09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Maria Martha Martins Ferraz

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

Música e ensino movem Maria Martha

Maria Martha Martins Ferraz, Marthinha como é conhecida no meio musical em Bauru, é uma dessas mulheres que não desistem jamais de lutar pela vida e seus ideais. A aposentadoria chegou há alguns anos, porém, a inquietude de mulher independente e de quem não consegue ficar parada a levou a prestar um concurso estadual e, hoje, ela é professora de artes. “Dar aulas em escola estadual é um desafio”, confessa.

Por falar em desafios, eles sempre estiveram presentes na vida de Maria Martha. Talvez o maior deles tenha sido criar um filho sem a presença do pai. “Meu filho foi um presente de Deus aos 40 anos de idade, quando já pensava em adoção. Criá-lo sozinha foi difícil, mas pude contar com a ajuda de amigos e a proteção de Deus”, afirma.

Entre as paixões da professora, a música se destaca desde a infância. Ela já cantou na noite, fez parte de corais, é professora particular, já se apresentou em diversas cidades da região, pretende lançar um CD em breve e é integrante do show anual “Nós Mulheres”, no Templo Bar. “A música é uma das razões de estar viva”, frisa.

Além da música, ela fala ao Jornal da Cidade sobre a greve dos professores estaduais, a difícil e prazerosa tarefa de ser mãe sozinha, infância, juventude e planos futuros. Leia os principais trechos.

JC - Como surgiu a sua relação com a música?

Maria Martha – Eu sou da Igreja Presbiteriana da Antônio Alves. Nasci e cresci lá. É uma igreja que canta, canta e canta. Isso favorece a musicalização. Desde a barriga da mãe, a criança já vai sendo musicalizada e comigo aconteceu assim. Minha mãe era solista do coral, cantava nos casamentos na igreja e meu pai também.

JC – Fez faculdade de música?

Maria Martha – Fiz quando trabalhava no Banco do Brasil, porque antes disso eu não tinha condições financeiras. Depois da faculdade, passei a cantar muito pelas noites da cidade. Fiz a faculdade na Universidade do Sagrado Coração (USC), onde também lecionei por dez anos, até ter um filho e precisar parar com as aulas.

JC- E quanto ao show “Nós Mulheres”?

Maria Martha – Acontece todo mês de março no Templo Bar, há 13 anos em comemoração ao Dia Internacional das Mulheres. É um show beneficente com cerca de 20 mulheres que cantam na noite. Eu entrei no segundo ano de apresentação do show e estou até hoje. Não ganhamos cachê e toda a renda vai para a Sociedade de Apoio às Pessoas com Aids de Bauru (Sapab). Além disso, levamos violão, esmaltes, batom, brinquedos e fazemos uma festa com a criançada. É um trabalho muito gostoso e prazeroso. Depois do show, o Fernando, oferece um jantar para as mulheres, também muito bom.

JC- E o que a música é na sua vida?

Maria Martha – Uma razão de estar viva. A música mexe com o ser integral e com as emoções. Ela pode ser altamente relaxante, fazer você se expressar de alguma maneira. Para mim, a música representa uma razão de estar viva, assim como o meu filho é.

JC – Hoje você leciona em escola estadual, certo?

Maria Martha – Sou professora de artes há cerca de cinco ou seis anos. Depois da aposentadoria não quis parar de trabalhar. Fiquei desesperada em casa. Fiz um concurso do Estado e passei. Fui trabalhar em Marília, mas logo consegui vaga em Bauru. Leciono na escola “Walter Barretto”, no Octávio Rasi. Uma tarefa difícil.

JC – Quais são as maiores dificuldades?

Maria Martha – Acho que o que provocou a maior dificuldade do ensino no Estado é o aprovação automática. A partir do momento em que o aluno não tem o compromisso de estudar, porque ele sabe que vai ser aprovado (ele só pode ser reprovado se faltar muito), ele deixa de ter interesse em aprender. Muitas vezes eu tenho a impressão de falar para as paredes da classe. A quantidade de alunos na sala de aula é outro problema. Temos classes numerosas, com quase 40 alunos fervendo, a todo vapor. A falta de equipamentos e condições para o trabalho também pesa.

JC – Como é a sua relação com os alunos?

Maria Martha – Procuro conversar muito com eles. Sou uma mãezona daquela molecada. Os adolescentes ficam com o pé atrás comigo porque eu sou mãezona, mas daquelas rígidas e não admito certos comportamentos e situações. Eu pego no pé. Na hora de elogiar, eu elogio, bato palma, faço farra, mas quando precisa, dou broncas.

JC – Qual foi o maior desafio da sua vida?

Maria Martha – Ser mãe solteira não é nada fácil. Tive um bom relacionamento com o pai do meu filho durante uns 10 anos, mas nunca nos casamos ou moramos juntos. Quando engravidei, já tinha 40 anos e não esperava mais que isso pudesse acontecer. Já estava até pensando seriamente em adoção. Criar um filho sozinha é muito difícil, mas muito gratificante. Tive grandes amigos que me ajudaram. Tenho que agradecer a Regina. Eu ligava para ela de madrugada e ela sempre me socorria. O Allan tinha asma e acordava tossindo no meio da noite, com febre, eu não sabia o que fazer e precisava trabalhar no dia seguinte. A Regina ia até minha casa, dizia para eu dormir, dava banho no meu menino, cuidava dele, fazia inalação...Às vezes, ela adormecia ao lado dele. Tenho amigas que preciso agradecer a vida toda. A saída que encontrei para ele estudar foi trabalhar nas escolas para, assim, ganhar bolsas de estudo. Além das amigas, a fé em Deus me segurou e me deu forças.

