08 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Pablito e Nilza

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

O amor e a dança que se fundem e explodem em movimentos, ritmos, sentimentos e toda a sensualidade envolvente do tango. Claudemir Aparecido Pires de Sousa, o “Pablito”, e Nilza Coqueiro Pires de Souza dedicam suas vidas há mais de sete anos ao famoso ritmo argentino. A dedicação é tamanha que eles chegaram a conquistar, em 2008, o primeiro lugar no Festival Nacional de Tango de La Falda em Córdoba, na Argentina. No mesmo ano, no Campeonato Mundial de Tango de Buenos Aires, o casal ficou em 94ª colocação no ranking mundial competindo com 475 casais de 22 países como Japão, Colômbia, Chile, Venezuela, Canadá, Hungria, Austrália, Brasil, Argentina, entre outros.

Vindos de famílias humildes da cidade de Ibitinga-SP, Pablito e Nilza enfrentam dificuldades para levar sua arte para fora do País devido à falta de recursos financeiros. Eles dividem o tempo entre aulas de dança e ensaios e afirmam que, mesmo com todo o sacrifício que enfrentam, tudo é válido pelo amor ao tango e pela alegria de levantar a bandeira do Brasil e de Bauru em apresentações e competições. Confira a vida e o trabalho do casal de bailarinos na entrevista a seguir.

Jornal da Cidade - O que o tango representa para vocês?

Nilza - A dança é tudo. Ela nos move e enche nossas vidas de significados. O tango simboliza toda a gama de sentimentos existentes.

Pablito - Tango é sentimento e coração. É um resumo de emoções que passamos ao público. Tudo pode ser passado nos movimentos: dores, alegrias, angústias...

JC - Quando a dança passou a fazer parte da vida de vocês?

Nilza - Comecei com o balé clássico aos 15 anos de idade. Depois, passei pelo jazz e parei por quatro anos para fazer faculdade de Educação Física, aqui em Bauru. Voltei ao balé, passei por vários estilos como dança de rua, dança do ventre, sapateado, dança de salão e há sete anos e meio me voltei para o trabalho profissional com o tango.

JC - E por que o tango?

Pablito - É nosso estilo preferido. Ele exprime muita paixão, sedução e amor. É sentimento puro. Quando comecei a dançar, já tinha uns 33 anos. Antes, não gostava de dança alguma. Eu e Nilza estamos juntos há quase 21anos. Ela já trabalhava com dança de salão e dava aulas em uma academia em Ibitinga. Tivemos uma briga e ficamos uns 3 meses separados. Isso nunca havia acontecido. Para reconquistá-la, matriculei-me em suas aulas para depois ser o seu parceiro de dança, que era uma coisa que ela sempre quis e eu sabia. Meu intuito era voltar com ela, não queria saber da dança.

JC- A fórmula deu certo?

Pablito - Muito. Reatamos o namoro e, um belo dia, ela resolveu ensinar tango para a turma. Fiquei apaixonado pela dança e pedi que ela montasse uma coreografia para que bailássemos. Começamos a trabalhar juntos, desde então.

JC - Quando foi a primeira apresentação de vocês dois?

Pablito - Foi em 2002 no palco da Universidade do Sagrado Coração (USC). A sensação foi incrível porque Nilza esperava há 13 anos que nos apresentássemos juntos. Aquela apresentação foi primordial para que nosso trabalho se fortalecesse. Nossa vida se confunde muito com a dança. Ela nos uniu e selou ainda mais nosso amor.

JC - Vocês treinam muito?

Nilza - O máximo que podemos. É um trabalho árduo porque não temos patrocinador, então, precisamos trabalhar em outras coisas para sobreviver. Sou professora de educação física e dou aulas de dança, assim como o Pablito. Ensaiamos cerca de duas horas e meia, diariamente. O ideal seria que ensaiássemos seis horas ao dia.

JC - Todo o esforço tem sido recompensado?

Pablito - Em 2008 participamos de um concurso em Córdoba, na Argentina, onde conseguimos o primeiro lugar. Foi muito emocionante. Fiz questão de entregar o prêmio a Nilza e dizer que ela o merecia muito. Ela chorava fazendo as contas dos gastos porque temos que viajar por conta própria, sem ajuda financeira. Viajamos para fora do Brasil levando nossa bandeira e o nome de Bauru e não temos apoio para isso. Somos o único casal a ganhar um concurso de tango na Argentina. Levantar a bandeira do Brasil e de Bauru vale todo sacrifício.

JC - Os argentinos são os pioneiros do tango. Imagino que a emoção de ganhar lá foi muito grande.

Pablito - Imensa. Nem sonhávamos em ganhar. Nosso intuito era levar o nome de Bauru para fora do País. Foi um ônibus lotado de amigos e alunos nossos para torcer pela vitória. Esse prêmio significou que fizemos um trabalho de qualidade. Vencemos grandes bailarinos argentinos. É uma competição difícil e a vitória aumentou ainda mais nossa garra e coragem.

JC- Por onde mais se apresentaram?

