Teerã - O Irã não abandonará suas atividades de enriquecimento de urânio e as potências ocidentais devem se acostumar com a ideia, afirmou Ali Asghar Soltanieh, representante iraniano na Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), da ONU, nesta quarta-feira.
“O Irã não abrirá mão de enriquecer urânio, por nenhum preço. Até mesmo a ameaça de um ataque militar não nos deterá”, disse o embaixador iraniano. “O Ocidente terá que se acostumar com a ideia de um Irã forte, um país com milhares de anos de civilização, e agora um mestre do enriquecimento. Sei que é difícil para eles aceitarem isso, mas é a realidade”.
O Irã afirma que seu programa nuclear tem fins pacíficos e visa produzir energia elétrica. Teerã anunciou, no início deste mês, que começou a enriquecer urânio a 20%, aumentando o receio de países ocidentais de que Teerã tenha a ambição de construir armas nucleares.
Os EUA pressionam para que o Conselho de Segurança da ONU imponha uma nova rodada de sanções ao Irã. Para Soltanieh, tais ameaças refletem uma “mentalidade colonialista”.
“Ameaçando o Irã com sanções e ação militar, (os EUA) estão apenas dificultando ainda mais a situação. Isso não funciona”, disse o representante iraniano.
Apoio brasileiro
Em coletiva de imprensa ontem, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, defendeu uma possível mediação do Brasil na crise nuclear, ressaltando pontos em comum entre os dois países. Em relação aos EUA, Ahmadinejad disse que seu país “não leva a sério” as declarações da secretária de Estado americana Hillary Clinton. Em visita ao Oriente Médio, ela usou um tom extremamente duro contra o Irã, dizendo que o país se torna uma ditadura militar, e que as instituições civis e lideranças religiosas estão sendo substituídas pela Guarda Revolucionária.
“Não levamos a sério os seus comentários. Ela é obrigada a dizer essas coisas (...) Vemos contradições na administração americana, e não sabemos qual a sua verdadeira posição”.
Direitos Humanos
O Conselho de Direitos Humanos da ONU pediu ao Irã que investigue as ações policiais e judiciais que levaram à prisão de milhares de manifestantes desde as últimas eleições presidenciais, e pediu que os direitos humanos sejam respeitados plenamente no país. O Irã, no entanto, se negou a cooperar com os pedidos dos relatores da ONU
Posição do Brasil
O Brasil se afastou mais um passo do governo iraniano na questão dos direitos humanos ao insistir ontem que o Irã receba relatores especiais da ONU. A intervenção em sessão no Conselho de Direitos Humanos, em Genebra, não só tornou mais explícita a posição brasileira como se contrapôs ao “não” de Teerã aos relatores.
O Itamaraty, como a reportagem revelou, tem coordenado sua posição mais dura sobre o Irã em Genebra com o debate no Conselho de Segurança, em Nova York, sobre sanções ao programa nuclear do país - cujo objetivo declarado é pacífico, mas que EUA, França, Rússia e outros temem ser a bomba.
Assim, mantém sua posição contra sanções e em defesa do diálogo. Mas, ao mesmo tempo, tenta mostrar que não é aliado irrestrito do governo Ahmadinejad, o que lhe daria mais credibilidade como mediador. Ontem, o Brasil deixou isso claro ao pedir a emenda explicitando as visitas de relatores especiais da ONU ao documento final da revisão periódica do Irã em Genebra, que compila o relatório de Teerã e as recomendações dos demais países.
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Rússia adia entrega de antimísseis
Moscou - A Rússia anunciou ontem o adiamento da entrega de mísseis de defesa aérea S-300 ao Irã, um dia depois da visita a Moscou do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, que pediu a aprovação russa a novas sanções contra o programa nuclear iraniano.
“O adiamento se deve a problemas técnicos. A entrega acontecerá quando estiverem resolvidos”, declarou Alexander Fomin, diretor adjunto do serviço russo de cooperação técnico-militar.
O contrato de venda de mísseis de defesa aérea S-300 provoca muitas críticas nos Estados Unidos e em Israel, que temem que o Irã utilize os mesmos para proteger suas instalações nucleares.
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Khamenei acusa EUA de transformar golfo em depósito de armas
Teerã - O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, rebateu ontem as duras críticas dos Estados Unidos e acusou o país de ser belicista e de transformar o golfo Pérsico em um “depósito de armas”. Khamenei acusou ainda a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, de “proferir mentiras” em suas acusações de que o Irã é uma ameaça e se transforma em uma ditadura militar, durante viagem pela região. “Os que transformaram o Golfo Pérsico em depósito de armas para bombear o dinheiro dos países da região enviam, agora, sua agente com falsidades”, afirmou Khamenei em discurso para moradores de Tabriz (nordeste).
“Mas ninguém acredita nestas mentiras, porque eles sabem que a América é o verdadeiro Estado belicista” afirmou o aiatolá. “Eles invadiram o Afeganistão e o Iraque e agora estão acusando a República Islâmica. Todo mundo sabe que a República Islâmica é pacífica e fraterna entre todos os Estados islâmicos do mundo”, completou.
Os comentários do aiatolá são o mais recente sinal da tensão crescente entre Washington e Teerã, que vivem décadas de oscilações nas relações bilaterais motivadas, acima de tudo, pelo controverso programa nuclear iraniano.