estavam pagando para sair. Foi o pior sentimento. Não tínhamos dinheiro para isso. As coisas lá já eram caras e ficaram ainda mais. Tinha um grupo de idosos brasileiros que não conseguiram hotel e ficaram nos vagões do trem. Eles deveriam ser os primeiros a sair e ficamos muito bravos com os rumores de que estavam pagando pelo resgate. Comecei a ficar preocupada com a alta dos preços, porque não sabíamos quando sairíamos de lá.

JC - Chegou a faltar alimentos e água potável?

Verônica - Água para banho não faltou, mas a comida começou a ficar escassa. Um dia fomos em cinco pessoas tomar café e o dono do estabelecimento disse que só tinha três pães. Nessa hora bateu um desespero porque as coisas estavam começando a acabar e não havia perspectiva de sair dali. Até que na quarta-feira (27/01) à tarde, o prefeito da cidade se manifestou. Nos deram água potável... Ao mesmo tempo conseguimos comunicação mais efetiva com a embaixada brasileira e, na quinta-feira, o cônsul chegou lá.

JC - A comunicação estava normal?

Verônica - Sim. A energia caia metade do dia, mas nada muito desesperador. Falava com minha família por telefone. Mesmo se faltasse luz, os telefones públicos funcionavam.

JC - Vocês se organizaram?

Verônica - Os brasileiros se juntaram, fizemos listas de quem estava lá e mandamos para os jornais, tentamos falar com a embaixada... Fizemos isso antes do poder local. Havia uma lenda de que todos os americanos já tinham saído de lá pagando. E não os víamos por lá mesmo. Nossos idosos só saíram de lá na quarta-feira (27/01). Isso depois de ficarem desde domingo dormindo no trem. Ficamos mais tranquilos porque vimos que as pessoas estavam saindo mesmo. Sabíamos que seríamos os últimos por sermos jovens, mas isso já foi um alívio.

JC - Quando e como você foi resgatada?

Verônica - A galera de 20 e poucos anos saiu toda na sexta-feira à tarde, antes de ficar por mais de sete horas na fila apenas com bolachinhas. Quando vi o primeiro helicóptero, vi que não podia sair dali mesmo se não fosse com aquilo. Quando fui resgatada, passei muito mal no helicóptero. Cheguei em Cuzco, falamos com o pessoal, encontramos o guia e, no domingo bem cedo, já estávamos no aeroporto para tentar a sorte de remarcar a passagem. Se não conseguíssemos chegar a Lima até o domingo (31/01) à noite, talvez só conseguiríamos remarcar a passagem para o Brasil somente para o dia 20 de fevereiro. Ao mesmo tempo, o governo do Brasil mandou ajuda humanitária para o Peru e o avião da Força Aérea Brasileira (FAB) foi disponibilizado para voltarmos com ele. Cheguei ao Rio de Janeiro, fui para São Paulo, descansei na casa de uns parentes e cheguei a Bauru na última terça-feira, à noite.

JC - O que mais te causou revolta?

Verônica - Uma coisa que me deixou mal foi o descaso do governo peruano, principalmente pela lentidão em organizar as coisas. Machu Picchu é um dos lugares mais visitados do mundo e é um absurdo não haver alternativas além da linha trem, que é tão frágil. Também notei que eles fazem diferenças entre turistas e peruanos. O povo de lá foi ignorado no primeiro momento, e eles precisavam tanto quanto nós.

JC- O que você aprendeu com isso tudo?

Verônica - Muita coisa. Estou vendo tudo de uma forma diferente. Só a viagem já me mudaria, eu já tinha esse pensamento, mas a experiência de ficar ilhada me mostrou muitas coisas. A solidariedade dos brasileiros foi uma delas. Juntamos-nos e nos ajudamos muito. Se alguém tinha um problema, era ajudado. Senti, verdadeiramente, que sou da América Latina e que temos muitas coisas em comum com os outros países. Somos alegres, mesmo com os problemas. A interação com os argentinos, por exemplo, foi muito grande.

JC - Faria tudo outra vez?

Verônica - Se soubesse que ia ficar ilhada, não (risos). Mas quero voltar ao Peru, sim. Eu digo para todos que devem conhecer, sim, o Peru. A questão das chuvas é um problema mundial. Cheguei ao Brasil e tive notícias tão tristes quanto as de lá.

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Perfil

Nome: Verônica Maria Alves Lima

Idade: 24 anos

Local de Nascimento: Guararapes/SP

Signo: Sagitário

Hobby: Sair com amigos

Livro de cabeceira: Qualquer um do Rubem Fonseca

Filme preferido: Pulp Fiction

Estilo musical predileto: MPB

Time: Corinthians

Para quem dá nota 10: Para quem sabe viver de verdade

Para quem dá nota 0: Corrupção

E-mail: veronica.alveslima@gmail.com