Doutor em educação pela Universidade Harvard e ex-ministro da Educação do Chile (1994 - governo Eduardo Frei), Ernesto Schiefelbein dedica-se, há décadas, aos estudos dos efeitos de medidas adotadas em escolas da América Latina. Só no Brasil, esteve quase 30 vezes. Para ele, um dos grandes problemas da educação nos países latino-americanos é a ausência de avaliações por parte das escolas quanto aos seus métodos.
“Por questões até culturais, educadores e políticos tomam decisões sem nenhum respaldo científico. Algum professor tem o costume de dar uma aula e gravá-la para depois analisar?”, questiona o professor, que esteve ontem em Bauru para participar do 3º Simpósio Internacional de Linguagens Educativas, promovido pela Universidade do Sagrado Coração (USC).
De acordo com Schiefelbein, o professor não está habituado a colocar em questão a sua prática. “Todos tomamos medicamentos que são testados primeiro com animais, depois em pessoas, existe todo um processo de investigação. Em educação, o livro, normalmente, saiu da mente de uma pessoa, é impresso, chegou ao aluno e o aluno o estuda, sem nenhuma investigação sobre se ele é bom ou ruim. E isso acontece como algo natural, existe uma cultura de não se preocupar muito com a prática”, afirma.
Segundo o ex-ministro, dentro da sala de aula é ainda preciso driblar a falta de preparo dos educadores, com uso de métodos que não estimulam a participação do aluno. “Falta um pouco de técnica para ensinar. Provas, por exemplo, são exercício de memorização. Já pedir trabalhos é uma maneira do aluno aplicar o que aprendeu”, indica. Para o pesquisador, ainda é forte na América Latina o ensino de mão única. “É preciso existir uma troca entre o professor e o aluno. É preciso que os professores estimulem os alunos a participar, a perguntar. Ele não pode simplesmente dar respostas”, acredita o criador da metodologia Syllabus, utilizada pela USC, há cerca de dois anos.
O princípio principal do método é de que o aluno chegue preparado à sala de aula, para ter condições de ser mais participativo no processo de aprendizagem. “Aprendemos ao somar o estímulo com o nosso conhecimento prévio. O aluno que chega na aula tendo lido um texto prévio do assunto, por exemplo, tem condições de ser mais crítico”, explica. “Isso exige um comprometimento dos alunos, mas são hábitos que podemos construir”, completa.
Outra importante mudança que o pesquisador aponta como necessária dentro da sala de aula é a formação do aluno para tomada de decisões. “Isso deveria fazer parte da nossa educação. Não nos vão preparando para seguir aprendendo por nossa conta. Esse deveria ser um processo dentro da escola, que temos que ir avançando passo-a-passo. A capacidade de tomarmos decisões deveria nos ser colocada desde o primeiro grau”, finaliza.