Eles passam o dia inteiro juntos e possuem tempo de sobra. Durante o convívio, presidiários que estão na mesma unidade, e muitas vezes dividem a mesma cela, trocam informações sobre possíveis vítimas e como efetuar um roubo, por exemplo, em determinado lugar. Quando um deles deixa a prisão, é “hospedado” pela família ou comparsas do colega. Juntos, planejam e executam o crime no local e, antes de ir embora, o “visitante” deixa parte do lucro do roubo para o anfitrião. Só nos últimos quatro meses, a polícia prendeu quatro grupos responsáveis por diversos assaltos em Bauru com membros saídos ou foragidos do sistema penal e que eram moradores de outras cidades.
Na Delegacia de Investigações Gerais (DIG) da Polícia Civil de Bauru, em vários casos esclarecidos nos últimos meses sempre havia entre o grupo de presos alguém que é de fora de Bauru e tinha acabado de sair – de forma legal ou não – de alguma unidade prisional do Estado. Apesar de não ser possível afirmar que são conhecidos do mesmo presídio, a suspeita é grande.
Para o delegado Cledson Luiz do Nascimento, da equipe de investigação de roubos, muitos crimes são realizados por detentos de cidades diferentes que, provavelmente, conheceram algum morador de Bauru na prisão. Nascimento pondera que uma das causas desse aumento de roubos efetuados por moradores de outras cidades em Bauru pode ter sido a disseminação de presídios pelo Interior.
Para o promotor e professor de direito penal Luis Gabos Alvares, o problema não é exclusividade de Bauru. “Uma pessoa que é presa - e isso não é de Bauru, é em qualquer lugar - vai para a cadeia e lá vai para a vala comum, com todos os detentos. Assim, ele cumpre pena com homens de todo o Estado e pode parar em qualquer cidade de São Paulo. Ele acaba fazendo amizade, tendo contato com presos de outros lugares. E como eles ficam conversando o tempo todo, começam a falar sobre possibilidades em suas cidades”, observa Gabos.
Para o promotor, esse “intercâmbio” entre os criminosos é um dos efeitos colaterais de o Estado não possuir penitenciárias regionalizadas. “Eles deveriam cumprir penas em suas cidades e regiões, próximos às suas famílias”, destaca. “Mas do jeito que é hoje, na mesma cela estão presos de Bauru, Ribeirão Preto e Presidente Prudente. E eles podem agir depois, quando em liberdade, nas três cidades”, destaca.
O promotor observa que a rotatividade do sistema, que permite ao detento cumprir uma parte mínima da pena em regime fechado para conseguir o benefício do semi aberto, também contribui para isso. “No fim, é preciso que outros saiam para dar lugar aos que estão entrando”, avalia. E aquele que sair primeiro, vai “visitar” a cidade do colega.
Gabos também ressalta que geralmente esse tipo de criminoso costuma ser mais violento e procura alvos onde sabe que o dinheiro obtido será alto. “Eles vão agir na certeza, atrás de dinheiro grande, usando uma violência tremenda”, observa. Além da regionalização de presídios, o promotor avalia que para atacar a criminalidade é necessário investimentos. “O sistema e sua dinâmica geram essa situação. É preciso que a população tenha educação, emprego e também boa vontade”, destaca.
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Colegas de prisão
Os casos que foram apurados recentemente pela Polícia Civil de Bauru mostram um aumento na estratégia de intercâmbio de bandidos. De acordo com o delegado Cledson Luiz do Nascimento, da DIG, familiares e comparsas de detentos forneceriam apoio. “A DIG percebeu esse aumento da prática de roubos por pessoas que não são de Bauru. Muitas vezes são evadidos ou egressos do sistema prisional, onde se tornaram amigos de moradores da cidade. E seus comparsas e familiares fornecem a logística e recursos necessários para a permanência em Bauru para a prática do delito”, ressalta.
Para coibir essa estratégia, a polícia investe em inteligência. “A Polícia Civil já identificou e está atenta para este tipo de ação, através das ferramentas de inteligência, como arquivos integrados e constante troca de informações entre unidades policiais e vem identificando e prendendo esses criminosos”, ressalta Nascimento.
O capitão Ézio Carlos Vieira de Melo, do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior (4.º BPMI), destaca que para atacar essa estratégia, a PM intensifica a prevenção. “As abordagens realizadas, além das vistorias de veículos colaboram para diminuir”, diz.