08 de julho de 2026
Geral

Calouros: uma vida em transformação

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 6 min

Vida de estudante não é nada fácil. São anos estudando para conseguir entrar em uma faculdade. Quando finalmente o tão sonhado objetivo é alcançado, lá vêm novas preocupações. Especialmente para aqueles que terão de deixar a cidade onde moram para estudar longe de casa.

Passada a euforia pela aprovação no vestibular, é hora de arrumar as malas e partir para uma vida nova, mais “independente”, longe dos pais e dos amigos com os quais conviveu toda a infância e juventude. É hora de encarar uma cidade desconhecida, onde tudo e todos são estranhos. É mais desafio pela frente. E esses desafios tornam os universitários mais “maduros” e mais responsáveis. Pelo menos, é isso o que eles dizem.

Afinal de contas, muitos têm de se virar sozinhos para cobrir as despesas com aluguel e comida, para lavar a roupa, cozinhar, arrumar a casa, acordar cedo sem que a mãe fique o tempo todo chamando e uma série de outras tarefas.

Quando se vêem diante dessa nova realidade, os calouros vivenciam um misto de alegria, por se sentirem livres e independentes, e apreensão, natural em toda mudança de rotina. É o que sentem as “bixetes” Renata Kato e Gabriela Chicrala, ambas de 17 anos e recém-aprovadas no curso de odontologia da Universidade de São Paulo (USP), em Bauru.

Renata é de Bastos e Gabriela, de Campo Grande (MS). É a primeira vez que elas se vêem longe dos pais, morando numa cidade desconhecida e tendo que se virar sozinhas. Agora elas são as responsáveis pela comida que consomem, pelas roupas que usam, pela limpeza e organização da casa.

“Estamos começando tudo do zero, desde a compra de mercado e dos utensílios até os eletrodomésticos, como micro-ondas e máquina de lavar, passando pela cama e sofá”, relata Gabriela. Ela e a companheira de apartamento nunca haviam se visto ou se falado até o dia da matrícula.

O mesmo ocorreu com o estudante de engenharia mecânica Felipe Delduca Cilino, 18 anos, de Mococa. Quando chegou para a matrícula na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru, ele não tinha a mínima noção de onde nem com quem iria morar. Hoje, divide um apartamento no Centro da cidade com mais dois calouros e um veterano.

Segundo ele, a maior dificuldade até o momento é se localizar na cidade. Sem conhecer nada, a não ser o caminho de casa até a faculdade, Felipe ainda está se sentindo completamente perdido. Dentro do apartamento, aos poucos eles vão se organizando. Sem muito luxo, eles ainda dormem no chão, usam sofá emprestado e não têm geladeira.

É uma TV para os quatro, mas ele garante que não há nenhum problema quanto a isso. “Como são poucas opções de canais não temos muito o que escolher”, justifica.

TV também não é problema para o universitário Danilo Alves da Silva Benedito, 18 anos, que mora com mais três em um apartamento. “Passamos a maior parte do tempo na Unesp”, diz. Recém-matriculado no curso de engenharia mecânica, ele ainda está sentindo um friozinho na barriga por estar longe de casa (ele é de Ribeirão Preto) e numa cidade desconhecida.

“Dá um pouco de medo porque é tudo muito diferente do que estava acostumado. Agora, tenho de correr atrás das coisas sozinho”, comenta. Sem saber cozinhar, Danilo está vivendo à base de macarrão instantâneo e comida congelada. Quando dá, come em restaurante. Quando não dá, apela para uma refeição caseira. Mas ele sabe que uma hora terá de aprender as artes culinárias e fazer a própria comida. “É uma questão de sobrevivência”, afirma.

Apesar de sofrida, a vida longe dos pais é um aprendizado que os universitários levarão para o resto da vida. É o preço que se paga pela independência. E eles parecem estar bastante dispostos a pagar esse preço. “Temos de fazer muitos sacrifícios, mas no fim acaba valendo a pena”, diz Felipe.

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Divisão de despesas e tarefas

é aprendizado para os jovens

A saudade dos pais é a maior pedra a ser removida do caminho pelos universitários “independentes”. As estudantes de farmácia Mariana Rosa, 18 anos, e Beatriz Spatti, 17 anos, são unânimes em apontar a distância dos pais como o teste mais difícil que tiveram de enfrentar até o momento, apesar da distância não ser assim tão grande. Mariana é de Pirajuí e Beatriz, de Jaú.

Elas também deixaram o “ninho” para voos mais solitários pela primeira vez. Mariana divide um apartamento com a prima Angélica Fonseca, 17 anos, que está fazendo cursinho. Por saber cozinhar, ela foi “eleita” a cozinheira oficial da casa. Mas a despesa com mercado é dividida entre elas. Quando estão em Pirajuí, elas marcam um horário e vão com as mães para o supermercado. Juntas, as quatro fazem a compra da semana e dividem a conta.

O procedimento é o mesmo no caso das universitárias Beatriz Spatti e Isabela Fanton, 18 anos, da Universidade do Sagrado Coração (USC). Antes de seguirem para suas cidades nos fins de semana (Isabela é de Bariri), elas sentam e fazem uma lista do que estão precisando no apartamento. Cada uma fica responsável por uma parte.

Segundo Beatriz, no quesito alimentação, ambas têm o gosto parecido. Por isso, não há divergência na hora de elaborar a lista de compra. Isso vale para os itens de alimentação, higiene e limpeza. Se há preferência por algum produto, especialmente de higiene pessoal, os custos ficam por conta de quem compra. Os itens de uso comum são todos divididos.

No caso da TV (só existe uma na casa), também não há motivo para briga. Até nisso elas combinam. Os programas preferidos são os mesmos. Assim como o estilo de música que se ouve no apartamento, mas na hora de usar a Internet, cada uma tem o seu computador.

Mariana e Angélica dividem até o espaço dentro da geladeira. Da metade para cima é da Mariana. Da metade para baixo, da Angélica. A limpeza da casa também é dividida. Cada uma limpa e organiza seu próprio quarto e se empenham conjuntamente na limpeza do restante da casa.

A exemplo do que acontece na cozinha, na hora de limpar a casa, as meninas também são mais eficientes. O lugar onde moram apenas homens não costuma ser um primor de organização e limpeza. Geralmente, eles acabam apelando para as faxineiras.

É o que se faz no apartamento onde mora Danilo Alves da Silva Benedito, 18 anos, estudante de engenharia mecânica. Ele divide o espaço com mais três universitários. Cada um é responsável pelo seu quarto, mas a cada 15 dias uma faxineira visita o apartamento para colocar o lugar em ordem.

Ele conta que tudo é dividido entre os moradores, desde a despesa com a faxineira e a alimentação até as contas de água, energia, condomínio e outros.