“Estamos” em greve. A razão das aspas é simples; tem professor trabalhando! Fazer greve é um direito, ficar na escola também. Ora, mesmo sem aluno, ficar na sala dos professores cumprindo horário é um direito!?
Reclamamos (todos) todos os dias, todos os meses, e o ano inteiro, que ganhamos pouco, que não somos valorizados, que não temos aumento de salário. Fomos à luta. O professor em greve não pensa nele, pensa no grupo, na classe. Não é egoista. Não faz greve porque gosta. Tem uma causa, exerce seu direito. Faz greve por uma educação de qualidade, por não ser visto, por não ser ouvido.
O sr. José Serra disse que “está em greve quem não quer trabalhar”. Queremos sim e o fazemos com responsabilidade. Não somos professores do tipo que só passa conteúdo, que só segue o caderno do aluno (material) oferecido pelo Estado e que perde muito para um bom livro didático). Ensinamos os alunos a lutar por aquilo que desejam, a correr atrás do que merecem, orientamos para serem bons cidadãos, bons trabalhadores e cumpridores dos seus deveres. Que saibam fazer escolhas, que pensem na hora de votar e que busquem soluções para seus problemas.
Vocês já pensaram se o salário mínimo não tivesse aumento todo ano? Por acaso os trabalhadores precisam fazer greve para receber seu aumento anual? Assim também deveria ocorrer com o salário do professor, do policial, do agente da saúde, que são trabalhadores como todos os outros.
Só que não temos aumento há anos. Nossa greve não é política, não haveria greve se o governo do Estado mais rico da União, com “as melhores estradas do país” (pagas pelo usuário com pedágio abusivos), remunerasse seus professores adequadamente.
Ganhamos mal, sim! Política de bônus e gratificações não satisfaz a todos. E os aposentados? Como estão? Além disso, falta concurso para ingresso no magistério do Estado, pois o número de professores não concursados é grande e isso que atinge diretamente a qualidade das aulas, uma vez que a rotatividade frequente de professor interfere nos resultados.
O modelo de atribuição de aulas é outro absurdo. Há professor residente em Bauru ministrando 10 aulas em Lençóis Paulista para não ficar fora das atribuições seguintes, e essas aulas, por serem de recuperação, são distribuídas nos cinco dias da semana, duas por dia. Estão pagando para trabalhar, pois um mesmo professor acaba dando aulas em Bauru, Tibiriçá e Iacanga. E há outras situações que os funcionários da Secretaria da Educação, que estão em salas com ar condicionado, não conhecem. Aliás, não conhecem nem o dia-a-dia de uma escola.
Uma empresa que paga mal seus funcionários não atrai bons profissionais. Talvez seja esta a meta do governo: preencher as escolas com pessoas mal qualificadas, que encontram dificuldade de conseguir emprego em outras empresas, mas que acham fácil “pegar” aulas nas escolas estaduais, pois sabem que há falta de professor na rede pública.
A técnica utilizada pelos gestores da educação no estado é avaliar os professores com provas de conteúdos desnecessários à prática docente, e com base nesses resultados dizer que os baixos índices de aproveitamento de alunos no Saeb, Saresp e outras avaliações, são de responsabilidade dos professores. Isto depois de utilizar o sistema de “progressão continuada” por vários anos. Quanta ironia!
Professora Iara Maria V. Santos