Londres - O aguardado casamento do príncipe William e Kate Middleton poderá contar com penetras raivosos. Em tempos de vacas magras, a ostentação da monarquia britânica se transforma em alvo fácil da insatisfação de parte da população num país em crise. A polícia já planeja intensificar a segurança para impedir que manifestações contra o governo estraguem a festa.
Mas a comemoração real está longe de ser vista apenas como mero esbanjar de dinheiro público. Para a maioria, é motivo de orgulho nacional, capaz de dar algum estímulo para o moral e a abalada economia do Reino Unido.
Os britânicos se preparam para apertar o cinto e encarar a realidade: dias mais difíceis virão à medida que o governo impõe o maior corte de gastos públicos desde a Grande Depressão.
A nova era de austeridade fiscal vem junto com o aumento do custo de vida trazido pela alta dos alimentos e dos combustíveis e provoca uma onda de descontentamento.
O impacto da estratégia para a redução da dívida pública do país estará espalhado por diversas esferas: saúde, educação, segurança, cultura e defesa. Os anos de bonança vão ficando para trás. A crise financeira global de 2008 foi especialmente grave no Reino Unido porque o país baseou o crescimento econômico das décadas anteriores no mercado financeiro.
Até agora, a economia não conseguiu engatar uma recuperação consistente e o desemprego é elevado, em 8%. Como resultado de todo esse processo doloroso, a dívida pública explodiu e chegou a 76% do Produto Interno Bruto, enquanto o déficit fiscal hoje representa 10% do PIB.
Há consenso de que o país precisa reduzir os gastos públicos. Mas, a polêmica está centrada na velocidade e no tamanho dos cortes. O atual governo de coalizão conservador do primeiro-ministro David Cameron decidiu fazer o ajuste imediatamente, com um facão bastante afiado: a economia será de 80 bilhões de libras (R$ 210 bilhões) em cinco anos, mais 30 bilhões de libras (R$ 50 bilhões) de aumento de impostos.
O objetivo alegado é evitar o agravamento do desequilíbrio das finanças e garantir a sustentabilidade para os próximos anos, pois o nível de endividamento é considerado insustentável.
Cameron assumiu no ano passado com a proposta de criar o que chama de "grande sociedade", um conceito nada claro para a população, mas que teoricamente passa pela maior participação dos cidadãos na administração e, consequentemente, pelo encolhimento do estado de bem-estar social.
A oposição trabalhista diz que a estratégia trará a ruína e fará o país cair novamente em recessão, pois os cortes são bem mais severos do que se imaginava
As novas medidas chegam num momento de alta do custo de vida. O avanço dos preços dos alimentos e do petróleo pesa diretamente sobre o bolso do consumidor - a inflação chegou a 4,4% em fevereiro, mais do que o dobro da meta perseguida pelo Banco da Inglaterra.