Como diz o sociólogo João Francisco Tidei Lima, professor aposentado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade do Sagrado Coração (USC), é praticamente impossível não associar a expansão do café com o crescimento econômico brasileiro e a propagação da ferrovia. De acordo com o professor, a Comarca de Bauru incorporou as fazendas produtoras de café no final do século XIX. Essa inserção possibilitou o crescimento da região, com a instalação de indústrias, de bancos e o crescimento populacional.
“Apesar de Bauru não ter características para o cultivo de café, cidades da região tinham. A Estrada de Ferro Sorocabana, por exemplo, surgiu em Sorocaba impulsionada, inicialmente, pelo algodão. Mas, foi em direção a Botucatu, onde o café era muito forte”, explica Lima. “Já a (estrada de ferro) Noroeste que tinha ligação com o Mato Grosso do Sul, com a Bolívia e o Paraguai, foi beneficiada pelo capitalismo na região de Bauru, impulsionado pela cultura cafeeira. Ela saiu de Bauru e foi prosperar na região de Pirajuí, Lins e Cafelândia, que o próprio nome já diz. Na estação de Val de Palmas, por exemplo, haviam dois milhões de cafeeiros”, acrescenta.
Museu
Parte dessa rica história é contada pelo Museu do Café, instalado na Fazenda Lageado, sede da Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu (100 quilômetros de Bauru). O projeto teve início em 1988, como um Centro de Documentação e Memória.
Para entender a história do museu, é preciso entender a trajetória da fazenda, que tem três fases distintas. Por volta de 1870, a propriedade foi adquirida por João Batista da Rocha Conceição, de Piracicaba. De acordo com José Eduardo Candeias, coordenador do projeto de “Revitalização de Uso da Área Histórica da Fazenda Lageado”, foi neste período, ela consolidou sua importância regional como grande produtora de café.
Na área de 900 alqueires (2.100 hectares), que permanecem intactos até hoje, na década de 1920 chegou a ter mais de 1 milhão de pés de café. “Dessa fase, hoje contamos com importantes construções como a Casa Grande, onde funciona o Museu, o terreiro que tem aproximadamente 16 mil metros quadrados de piso, a tulha, o moinho, a serraria, entre outras instalações”, revela Candeias.
Já a segunda fase da fazenda teve início na década de 1930, quando a propriedade foi adquirida pelo Governo Federal – na época Getúlio Vargas era o presidente da República. No espaço passou a funcionar a Estação Experimental de Botucatu, que inicialmente desenvolvia pesquisas relacionadas ao café e, depois passou a estudar outros grãos. Grande parte do atual acervo do museu, aproximadamente 95%, formado por documentos, objetos, equipamentos e mobiliário, são dessa época.
Por fim, a última fase teve início na década de 1970 e vem até os dias atuais. A fazenda passou para a Unesp e se transformou em sede da Faculdade de Ciências Agronômicas, além de abrigar as unidades da Faculdade de Medicina, Veterinária e Zootecnia.
Segundo Candeias, Botucatu foi uma tradicional área do café e, sua importância vai além das lavouras. “Havia muitas indústrias que trabalham em cima do café, que fabricavam equipamentos para a cultura”, conta.
Atualmente, próximo à Fazenda Lageado, existem duas fazendas que ainda cultivam o grão. Mas, a grande maioria cedeu o espaço para o cultivo de cana-de-açúcar, eucalipto e laranja.
• Museu do Café
Endereço: Fazenda Lajeado – Rua José Barbosa de Barros, 1.780 – Botucatu (SP)
Telefone: (14) 3811-7240
Horário: de segunda a sexta-feira, das 9h às 11h e das 14h às 17h; sábados, domingos e feriados das 12h às 17h
Entrada gratuita