JC - Você é uma mulher de muita fé?

Maria Martha – Sim, de muita fé.

JC – Quem é Deus para você?

Maria Martha – É um grande pai e amigo. Assim como foi meu pai carnal. Deus é um pai justo, amoroso e presente. Não me sinto sozinha nunca. Morei sozinha muitos anos e nunca me senti só ao ponto de falar: “ai meu Deus eu aqui no meio dessa multidão e sozinha”. Não, isso nunca.

JC – Qual é o recado que você deixa para as guerreiras como você?

Maria Martha – Ah, não desistam. Chorem se precisarem chorar. Ajoelhem-se e tenham em mente que filho é presente, é presente...

JC - Quais são os seus planos futuros?

Maria Martha – Olha, eu estou aprendendo músicas de compositores não conhecidos. Músicas de compositores como Jorge Vidal e meu amigo João Miguel. Pretendo lançar um CD com essas canções.

JC – Você tem CD’s gravados?

Maria Martha – Sozinha, não. Gravei com o Badê, no tempo dos festivais. Chegamos a nos apresentar na TV Cultura. Era um disco apenas de bossa-nova. Isso foi em 1997. Fizemos shows em Bauru e fora da cidade. Canto desde os 7 anos de idade.

JC - Como foi a sua infância?

Maria Martha – Foi muito alegre. Eu morava em um predinho na Araújo Leite. Nossa, como eu brincava na rua. Havia um depósito de material de construção e a gente vivia brincando por ali. Quando chegava caminhão de areia, era uma festa. Subíamos em cima da casa e pulávamos no monte de areia. Tive muita micose de areia. Tive amigos com quintal e vivia subindo em árvores. Foi uma infância mágica.

JC- Foi rebelde na adolescência?

Maria Martha – Fui. Brigava muito com meus pais. Comecei a fumar e a namorar um rapaz que eles não queriam. Sempre dava um jeito de fugir. Então, comecei a cantar com ele em casamentos e precisávamos ensaiar. Foi a saída que encontrei para namorar quando não podia. A música sempre esteve presente em minha vida. Outra história engraçada que lembro foi minha festa surpresa de 18 anos, que eu mesma criei. Queria passar o aniversário com ele, assim, decidimos montar a festa surpresa com uns amigos. Meus pais eram severos. Quando saía, eu precisava voltar às 10h da noite para casa e, se não chegasse na hora marcada, eles me buscavam onde quer que eu estivesse. Hoje sei que o que faziam era certo porque acreditavam que assim deveria ser.

JC – Você cria seu filho da mesma forma?

Maria Martha – Procuro instruí-lo como fui, inclusive com a mesma religião. Ele também é músico, assim como eu e o pai.

JC – O que faz para se distrair?

Maria Martha - Faço tricô, crochê, gosto disso, aprendi com minha mãe. Gosto de assistir alguns filmes na TV, novela... Acompanha os programas populares da televisão porque os alunos falam, perguntam e querem saber sobre o que está acontecendo. Para orientá-los e dar minha opinião, preciso estar por dentro de tudo. O mesmo acontece com a música. Dou aulas particulares e preciso saber um pouco de cada gênero, mesmo que não goste.

JC – Você aderiu à greve de professores?

Maria Martha – Sim. Dizem que a gente não pode ter medo, né? Mas sempre fica um receio sobre o que vai ser. Eu tenho analisado a situação. Todas as greves são políticas, independente de que partido eu seja e o partido que eu esteja indo contra. Há sempre uma conquista, uma busca pela conquista do poder. Eu gostaria muito que a gente conseguisse não só a reposição salarial, porque há seis anos nós estamos sem reposição. Então, essa displicência, essa falta de respeito por nós da parte dos governantes me entristece muito. Sabemos do que estamos falando e precisamos alcançar o conhecimento de nossos alunos para que eles consigam ir para frente. A impressão que me dá é que quanto menos cultura, melhor para o poder porque eles conseguem manobrar com maior facilidade e por isso não interessa para eles ter professores que queiram criar alunos cultos, já que os alunos irão questionar a postura deles. Não admito ser maltratada e desrespeitada, que é o que eu estou sentindo, que nós, como professores, estamos sentindo. Nós não somos inimigos da educação, ao contrário.

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Perfil

Nome: Maria Martha Martins Ferraz

Idade: 57 anos

Local de Nascimento: Bauru

Signo: Capricórnio

Filhos: Allan

Hobby: Leitura, música e canto

Livro de cabeceira: “A cabana” e a Bíblia

Filme preferido: Filmes que retratam a realidade

Estilo musical preferido: MPB

Time: Noroeste

Para quem dá nota 10: Aos professores do Estado de São Paulo

Para quem dá nota 0: Aos gestores da educação educação no Estado

E-mail: marthynha@hotmail.com