Não! Essa escola não foi roubada no dia da entrega! O roubo já havia acontecido bem antes disso. O roubo é uma ação que se forma ao longo de muito tempo, ao longo da formação da personalidade e da consciência ética do sujeito. Por isso, o roubo não ocorreu no dia da entrega da escola, mas vem acontecendo, se criando, ao longo de toda a construção cultural de cada um dos bandidos que roubaram a escola. Culpa de todos e de cada um! A formação de um indivíduo é antes de tudo responsabilidade da família dele. Os pais não só devem ser geradores da vida, mas também geradores da consciência ética de seus filhos. Depois a responsabilidade recai sobre a escola. Esta deve formar não só a índole dos indivíduos, mas ainda potencializar sua inteligência. Fora a família e a escola, temos de tratar de outras instâncias da nossa sociedade pós-moderna.
É visível e inevitável a influência que os meios de comunicação, especialmente a TV, têm sobre a formação das pessoas, principalmente das crianças e jovens. Logo, os grandes empresários da comunicação e seus produtores devem ter consciência de sua responsabilidade social. Eles formam gênios ou monstros! Intelectuais ou assassinos! Geram a paz ou terror! Dependendo do teor e forma das informações veiculadas.
Podemos ainda falar do papel das religiões, do Estado e, ainda, podemos falar diretamente da responsabilidade do próprio indivíduo sobre sua formação. Mas o mais importante é notar que um ato intrinsecamente ruim, como é o roubo, ou seja, uma ação que contraria e atrapalha a ordem social, não se faz no momento que se concretiza, isto é, o roubo é uma construção feita no individuo. Tal construção se usa de sua formação (ou deformação) pela família, pela escola, pela mídia, pela religião, pelo estado, e pelo “eu” de cada pessoa. Por isso, culpa de todos e de cada um!
Cada pai, professor, produtor de mídia, mestre religioso, político, pessoa etc. tem sua responsabilidade na formação de um ladrão, de um assassino, um estuprador etc. Acredite, ninguém nasce para ser estuprador! Nossa cultura/sociedade é quem prepara, motiva e apresenta os caminhos do crime, do terror, do desrespeito, da imoralidade. Raciocínio simples: antes vem a formação social depois a decisão pessoal! Antes há o papel da família, escola etc., para somente depois o individuo poder decidir sobre suas ações. Se suas ações forem monstruosas, culpa de todos e de cada um; se forem belas, caridosas, éticas, mérito de todos e cada um.
Quero ainda ressaltar a posição do prefeito de Bauru, Rodrigo Agostinho, sobre o roubo feito na Emei Vânia Maria. O político afirma que é preciso que as famílias cuidem da segurança das escolas. Vergonha! Um político do Executivo pedir ajuda civil na luta contra criminosos é o mesmo que assumir a ineficiência do Estado em cuidar da segurança pública. Cadê a polícia? O Exército? Cadê o Poder Judiciário? Será que querem que as famílias montem guarda desarmada e despreparada na frente da escola?
Por acaso o sr. prefeito quer que alguma senhora de idade fique de vigia na escola e sob qualquer movimento estranho ligue para a polícia? Se for isso, vamos resolver, já deixe a polícia direto lá na escola, fazendo a segurança, e assim a senhora de idade poderá dormir tranqüila e não ficar fazendo o trabalho dos outros. Uma pergunta: todo o cidadão tem sua segurança garantida na constituição federal. Além da lei, nós pagamos ainda os impostos para termos segurança. Porém, se os políticos não conseguem organizar a defesa nem de um prédio público e ainda precisam que o próprio povo ajude no combate ao crime, então como se sentir seguro enquanto pessoa? Quem vai garantir que os mesmos ladrões que roubaram a escola e saíram ilesos não podem entrar na nossa casa, roubar, agredir, matar e sair também ilesos?
Então se note: família, educação, mídia, religião, estado, formam a cultura, e a cultura forma as pessoas. Muito cuidado ao procurar um culpado apenas; cuidado ao simplificar o problema e achar que ser bandido é coisa somente do individuo que quer ser assim. E ao sr. prefeito Rodrigo Agostinho, cuidado ao pedir para famílias lutarem contra bandidos; cuidado ao pedir para o povo fazer o trabalho de segurança que cabe ao estado. Ou será que o estado é também uma instituição falida, desorganizada e corrupta? Se for, vamos assumir logo para tentar melhorar algo logo! Enfim, segurança pública, valores éticos, educação e boa cultura é responsabilidade de todos e de cada um, porém cada um tem seu papel na formação da sociedade: que o estado exerça o seu! A escola exerça o seu! A família, o seu! E assim por diante. Se vamos ter escolas valorizadas ou depredadas vai depender da formação que estamos dando às nossas crianças e jovens. Que você tem feito pela formação cultural daqueles que estão ao seu redor? Faça mais!
O autor,Wellington Martins, É filósofo pela USC-Bauru e é professor da rede pública de ensino