09 de julho de 2026
Articulistas

Apagão de mão de obra

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Na década de 1970, uma gerente de pessoal de Americana telefonou para o Senai de Bauru pedindo indicação de torneiros mecânicos. Disse que naquela região estava muito difícil encontrar operários qualificados e, quem sabe, mais para o interior seria possível encontrá-los. Em tom de brincadeira a resposta foi que, se mais para o interior talvez fosse possível, o melhor seria telefonar para Campo Grande, porque aqui também não havia pessoal qualificado disponível. Era a época do famoso milagre brasileiro, resultado da política econômica do governo militar, conduzida por Delfim Neto. Depois de alguns anos de estagnação, um crescimento de 10% ao ano pegou o país despreparado. A formação profissional de trabalhadores era feita pelas escolas industriais do estado, as escolas técnicas federais, mas principalmente pelo Senai e Senac. Para resolver essa situação emergencial o governo ressuscitou um programa do governo de João Goulart, atualizando-o com o nome de Preparação Intensiva de Mão de obra (PIPMO) e incumbiu o Senai e o Senac para cuidar da parte técnica de programação e execução, mediante convênio com o Ministério da Educação e Cultura. As escolas estaduais e federais, bem como outras organizações que tivessem estrutura adequada, poderiam fazer convênio usando os programas e materiais didáticos do Senai e do Senac. Torneiros, eletricistas, soldadores, pedreiros, carpinteiros, carpinteiros de formas, armadores, encanadores, pintores, tecnologia mecânica, leitura e interpretação de desenho, vendedores, almoxarifes, arquivistas etc. Foi um sucesso. Só para a indústria a meta foi de 50 mil no primeiro ano.

Passada essa fase, as instituições formadoras de mão de obra foram se ajustando ao crescimento econômico, inclusive com a criação do Senar, para a agricultura, o Senat, para o transporte e o Sebrae, para o desenvolvimento das pequenas e médias empresas. Como o ritmo de crescimento foi desacelerando, a preocupação com o futuro se acomodou e os órgãos formadores foram crescendo apenas vegetativamente. Nos dois últimos governos, com o plano real, o país voltou a crescer e a carência de pessoal preparado reapareceu, mas o que fez o governo, principalmente o atual? Enquanto aperta o Sistema S, que é o verdadeiro preparador de mão de obra, descarrega milhões de reais em ONGs criadas por sindicatos, sem a menor condição de qualificar trabalhadores, tanto por falta de estrutura adequada, quanto por falta de pessoal especializado em formação profissional.

Com a última crise econômica, provocando desemprego, o problema saiu do foco das preocupações, ressurgindo agora que o país voltou a crescer. É o apagão da mão de obra, como o apagão de eletricidade, o apagão de óleo diesel e outras necessidades que vão surgindo, porque somos governados sem visão de futuro. Enquanto a corrupção cresce continuamente, o desenvolvimento do país caminha aos trancos. A diferença, agora, para um novo plano emergencial, é que as ocupações que exigem qualificação são bem diferentes e requerem mais conhecimentos e menos habilidades mecânicas. Poderia ser mais fácil porque a aquisição de habilidades é mais rápida quando já se tem o conhecimento, mas acontece que o nosso ensino básico vai de mal a pior. Embora a qualificação parta de um mínimo de preparação, no caso do trabalhador braçal, ela não se resume a pequenos cursos de informática e algumas noções de trabalho administrativo, feitos em locais sem os requisitos técnicos e pessoal preparado para formar trabalhadores. Mas não pense que a responsabilidade é só do governo. Neste caso, a responsabilidade das empresas é muito grande. As escolas preparam, mas o desenvolvimento é feito no emprego. É ali que o trabalhador tem a oportunidade de por em prática o que aprendeu e de se desenvolver. Quando a empresa, apenas com o susto de uma crise, demite os empregados, está cortando a sua preparação e desenvolvimento. Passada a crise, terá dificuldade de recuperá-los e perderá as oportunidades que o novo crescimento poderá oferecer.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras