Bauru perdeu um dos seus principais artistas plásticos. Famoso por suas gravuras e telas de temas abstratos, Percy Coppieters faleceu ontem, aos 56 anos. Segundo informado por familiares, o artista sofreu um infarto por volta das 8h30 e não resistiu. Natural de Ourinhos, mas radicado em Bauru desde 1991, Percy será sepultado hoje, às 11h, no Cemitério da Saudade.
O artista, que já havia sofrido um infarto há sete anos, acordou ontem pela manhã com mal-estar e foi levado ao Hospital de Base. “Ele me ligou e fomos ao hospital. Chegando lá, ele até brincou com o médico, mas quando fomos fazer o eletrocardiograma, ele já começou a convulsionar. Ele teve uma primeira parada, os médicos até conseguiram reanimá-lo, mas depois ele não resistiu”, contou Valéria Vilaça, namorada de Percy.
A busca pelo novo como forma de redescobrir sua própria arte era um dos princípios que sempre nortearam o trabalho do artista, que levou suas obras até galerias francesas. Depois de dois anos de “jejum artístico”, dedicados à reflexão de seu trabalho, Percy retomou sua produção em 2009 e mantinha-se sempre em busca da sua reinvenção.
“Uma tela resume-se, para mim, em matéria e material, sendo que um você quantifica e o outro, qualifica. O que procuro é sempre tirar dos meus materiais o máximo possível de beleza com o mínimo de matéria. E para isso, às vezes, é necessário parar, não importa por quanto tempo, para você conseguir colocar tudo em rota outra vez”, afirmou em entrevista ao JC.
A irmã do artista, Estela Coppieters, disse ter sido a arte a grande paixão de Percy. “Ele era bem extrovertido, as ideias sempre fervendo, a pintura era a vida, a paixão dele. Trabalhar como artista plástico era o amor dele. Ele era um irmão muito especial, muito querido por todos, um menino grande para nós”, disse durante o velório, realizado ontem, que contou com a presença de familiares e amigos.
Essas são também as características da personalidade e habilidades do artista que deixarão saudade entre seus admiradores. “Representa a perda de um dos principais artistas da cidade, que teve uma participação importante em todos movimentos da área desde 1990. Das monotipias, uma de suas especialidades, ele era um dos mais representativos. Agora, fica esse vazio”, manifesta José Augusto Vinagre, ex-secretário municipal de Cultura.
Outra admiradora do trabalho de Percy é a também artista plástica Cris Jardim. “Não éramos amigos pessoais, mas tínhamos bastante contato por conta das exposições e vou admirar eternamente o trabalho dele, sempre muito ousado. Bauru perdeu um grande artista e pessoa, ele era muito batalhador”. Já o amigo Henrique Perazzi diz recordar com carinho das horas e mais horas que passava na companhia de Percy, conversando sobre a vida. “Me tornei amigo do Percy desde que ele chegou em Bauru. Essa é uma amizade que vai fazer muita falta”.
Outro antigo amigo do artista é Ignácio Loyola Brandão, de quem Percy foi vizinho nos tempos em que viveu em São Paulo. Recentemente, o escritor dedicou um texto ao amigo no site mafuadohpa.blogspot.com, mantido por Perazzi, onde comenta sua relação com o artista e sua obra. “O Percy é um deslocado, porque quer ser, sabe que os colocados são os caretas, os certinhos, os que sabem o que querem, os que planejam a vida, o futuro, tudo, os organizados. Os deslocados, os outsiders, são as grandes almas de nossa época, de todas as épocas”, escreveu.
Percy deixa três filhos Lucas, Gabriela e Laura, de duas uniões anteriores.
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Ele quis descobrir diferentes formas de fazer o mesmo
Com 45 anos dedicados à arte, Percy Coppieters era um artista que gostava de brincar com a pressão do tempo, desafiar-se e buscar, incessantemente, pelo novo, até mesmo a partir da observação de seus trabalhos mais antigos. “Gosto de olhar cinco telas em branco e saber que o meu tempo está exíguo. Nessas condições, você para e vai para cima das telas com um certo furor”, confessou em uma de suas últimas entrevistas ao JC.
Descobrir diferentes formas de “fazer o mesmo”, foi o que, por algumas vezes, fazia o artista passar um tempo longe dos pincéis. “Você precisa sempre refletir sobre qual o melhor caminho para o seu trabalho. Como artista contemporâneo, não acompanho tendências, apenas a minha própria. Precisava refletir, resgatar algumas coisas que gosto no meu trabalho, mas que já não fazia mais”, comentava.
Das paisagens ao figurativo, das marinhas aos abstratos, da tinta a óleo às texturas. A diversidade de temáticas, também como de técnicas, é uma das características do trabalho do artista. Uma de suas últimas apostas foi a digigrafia, técnica relativamente nova no campo das artes plásticas, que possibilita a criação de obras digitais, que podem ser impressas em tecido ou papel. “Essa possibilidade só vem aprimorar o trabalho do artista. E cada vez mais a tendência é popularizar o consumo da arte. É uma forma de atingir um público maior que, por sua vez, terá uma obra assinada pelo artista, por um preço mais acessível comparado à compra de um original”, comentou na época.
Percy começou sua carreira aos 19 anos, em 1973, quando ganhou seu primeiro prêmio em um salão oficial, no Paraná. O artista viveu em países como Espanha, França e Inglaterra e “Formas, Traços, Tons e Uma Visão do Concreto” foi sua última exposição realizada em Bauru, em junho do ano passado. Com ela, Percy tentava mostrar ao visitante todas as características que compunham o seu trabalho e as suas relações com todas as formas de arte.