08 de julho de 2026
Auto Mercado

Dr. Automóvel: Super- Picapes

Consultoria: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 5 min

Do ponto de vista mais técnico possível, uma picape cabine dupla moderna é o melhor de dois mundos: é um automóvel confortável para viagens com a família e que ainda tem a força, resistência e capacidade de carga externa de uma picape comercial. É claro que eu queria ter uma, pois viajo muito a trabalho, vou ao sítio com a família, poderia levar a moto na caçamba ou andar na trilha, puxo carreta para a fábrica, enfim, seria um carro perfeito. Mas o que as fábricas fazem me impedem de realizar o meu sonho de ter um carro ideal.

Acontece que eu sou minoria, pois escolho o meu veículo de forma mais racional (considerando mais o que eu preciso e possa pagar) e menos emocional (o que eu gostaria de ter, mesmo que não possa). As fábricas fazem muitas pesquisas de opinião antes de lançar um produto, onde seu departamento de marketing detecta os nichos a serem preenchidos e solicita à engenharia para fabricar o que o mercado quer. Se elas detectam que o público alvo quer determinada concepção de veículo com certo tipo de acabamento, eles o fazem e colocam no mercado. Portanto, o que temos aí disponível é o que a maioria do público queria ter.

Com as picapes, surgiu um fato inédito. Elas sempre foram dominantes no mercado de trabalho agrícola e comercial, pois são extremamente versáteis. São altas e oferecem ampla visão do trânsito, além de mais segurança. Daí surgiu a idéia de dirigir as grandes picapes no trânsito urbano. O sujeito via os outros por cima, sentia-se mais seguro pois o caro é mais forte e imponente, além de dar um pseudo status (tem gente que ainda leva isso em conta...!).

Como resultado, o trânsito ficou pior, já que uma grande picape ocupa mais espaço na via pública pois é mais larga e comprida do que um carro comum, além de que para estacionar é uma guerra de espaços, fora que ainda tem gente que anda devagar para dar tempo de os outros o verem. E o que as fábricas fizeram? Colocaram mais acessórios chiques e descabidos como banco de couro, MP3, DVD e outros mimos em uma picape! A brava tração 4x4 passou a mera coadjuvante, pois quase nunca o proprietário de um carrão desses pisa na grama, se puder até desvia de poça d’água para não sujar a bonitona. E com tudo isso o preço da picape vai lá para as alturas e impede que um verdadeiro usuário do veículo possa tê-lo em seu trabalho. No meu ponto de vista, as fábricas não estão erradas, absolutamente, o público é que está.

Algumas super picapes oferecem sistemas de tração muito evoluídos, ideais para o uso fora de estrada, mas só nas versões top de linha. Como jipeiro, é claro que eu adoraria ter uma dessas. Mas o preço acima dos R$ 100.000,00 impede que um reles mortal chegue lá.

Equipamentos como sistema de assistência nas decidas é um deles. Se estiver descendo um barranco muito íngreme, o sistema aciona automaticamente o motor e os pedais e controla a descida sozinho. O mesmo acontece em subidas muito fortes, o próprio sistema detecta por sensores a situação e opera automaticamente o veículo. Agora, convenhamos, quem paga mais de cem mil por um carro desses, vai subir ou descer barranco? Então, pra que tudo isso, senão para encarecer o produto e poder falar para os outros que tem mas não usa?

A Volkswagen não quis ficar atrás do mercado e vai lançar em breve a Amarok, sua primeira picape no segmento das grandes e traçadas. Virá com freios ABS, que permite escolher dois modos de utilização: cidade e fora-de-estrada. O sistema permite otimizar sensivelmente a segurança em frenagens de acordo com o tipo de piso. Isso é bom. Virá também com sistema eletrônico de controle de estabilidade (ESP), que corrige derrapagens; bloqueio eletrônico do diferencial traseiro (EDL), que aumenta a aderência evitando que as rodas patinem; assistente eletrônico de saída em inclinações acentuadas (HHA), que impede o veículo voltar para trás em uma subida, mesmo sem manter o pé no freio. Motor turbodiesel moderno, 163 CV como suas maiores concorrentes no mercado brasileiro. Câmbio manual de 6 marchas com comando elétrico de tração e reduzida. Tudo isso na versão top, claro.

Tudo muito bonito, mas o preço só sai em abril. A VW garante que a Amarok vai custar menos do que a sua maior concorrente, a Toyota Hilux top, hoje vendida a R$ 126,5 mil. A VW estima que o preço não ultrapasse R$ 120 mil. Que ótima notícia...!! Só que continuo fora. Se tivesse uma versão menos luxuosa e empetecada mas com toda esta mecânica, seria minha!

O etanol não terá uma boa queima e gerará menos potência, poluirá mais e consumirá muito. Outro fator que o chip não corrige: a corrosão do álcool. Motor a gasolina não tem que se preocupar com corrosão, portanto os dutos, bicos injetores, bomba de combustível, sede de válvulas, tanque de combustível e outros componentes não têm proteção contra corrosão. Caso o esperto use apenas álcool, poderá ocorrer corrosão ao longo do tempo, danificando o equipamento e prejudicando a eficiência do motor.

* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda.

Seu site é www.marcoscamerini.com.br.