Quando começou a puxar o anzol para fora da água, o garoto Luiz Carlos Sardinha imaginava que estava prestes a apanhar um curimbatá dos grandes. Segundo ele, o peixe de fato era enorme: pesava quatro quilos e 800 gramas. O comerciante Flávio Heitor Terossi, 38 anos, o Flavinho, que acompanhou a pescaria de perto, diz não se lembrar do “bitelo”. Porém, recorda-se de ter ouvido jovem Cigano exclamar: “Parece que tem uma aliança presa na linha!”
O companheiro de pescaria de Luiz era ourives e pediu para dar uma olhada na joia, encontrada alguns centímetros acima da boca do peixe. “Ele falou que compraria o anel de mim por 20 mil cruzeiros”, conta o corretor de imóveis referindo-se à moeda da época. Mas antes que o negócio pudesse ser fechado, o comerciante Vitório Terossi aproximou-se da dupla e perguntou a respeito a aliança.
“Quando viu o nome do filho gravado na parte de dentro do anel, ele começou a chorar e me disse: ‘Você foi abençoado por Deus! Salvou o casamento de meu filho!’”, afirma. Então, Vitório colocou o adolescente a par do drama enfrentado pelo filho, desde o desaparecimento da aliança.
“Pelo que ele me contou, o anel estava perdido há mais de nove meses”, afirma Luiz. O garoto rejeitou os 20 mil oferecidos pelo ourives e devolveu a joia ao legítimo dono. Como recompensa, ganhou do comerciante duas notas de 5 mil cruzeiros.
Bodas
O proprietário da joia nunca mais tornou a perder sua aliança. Flávio Benedito Terossi e Maria Aparecida Micheloto Terossi permaneceram juntos por quase 60 anos, até 2008, ano em que ele faleceu. Ao longo de todas essas décadas, o casal trocou o anel de compromisso duas vezes, nas bodas de prata e de ouro (quando são comemorados, respectivamente, os aniversários de 25 e 50 anos de matrimônio).
Sinal que valeu a pena re-encontrar a joia perdida? “E como valeu a pena. Se pudesse, teria aproveitado ainda mais a companhia de meu marido”, diz Maria Aparecida. Ainda hoje, o filho Flavinho fica espantado ao recordar-se do fato. “Esse caso não tem explicação”, pensa.
Para Luiz, a história tem sim uma explicação. “No momento em que o ‘seo’ Vitório me contou a história da aliança, lembrei-me do sonho que eu havia tido na sexta-feira. Na minha opinião, foi por obra de Deus que tudo aquilo ocorreu”, acredita.