08 de julho de 2026
Articulistas

É Carnaval!

Arnaldo Jardim
| Tempo de leitura: 3 min

Um caldeirão de ritmos, culturas, credos, etnias, cores e alegria. O Carnaval é praticamente um tratado sociológico, que resume bem o que é o Brasil - um País de dimensões continentais, pautado pela miscigenação dos seus mais de 180 milhões de habitantes. Dos rincões do País às capitais, nem Mario de Andrade imaginaria a diversidade do cardápio festivo, cada cidade brinca de acordo com seus costumes, mas a alegria contagiante é uma só. Essa é síntese da maior festa popular do mundo. Uma festa mestiça e democrática, em que o passado de pierrôs e colombinas embalados pelas marchinhas, do carro de som de Dodô e Osmar, do frevo, da ciranda e do maracatu, encontra-se com o moderno, a pirotecnia dos desfiles de escolas de samba, o axé dos trios elétricos.

O ritmo musical que mais nos identifica no Exterior, o samba, é resultado de uma mistura incomum. Com ingredientes que vão da polca, gênero musical do Leste Europeu, até os ritmos trazidos pelos negros africanos como o lundu, o maxixe e o jongo. Em 1917, o público conheceu o primeiro samba gravado: “Pelo telefone”. Os próprios instrumentos musicais que fazem a alegria do povo tiveram origens distintas. Hoje, nas rodas, o samba sai de instrumentos originalmente africanos, russos, portugueses, indígenas e árabes. O violão de seis cordas chegou com as caravelas portuguesas. O primo dele, com uma corda a mais, foi trazido por ciganos russos. Com o cavaquinho, também português, e o pandeiro, que é árabe, formam a cozinha do samba, que ganha brilho com a cuíca, nascida na África com o nome de “puíta”, e o reco-reco, dos índios sulamericanos, que já foi usado em cerimônias religiosas. Entre tantos estrangeiros, o único instrumento tipicamente brasileiro é o surdo, que nasceu para marcar a marcha dos foliões, nos anos 20, que originariam as escolas de samba. Origens diversas, um único destino. Tornar universal o ritmo de um povo.

Daí para os desfiles luxuosos e irreverentes realizados na Marquês de Sapucaí e no Anhembi, se passaram décadas, mas suas origens foram preservadas. Imaginem o minueto dançado na casa grande misturado com a capoeira das senzalas. Esta é a origem do bailado do mestre-sala e da porta bandeira.

A festança acontece ao som das antigas marchinhas que embalam milhares de jovens fantasiados, que nos remetem aos antigos e famosos bailes de Carnaval. Assim são os tradicionais blocos que desfilam pelas ruas da Zona Sul Carioca. “Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu” é o lema de mais de 2 milhões de foliões que dançam dias e noites a fio ao som do axé.

Por que também não falarmos dos Carnavais típicos realizados em Pernambuco? Em Olinda, ao som do tradicional frevo, o povo sobe e desce as suas ladeiras estreitas, seguindo os bonecos gigantes. Já em Recife, também temos o Maracatu, que nasceu da tradição africana do “Rei do Congo”, trazida pelos portugueses e contém fortes elementos místicos que fazem lembrar o Candomblé.

Diante desta pujança tenho uma certeza. O verdadeiro segredo do Carnaval brasileiro não reside apenas na tradição e nos ritmos, mas sim na alegria contagiante de um povo sofrido que sabe como ninguém celebrar a vida. Um povo que sabe integrar e interagir com os turistas, nacionais ou estrangeiros. Fato raro, nos dias de hoje, diante da intolerância que impera no mundo. Então, vista sua fantasia, chame os amigos e caia na gandaia, mas com moderação. Bom Carnaval!

O autor, Arnaldo Jardim, é deputado federal - PPS-SP