Apesar do raio X exato sobre causas e quantidade de ocorrências de trânsito, as pranchetas repletas de números omitem ao menos um, mas, talvez, o mais importante dado sobre acidentes: o estrago que faz na vida de familiares e vítimas.
Tida como uma das ‘vilãs’ por muitos quando o assunto é perigo, as motocicletas, preconceitos à parte, ameaçam seus usuários, independentemente se estão corretos em eventual acidente, por não proteger fisicamente quem as pilota ou viaja na condição de passageiro.
E foi sobre duas rodas, a bordo de uma potente Suzuki Hayabusa, que o gerente de oficina Horivaldo Alves Pereira, então com 35 anos e apaixonado por motocicletas, deixou esposa e filha e engrossou a lista de vidas perdidas em acidentes.
Pereira, “Vado” para amigos e familiares, morreu em 2003, quando voltava de uma reunião de motociclistas em Ribeirão Preto. Numa estrada de pista simples, recorda a viúva, Cibele Marísia Stoppa, o motociclista tentava uma ultrapassagem sobre um caminhão quando, subitamente, o veículo pesado convergiu à esquerda, sem dar seta e chances a Vado.
“Ele percebeu que não teria saída, mas ainda tentou (se livrar do caminhão). Era bom pai e bom marido e dizia que, se um dia morresse numa moto, morreria feliz. Mas isso não me consola. A falta do outro não é brincadeira”, lamenta.
Também numa motocicleta, há um ano, um acidente trouxe dor extrema a duas famílias com a morte do casal de namorados Luiz Henrique Zamaro Ruiz e Hellen Cristiane Pereira de Souza, ambos com 23 anos. Juntos havia 4 anos, eles iam para um boliche, quando tiveram trajetória e vidas interrompidas no trecho urbano da rodovia Marechal Rondon (SP-300), em Bauru.
O acidente foi causado por outra ocorrência com moto. O casal, após desviar de uma moto no chão, acabou atingido em cheio por um caminhão, vindo de trás, que também acertou um automóvel. Luiz Henrique morreu na hora e Hellen instantes após o acidente.
Para o vendedor Carlos Luiz Souza, pai da garota, um acidente com essa violência, ainda mais ao se tratar da morte de uma filha, é um pesadelo constante na memória. “É um impacto muito grande, sem explicação ou qualquer tipo de lógica. Você acha que não é verdade, mas tem de se acostumar”, resigna-se o pai, que cobra melhorias no trecho urbano da Rondon, entre elas iluminação. “O fluxo triplica ou até quadruplica na parte que atravessa a cidade. Ouvimos falar de projetos, mas, na prática, não mudou nada”, protesta.