09 de julho de 2026
Bairros

CCZ culpa a população por índice de eutanásia

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Se as pessoas tivessem consciência de todos os aspectos que envolvem a posse responsável antes de adotar um animal, certamente não existiriam tantos cães e gatos abandonados nos bairros de Bauru. Isto porque ter um bicho de estimação exige carinho, alimentação adequada, atenção às suas necessidades físicas e, sobretudo, cuidados com a saúde animal, o que inclui vacinas e atendimento veterinário. Se essas regras fossem seguidas , os casos de leishmaniose diminuiriam e, consequentemente, o número de sacrifícios também.

É partindo desta premissa que o Centro de Controle de Zoonozes (CCZ) de Bauru afirma que a população é responsável grande parte das eutanásias praticadas no local. “Hoje em dia é difícil encontrar aquele animal que seja tipicamente de rua, isto porque com os altos índices de leishmaniose na cidade, estes animais, chamados de errantes, acabaram morrendo. Se hoje a doença continua a existir é porque tem gente que insiste em deixar bicho solto na rua”, afirma José Rodrigues Gonçalves Neto, chefe do CCZ.

De acordo com ele, cerca de 400 animais são eutanasiados por mês, 95% dos casos em decorrência de leishmaniose. Para diagnosticar a doença, o CCZ realiza de segunda-feira à sexta-feira atendimentos gratuitos à população.

No caso de animais recolhidos das ruas por abandono, basta a presença de um conjunto de sintomas para que a eutanásia seja autorizada pelo Ministério da Saúde. Já nos casos de animais acompanhados dos proprietários, caso haja a suspeita, o CCZ indica a visita a um veterinário particular para confirmar o quadro.

Para complicar ainda mais o quadro de abandono, diariamente o CCZ recebe cães e gatos em perfeito estado de saúde, mas que foram rejeitados. Algumas vezes, os animais são levados até o órgão por seus próprios donos.

“Cada dia as pessoas aparecem aqui com uma justificativa diferente. A impressão que tenho é que muita gente acredita que o CCZ é depósito de animais rejeitados. Em cerca de 15 anos que trabalho aqui, já ouvi desculpas que vão desde ‘não quero mais o cachorro porque ele está velho demais’ até a alegação de que o bicho ‘cresceu além do esperado’. É um absurdo”, reclama Gonçalves Neto.

Adoção

No caso de rejeição, o CCZ encaminha os animais ao canil ou ao gatil, onde permanecem por um tempo à espera de adoção ou, no caso de animais perdidos, aguardando por seu dono.

A reportagem do Jornal da Cidade visitou o CCZ para conhecer melhor as instalações e o funcionamento do local. A cada passo dado em volta das grades que alojam gatos e cães, um pedido de adoção parecia ‘ecoar’ pelos olhares e grunhidos de cada bicho.

“Somos muito criticados por fazer a eutanásia, mas alguém tem de ficar com este papel. Olhe para estes animais. Você acha que eu, como veterinário e ser humano que sou, gosto de sacrificá-los?”, questiona José Rodrigues Gonçalves Neto.

Outra questão pontuada pelo veterinário é a dificuldade que a entidade tem de encaminhar animais para a adoção, embora este quadro tenha obtido uma aparente melhora. Em 2008, por exemplo, foram adotados 208 cães e 135 gatos. Já em 2009 o número triplicou: 610 cachorros e 310 felinos ganharam um novo lar.

“É complicado. Quem vai querer adotar um cachorro com 12 anos ou um gato atropelado? Animais que chegam até aqui nesta situação acabam sendo eutanasiados também. Não temos como mantê-los aqui”, explica Gonçalves Neto.

Entre alimentação, medicamentos e captura de animais, o CCZ gasta, em média, R$ 8 mil por mês, despesa que aumenta no final do ano, época em que, segundo Gonçalves Neto, um maior número de cães e gatos é despejado na rua, submetidos à própria sorte.

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Para deputado, município está ‘na contramão’

Bauru caminha na contramão da solução para o problema de abandono e procriação desenfreada de animais no município. Esta é a visão do deputado estadual Feliciano Nahimy Filho (PV), responsável pela criação da lei número 12.916, em vigor desde 2008, que dispõe e dá providências sobre o controle da reprodução de cães e gatos.

O parlamentar crítica especialmente as ações do Centro de Controle de Zoonoses de Bauru em relação ao caso. “Minha assessoria esteve há cerca de 40 dias na cidade por conta de denúncias de matança de animais no CCZ. Fomos muito mal atendidos e posso afirmar que a cidade está muito atrasada no que diz respeito aos animais”, reclama.

Nahimy Filho defende que uma política de castração e identificação em massa dos animais é algo mais eficiente para combater a leishmaniose que a prática de eutanásia, atualmente adotada pelo município. “Uma cadela, no período de seis anos, pode ter 64 mil descendentes. É mais fácil sacrificar 64 mil cães ou castrar uma cadela?”, questiona.

De acordo com ele, outras cidades já avançam com maior rapidez para o que seria uma política pública ideal na defesa dos animais. Um exemplo é o município de Campinas, foco da atuação do deputado. Lá, segundo ele, cerca de 95% dos animais foram castrados e está em andamento a criação de uma delegacia específica para atender a casos de maus-tratos.