Nilza - Por toda a região de Bauru, São Paulo, Florianópolis, onde ganhamos o primeiro lugar de um concurso, e muitas outras cidades. Fora do País, o circuito fica mesmo em cidades argentinas. Sempre recebemos convites para apresentações e concursos em outros países. Em 2008, por exemplo, deixamos de ir para Coreia porque já havíamos viajado para a Argentina, onde ficamos na 94ª colocação, entre mais de 400 casais de todo o mundo. Recebemos o convite dos coreanos que iam pagar metade de nossas despesas, além de nos dar estadia, mas não conseguimos arrecadar a outra metade do dinheiro. Seríamos o único casal a representar o Brasil na competição, mas não conseguimos por essa dificuldade de patrocínio.

JC - Vocês adotaram Bauru?

Nilza - Consideramos Bauru como a nossa cidade do coração. Apesar de todas as dificuldades, a cidade nos dá apoio. É aqui que desenvolvemos nosso trabalho.

JC - Fizeram curso fora do País?

Pablito - Estudamos na Academia Nacional do Tango, em Buenos Aires.

JC - O que ficou das apresentações argentinas?

Pablito - Quando ganhamos o prêmio em La Falda, 2008, quem estava no júri era Mora Godoy, hoje a melhor bailarina de tango do mundo. No festival, ela dançou, dividiu o camarim com a gente e elogiou muito a Nilza pela originalidade do nosso trabalho. Isso, jamais esqueceremos.

Nilza - Além disso, todos aqueles argentinos, que entendem de tango, elogiando nosso trabalho e nos aplaudindo e os muitos artistas da dança que pudemos entrar em contato...Não há preço que pague tudo isso.

JC - Como vocês se conheceram?

Pablito - Foi em 1989, em Ibitinga. Na cidade, havia a tradição dos jovens se reunirem na praça para paquerar. A praça era dividida em duas: de um lado os mais simples e, de outro, os “burgueses”. Ela ficava do lado mais rico (risos). Até que a pedi em namoro. Eu tinha 17 anos e ela 15. Estamos juntos até hoje. Passamos por muitas coisas juntos, boas e ruins. Nossas famílias são simples e já passamos por muitas dificuldades.

JC - Além da falta de patrocínio, quais foram os maiores obstáculos que passaram juntos?

Nilza - Passei por momentos difíceis quando cheguei na cidade para fazer faculdade de Educação Física. Tinha apenas 17 anos, não conhecia Bauru e o curso era integral, ou seja, não podia trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Quem me ajudou muito foi o Pablito que deixava de comprar suas coisas para me mandar todo o seu salário. Devo muito a ele. Se não fosse esse gesto de amor, eu não teria realizado o sonho de cursar a universidade, porque era uma menina de família pobre. Morei em um pensionato com mais de 20 meninas. Fui empregada doméstica, babá... Lutei e passei em uma faculdade pública. Sempre compartilhamos nossos sonhos. O companheirismo sempre esteve presente em nosso relacionamento.

JC - Antes da dança, qual era a sua profissão?

Pablito - Fui costureiro de bordados em Ibitinga, lavrador no corte de cana e servente de pedreiro. Quando Nilza veio a Bauru, eu ganhava pouco mais de um salário mínimo e precisava ajudar minha família e minha namorada. Ela chegou na cidade apenas com uma mala e um colchão, nem colchão era, mas sim uma espuma. Acredito que relacionamento não é apenas sexo ou paixão. Amor é muito mais. Amor é superar as dificuldades juntos, respeitar espaços, liberar os sonhos de cada um e ofertar ajuda para que o parceiro consiga chegar até eles. Às vezes, uma palavra vale mais que um beijo ou abraço. Na época em que ela fazia faculdade, chegávamos a ficar um mês sem nos vermos porque a passagem era cara. Outras, eu chegava até aqui e não podia entrar no pensionato, porque era feminino. Porém, eu ficava feliz e aliviado quando via que ela estava bem e lhe dava um abraço.

JC - Quais são os planos e projetos de vocês?

Pablito - Conquistamos um prêmio na Argentina, que é o sonho de qualquer bailarino de tango do mundo. Estamos felizes com isso. Sou diretor do Sindicato de Dança dos profissionais do Estado de São Paulo e estamos tentando nos apresentar em programas de televisão com a ajuda de nossa madrinha Maria Pia Finóquio. Apenas gostaríamos de ter mais tempo e recursos para montar um espetáculo, unir as linguagens como dança, música e canto, porque temos artistas para isso, mas não temos patrocínio.

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Perfil

Nome: Claudemir Aparecido Pires de Sousa “Pablito”

Idade: 37 anos

Local de Nascimento: Ibitinga-SP

Signo: Peixes

Esposa: Nilza

Hobby: Ver filmes

Livro de cabeceira: “Cenário del Tango”

Filme preferido: “Sinfonia em Paris”

Estilo musical predileto: Tango y milomga y malambo

Time: Boca Juniors e Santos

Para quem dá nota 10: Para Nilza

Para quem dá nota 0: À política

E-mail: ncoqueiro@itelefonica.com.br

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Perfil

Nome: Nilza Coqueiro Pires de Souza

Idade: 36 anos

Local de Nascimento: Ibitinga-SP

Signo: Peixes

Marido: Pablito

Hobby: Praticar exercícios

Livro de cabeceira: “Dançar a vida” - Roger Garaudy

Filme preferido: Musical “Sob a Luz da Fama”

Estilo musical predileto: Tango

Time: Palmeiras

Para quem dá nota 10: Mora Godoy

Para quem dá nota 0: Para todos os setores do sistema político brasileiro

E-mail: ncoqueiro@itelefonica.com.br