11 de julho de 2026
Articulistas

Paraíso: vida digna através de uma economia sustentável

José Rafael Mazzoni
| Tempo de leitura: 4 min

E Deus viu que tudo era bom, criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus Ele o criou. Após abençoá-los lhes disse: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra.” (Gn 1,28).

E assim a humanidade foi criada para usufruir a criação divina. No entanto, logo de início há a ruptura. O casal não entende o que os une e se separa para ver qual poderia ser maior. Maior até que o Criador. Assim, laços de união foram desfeitos. Não respeitaram que a viviam em comunidade e que esta só se entende, só se sobrevive pelo lado da costela, ou seja, do coração. A comunidade cresceu. Os “cains” também quiseram mais, mais poder e posse. Para conquistá-los começaram uma guerra fratricida matando os “abéis”. O paraíso criado para viver o amor humano passou a ser lugar de dominação. Da alegria dos filhos, sentiu-se as dores do parto. Da vida eterna, começou o medo da morte. Da terra que produzia subsistência, só se podia ter através de esforço e de espinho. Do Deus criador e amigo veio medo. A vida de fé, deu lugar à magia e superstição. Tudo se tornou uma Babel. A História foi evoluindo e a visão dual foi acontecendo: o bem contra o mal, tudo decorrente do acúmulo, do acúmulo, da exploração.

Ao cercar o terreno e se impor, o homem deixou de ter comunidade, fraternidade. Passou a ter reino, poder. Revisando a História Antiga deparamos que ela foi construída através da conquista dos povos mais fracos que se tornaram escravos, serviçais e, os que resistiram, encontraram a morte. No processo de globalização, mais somos um “hotel global”, onde num entra e sai, ninguém se conhece, do que uma “aldeia global”, uma fraternidade.

Isto causa desigualdade e conflitos entre pessoas e países. As guerras e outros movimentos similares são geralmente causados por desentendimentos gerados pelos interesses econômicos. Conseqüência é a fome, a ignorância pela falta de conhecimentos e educação e a própria morte. Por não termos criado a vida, não somos donos dela. Valores não podem se tornar mercadoria. E hoje, geralmente, tudo que se faz é através de pagamento. Não se doa, não se agradece. Com isso nos afastamos daquilo que nos faz e solidifica como criaturas e humanos: o amor, a dádiva, a fraternidade e a solidariedade. Nenhum animal, além do ser humano, tem esses valores que são distribuídos na criação quando “Ele os criou como imagem e semelhança.” (Gen. 1, 26). O sucesso na vida econômica não pode ser decorrente da destruição do outro, ou do meio ambiente. A vida deve ser pautada nos princípios éticos que visam criar condições de segurança e oportunidade para todos, principalmente para os sem vez e sem voz, que já nasceram na marginalidade e não sairão da miséria, se não houver uma corrente de solidariedade que leve o desenvolvimento e a oportunidade para todos. Pela evolução que atingimos não podemos retroceder, pelo contrário. Nunca as pessoas tiveram tantas oportunidades e o que observamos é que nunca tivemos tantos marginalizados, gente com fome, sem roupa, sem moradia, sem educação, sem saúde, sem lazer, sem garantias essenciais e condições para uma vida digna. Não vamos parar o mundo, mas podemos, assumir o desafio de dar um basta nesta situação. Ao tomarmos consciência, poderemos interferir, exigir sólidas mudanças. A proposta não é que fiquemos sem nada, mas que saibamos partilhar e viver uma vida miais fraterna. É preciso resgatar o princípio da vida em comunidade que é o Bem Comum. Todos podem e devem ter. Não estamos aqui para sofrer com a promessa de que um dia viveremos uma vida melhor mas sim, estamos aqui, para já experimentarmos o “novo céu e a nova terra”. A outra vida, se vier, só pode ser continuidade desta, pois a promessa é de que “hoje mesmo você estará no paraíso comigo” (Lc, 23, 43). Podemos considerar que em muitos aspectos legais, o Brasil avançou, temos garantias para as crianças, a mulher, o idoso, o negro, o índio e tantas outras classes que têm seu estatuto como forma de resgatar sua dignidade de vida. Só isto não basta! É necessário construirmos um sistema econômico que assegure vida melhor para todos. A utopia pode ser possível! Afinal,”onde estiver teu tesouro, ali também estará o teu coração” (Mt 6,21). É hora de construirmos um mundo melhor: em vez de exploração, a fraternidade; em vez da acumulação, a partilha; em vez da cobiça, a distribuição; em vez do egoísmo, o amor; em vez da morte, a vida. Que a ECOVIDA seja um novo Paraíso que proporcione a todos uma vida digna através de uma economia sustentável.

O autor, José Rafael Mazzoni, é professor-mestre da Universidade Sagrado Coração