09 de julho de 2026
Geral

Garota muda trajetória ao ser aprovada para a Unesp

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 2 min

Uma adolescente de 17 anos que gosta de novela, da cantora Avril Lavigne, de brincar com cães e crianças, de desenhar, de usar muito rímel e dividir a cabeceira da cama com bichos de pelúcia e uma coleção de esmaltes para as unhas acaba de se juntar à nova legião de calouros da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru. Mas, mais do que uma garota comum que começa a dar os primeiros passos para a vida adulta, Kételin Cristini Carlos de Carvalho subverteu a trajetória que o destino parecia ter lhe reservado e construiu, ela mesma, seu próprio sonho.

Filha mais velha de uma família com poucos recursos financeiros, Kételin frequentou somente a escola pública do bairro onde mora, a Vila São Paulo. Daqui a quatro anos, depois de deixar 75 candidatos para trás, ela será bacharel em educação artística com licenciatura em artes plásticas, sem nunca ter cursado sequer uma única aula de desenho ou pintura.

Mesmo porque nem tinha condições para isso. Dividindo o espaço de uma residência humilde, a garota, o irmão caçula e os pais sobrevivem apenas com os R$ 700,00 que o pai dela, operador de máquinas, recebe do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) desde que perdeu os dedos da mão direita ao se acidentar em um moedor de grãos.

Para fazer a inscrição no vestibular, cuja taxa custava R$ 25,00, Kételin conta que precisou da ajuda das professoras do projeto Pró Jovem, mantido pela Secretaria Municipal do Bem-Estar Social, do qual ela participa desde os 15 anos. “Elas pagaram tudo e me levaram até lá para fazer a inscrição”, lembra.

Antes do Pró Jovem, a adolescente também frequentou o Projeto Colmeia, vinculado ao Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac). Para ela, o incentivo dos profissionais que prestam serviços em ambas as entidades foram fundamentais para que ela conseguisse conquistar uma vaga em uma universidade pública.

“Através deles, consegui fazer curso de inglês e informática. Tinha duas professoras que eram formadas em educação artística e elas investiram em mim, me davam toques sobre a prova do vestibular e também me apoiaram muito quando achei que não ia conseguir passar”, comenta.

Considerada sempre a melhor aluna do colégio, no último ano do ensino médio Kételin dividiu seu tempo ocioso com os estudos no quarto que divide com o irmão e o desenho que pratica na mesa da cozinha ou nas salas projeto. “Sou caseira, mas nunca me ‘matei’ de estudar. Sempre gostei de desenhar e de fazer coisas que estimulavam minha criatividade”, observa.