08 de julho de 2026
Polícia

Trânsito mata mais que violência

Maíra Soares
| Tempo de leitura: 4 min

Uma pesquisa divulgada ontem pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) constatou que os acidentes de trânsito superam os homicídios como a principal causa de morte não natural no Estado de São Paulo. Os homicídios lideraram esse ranking nada agradável por mais de 20 anos, mas desde 2007 a situação se inverteu. Em 2008, último período analisado pelo estudo, foram 7.404 mortes no trânsito contra 4.426 homicídios no Estado.

Bauru seguiu a tendência estadual e, em 2006, já apresentava mais vítimas fatais no trânsito do que em homicídios. Nos anos seguintes, 2007 e 2008, a situação se inverteu. Mas, no ano passado, o trânsito matou 14% mais que os assassinatos.

De janeiro a novembro do ano passado foram registrados em Bauru 6.983 acidentes na cidade e, em todo o ano, 32 pessoas morreram em decorrência deles. Neste mesmo período, o número de vítimas de homicídios no município foi de 28. No dois primeiros meses de 2010, a tendência ainda não se confirmou -, foram registradas quatro mortes no trânsito e nove óbitos causados por violência.

Para o comandante do 1.º Pelotão de Policiamento Rodoviário do 2.º Batalhão de Polícia Rodoviária (2.º BPRv), tenente Luiz Carlos Ferreira dos Santos, a imprudência dos motoristas ao desrespeitar as leis de trânsito é o principal motivo do crescimento do número de mortes causadas por acidente. “100% dos acidentes são causados pela culpa e não pelo dolo, ou seja, a intenção de causar a colisão. A culpa se divide em três fatores: a imprudência, a negligência e a imperícia. E, mesmo que o carro quebre, na maioria dos casos a culpa é do motorista que deixou de fazer a manutenção do veículo”, pondera.

Outro fator que colabora para o aumento dos acidentes, segundo o comandante da Base Sul da Polícia Militar (PM), tenente André Saito Arashiro, é o crescimento da frota de carros na cidade. Bauru tem um veículo para cada dois habitantes e esse número tende a aumentar. “O número de veículos aumenta, mas as vias e suas condições de conservação não mudam. Então, aumenta o risco de acidente”, argumenta.

Para Arashiro, a interrupção no funcionamento dos radares em meados de novembro do ano passado e a demora de mais de dois meses para a retomada de seu funcionamento também contribuíram para o acréscimo no número de acidentes. “O pessoal sabia que não estava funcionando (o radar), e abusava. Trafegava acima da velocidade permitida”, diz.

Para combater o crescimento no índice de acidentes, a PM investe em trabalhos de educação e na fiscalização das vias. “A solução está em melhorar a educação da população em relação ao trânsito, a engenharia das vias e a fiscalização. Neste último quesito, a função da PM é prevenir e não autuar todo mundo, mesmo porque não necessariamente as pessoas aprendem quando levam uma multa”, afirma Santos.

Os acidentes de trânsito também são frequentes nas seis rodovias que cortam a cidade de Bauru. Na área do 2.º Batalhão de Polícia Rodoviária (2.º BPRv), que abrange 11 municípios da região, foram registrados 1.657 acidentes e 48 mortes em decorrência destes em 2009. Comparando os meses de janeiro e fevereiro do ano passado e deste ano, pode-se constatar que o número de vítimas fatais teve um aumento de mais de 140%. Nos primeiros meses de 2009, foram 5 mortes. Em 2010, a estatística já aponta 12 vítimas.

Segundo o comandante do 1.º Pelotão de Policiamento Rodoviário do 2.º Batalhão de Polícia Rodoviária (2.º BPRv), tenente Luiz Carlos Ferreira dos Santos, além da imprudência, outro fator colaborou significativamente para o aumento das mortes nas rodovias da região. “Este ano as condições adversas atrapalharam demais. No início do ano foi a chuva e agora são as queimadas que prejudicam a visibilidade. Muitos motoristas não estão acostumados com a situação e ficam inseguros na direção, o que aumenta o risco de acidentes”, explica.

____________________

‘Mudou tudo’, diz mãe de vítima

Humberto Mello Pereira, 19 anos, foi a segunda vítima fatal do trânsito em Bauru neste ano. A vida do jovem frentista, que deixou um filho de 10 meses e muitos planos com a namorada, foi interrompida por um acidente na madrugada do dia 29 janeiro, no Jardim Prudência. Neste dia, ele perdeu o controle de sua moto e colidiu com o poste de uma placa de sinalização no canteiro central da quadra 8 da avenida Waldemar Guimarães Ferreira.

Para a família, restaram a saudade e a dor de perder um filho tão jovem em circunstâncias inesperadas. “Foi uma fatalidade, tinha chovido muito e devia ter terra na pista, aí ele perdeu o controle e bateu na placa. Depois disso, mudou tudo. Ele era meu filho mais velho, era muito querido”, conta Edmar Ferreira de Mello Pereira, mãe de Humberto.

Ela conta que tem mais dois filhos menores, mas não pretende deixá-los dirigir uma moto. A Yamaha do primogênito será consertada e vendida. Para Edmar, o veículo é perigoso e o capacete não é garantia de segurança. “Meu filho estava de capacete e não adiantou nada. Ele morreu mesmo assim”, lamenta.