Santiago - Dois dias após o terremoto de 8,8 graus que atingiu o Chile, deixando ao menos 723 pessoas mortas, o Exército tentava restaurar a ordem em Concepción. A cidade foi uma das mais atingidas pelo tremor e palco de saques feitos por quem tenta garantir o que comer. Um toque de recolher foi imposto às 21h de anteontem, mas não houve obediência imediata da população. Muitas pessoas carregavam livremente bens retirados de supermercados e lojas do centro.
Foi somente por volta das 22h que a polícia começou a rondar, anunciando o toque de recolher em alto-falante e abordando os transeuntes. Nos bairros residenciais, moradores fizeram trincheiras na entrada das ruas para se proteger de possíveis saques.
Durante o toque de recolher, 160 pessoas foram detidas, e um homem foi morto por disparo de arma de fogo. As circunstâncias da morte não foram esclarecidas, mas a BBC diz que ele foi vítima do disparo de um soldado.
Às 7h de ontem, a fila de carros para comprar combustível em um posto fora da cidade chegou a um quilômetro. No centro, a polícia coordenava a venda e havia limite de 20 litros por pessoa.
Durante a manhã, a polícia não conseguia deter os saques, e chegou a usar gás lacrimogêneo contra dezenas de pessoas que tentavam saquear um supermercado.
No confronto, os saqueadores atearam fogo ao prédio e a uma loja de departamentos vizinha. Os bombeiros resgataram uma pessoa em chamas do interior do complexo comercial.
“Aqui estão saqueando inclusive os quartéis”, denunciou o comandante do Corpo de Bombeiros de Concepción, Jaime Jara.
Segundo ele, os vândalos estavam atrás de água e gasolina. A corporação deixou de atender emergências enquanto a segurança dos profissionais era revista. “Compreendemos que as pessoas precisam comer, mas saquear hospitais e consultórios... O que faremos para atender nossa gente?”, afirmou Jara, apreensivo.
“Os saqueadores estão mais organizados”, disse a prefeita da cidade, Jacqueline Van Rysselberghe, que pediu ao governo federal um reforço nas tropas em Concepción.
À tarde, a presidente chilena, Michelle Bachelet -que classificou o terremoto como uma “enorme catástrofe” -, anunciou a mobilização de 7 mil soldados, que chegarão amanhã à região. Segundo ela, eles irão se somar aos mais de mil militares que já estão na cidade.
Resgates
Enquanto as forças de segurança tentam restaurar a ordem em Concepción, continuam as buscas por sobreviventes em meio aos escombros de prédios que desabaram.
Equipes de resgate conseguiram ouvir o som feito por pessoas presas em um edifício de 70 apartamentos, que colapsou com o tremor. Os trabalhos de perfuração das grossas paredes tiveram início imediatamente. Bombeiros já conseguiram retirar dos escombros 25 pessoas e nove corpos.
Concepción, a segunda maior cidade chilena, continuava sem eletricidade. Água era um item escasso - a população recolhia o líquido de uma fonte usando baldes e garrafas.
O terminal de ônibus e o aeroporto permanecem fechados. As leis de trânsito deixaram de ser respeitadas. Estradas e rodovias destruídas prejudicam a chegada de ajuda humanitária. Por falta de hotéis disponíveis, a reportagem dormiu no carro, estacionado no pátio de um hotel.
Durante a noite de domingo, foi possível sentir novos tremores leves. Um deles, por volta das 23h20, durou mais de um minuto.
Acidente
Um pequeno avião que partiu logo depois do meio-dia da capital, Santiago, e se dirigia a Concepción para verificar o estado de albergues na cidade caiu, matando os seis tripulantes da aeronave.