Ibitinga - A capital nacional do bordado, Ibitinga (90 quilômetros de Bauru), se transforma no mês de abril para promover um espetáculo religioso que já ganhou espaço no Estado de São Paulo e no País: a Via Sacra ao vivo. A versão 2010 do Grupo de Teatro Bom Jesus, que conta com 180 pessoas, traz um cenário diferente para uma história de fé e muita tradição.
A primeira encenação do grupo aconteceu em 1982 com a mesma equipe, que na época contava com apenas 58 integrantes. Desde então, a lista de integrantes cresce a cada ano. A expectativa dos organizadores é receber 10 mil pessoas no pavilhão de exposições Dr. Licínio Hilmar de Oliveira Arantes e arrecadar pelo menos três toneladas de alimentos não perecível. O montante coletado será entregue ao Fundo de Solidariedade Social da cidade, como aconteceu no ano passado.
O evento religioso é a representação dos episódios mais marcantes da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Representa as 15 estações da Via Sacra. Começa com a prisão de Cristo e passa pelo julgamento de Pôncio Pilatos, que neste ano ganha um cenário novo, segundo explica um dos organizadores, Robinson Pinheiro.
“Depois do Cristo julgado e condenado, ele recebe a cruz e começa a caminhada até o calvário. Fazemos a representação do encontro com Maria, uma cena muito bonita, forte. A encenação do encontro de Jesus com Verônica, a última queda Dele, quando é pregado na cruz e morre, são cenas que comovem o público e os atores.”
Ressurreição
Pinheiro ressalta que, após a morte, Cristo é retirado da cruz e colocado no colo da Maria. Tem o sepultamento e, em seguida, a Ressurreição. “É a apoteose, com espetáculo pirotécnico que dá todo sentido à Via Sacra. Afinal, ressurreição é a vida, fato de suma importância para todos nós. Esse episódio é um dos mais marcantes do espetáculo, que dura cerca de uma hora e meia.”
Para apreciar a apresentação, há arquibancadas no recinto com capacidade para acolher 10 mil pessoas. O ambiente vai ser preparado por grupos musicais.
“Este ano vamos fazer duas apresentações, na quarta e na Sexta-feira Santa. Na primeira, contaremos com a participação do grupo ‘Ir ao Povo’, que canta com o padre Zezinho. Na sexta-feira a preparação musical fica a cargo da banda Doce Veneno. Pela primeira vez contaremos com a participação do coral da matriz do Divino Espírito Santo da cidade de Itápolis. Eles serão os responsáveis pela parte musical do encontro de Jesus com Maria, onde vão cantar a Ave Maria. Na cena da Ressurreição, eles cantam Aleluia, e também vão cantar no final.”
Para assistir o espetáculo não há cobrança de ingresso, mas os organizadores pedem um quilo de alimento não perecível para ajudar as entidades mais necessitadas da cidade. “No ano passado foram arrecadadas três toneladas em dois dias de apresentação. Esperamos superar esse resultado”, diz Pinheiro O evento consta no calendário turístico do Estado de São Paulo.
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Há 29 anos como Jesus
‘Encarnar’ o papel de Jesus Cristo na encenação da Via Sacra exige esforço físico e emocional. Robinson Pinheiro, que há 29 anos desempenha o personagem, sabe disso e não se descuida.
“Tenho feito todo um preparo físico desde o início do ano com exercício físico e dieta alimentar para melhor caracterizar o personagem. Na próxima sexta-feira vou me transformar no personagem com a tintura da barba, cabelo, fazendo aplique. Desde meados de dezembro não corto a barba. Eu usualmente tenho barba, mas desde o dia 10 de dezembro deixei de mexer com barba e cabelo. Também tenho que colocar alongamento no cabelo”, detalha Pineiro.
A alimentação dele também muda já no início do ano, com uma dieta mais leve. “Faço muito exercício físico. Ando 10 quilômetros todos os dias para perder peso e ter preparo físico necessário para enfrentar as apresentações. É cansativo. A cruz é pesada realmente, ela pesa 60 quilos no começo. No final ela tem 90 quilos. O chicote é para valer. Então, tenho que estar bem preparado”, conclui o ator.
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Isopor vira cenário
Leandro César Lourenço é representante comercial e um dos centuriões na encenação da Via Sacra, em Ibitinga, há dez anos. Este ano ele encarou o desafio de trocar o cenário do palácio de Pôncio Pilatos. Foi em busca de cenários semelhantes aos que pretendia construir. A Internet, os livros e até a Bíblia serviram de inspiração para ele.
“São 20 pessoas envolvidas no trabalho. O mais difícil é o tempo. Todos trabalham o dia todo e depois do expediente vão para o barracão e colocam a mão na massa.”
Segundo ele, para dar mais vida ao isopor, o material foi revestido com massa corrida, recebeu recortes e muita tinta para se aproximar ao máximo do real. A madeira também está sendo usada.
“O trabalho precisa estar pronto até quinta-feira e estamos a todo vapor para dar conta de tudo o que ainda resta a ser feito. Vai ficar melhor do que esperávamos”, diz Lourenço.
O cenário tem cerca de 16 metros de frente por aproximadamente 8 metros de altura. Foi feito em módulos que depois vão se encaixar e formar o todo. A estreia do novo cenário está sendo aguardada pelo público, mas ainda mais por quem trabalhou na construção dele, que verão concretizada uma ideia.
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Fraqueza e decisão
Há 19 anos o empresário, Antônio Carlos Feitosa, 31 anos, faz parte do Grupo de Teatro Bom Jesus, de Ibitinga. Interpretou o mau e o bom ladrão, Barrabás, fez parte do povo e, nos últimos quatro anos, figurou como um centurião (soldado romano). Este ano, o empresário vai interpretar Pilatos.
“A parte do texto mais difícil de interpretar é quando Pilatos lava as mãos. Porque ele tem a convicção de que Jesus vai ser crucificado e ele, na verdade, não queria, mas opta por lavar as mãos. Ele diz: crucifiquem vocês mesmos. É a parte mais marcante, até no ensaio eu me emociono. Me toca emocionalmente. Mostra a fraqueza dele, que tinha o poder, mas não tomou a decisão.”
Feitosa comenta que desde que começaram os ensaios da Via Sacra, sua rotina diária mudou. “Fico repassando o texto a todo minuto, em casa, no carro e em qualquer tempinho de folga. Quero fazer o melhor.”
Segundo o ator, são cerca de 30 minutos de fala e cada uma delas exige uma interpretação. “O texto é extenso. São 30 minutos de diálogo com sacerdotes, com Cristo. Pilatos é quem comanda a condenação. Além de decorar as falas, tem as interpretações diferentes. Com Cristo é de um jeito, contracenando com os sacerdotes, de outro, com a Cláudia, mulher dele, é outra encenação. O texto é bem variado”, define.