Um trabalho de conclusão de curso da aluna Thalita Berdú Llevadot, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, constatou que uma boa parte dos jogadores de futebol amador desconhece sua real situação de saúde.
São atletas que pouco ou nada se exercitam durante a semana, mas quando chega o fim de semana querem correr os 90 minutos normais de uma partida de futebol. O estudo foi feito com atletas da cidade de Jaú e mostra que eles estão se expondo a um risco desnecessário ao não fazer exercícios regularmente com supervisão de um profissional habilitado, ao não procurar uma avaliação médica adequada e ao não evitar os fatores de risco que tornam a situação ainda mais delicada.
De acordo com o trabalho, dos 89 atletas estudados, 75% estavam acima do peso, 70% eram sedentários, 65% consumiam bebida alcoólica todos os dias e 10% eram tabagistas. Apenas 9% se declararam hipertensos, mas após avaliação posterior, concluiu-se que 63% deles apresentavam pressão arterial elevada, o que inspira cuidados para a prática de esportes de alta intensidade, como o futebol.
Os atletas foram divididos em cinco grupos. O primeiro, formado por pessoas que passaram a fazer exercícios regulares com supervisionamento profissional. O segundo grupo foi formado por atletas que passaram a fazer exercícios regulares por conta própria.
O terceiro grupo passou a tratar a hipertensão com medicamentos. O quarto grupo foi formado por atletas que reduziram ainda mais suas atividades físicas no decorrer da semana. Se faziam atividades dois dias, passaram a fazer em um só. E, finalmente, no quinto grupo foram incluídos atletas que não mudaram em nada a rotina.
Ao fim de quatro meses, todos foram reavaliados e concluiu-se que a turma do primeiro grupo reduziu significativamente a pressão arterial com os exercícios regulares supervisionados.
O grupo que passou a fazer exercícios por conta própria não melhorou nem piorou a pressão arterial. Quem fez o tratamento à base de remédios continuou com a pressão elevada por não seguir o tratamento de forma adequada ou porque o remédio não fez efeito.
Aqueles que diminuíram um dia de atividade física tiveram a pressão arterial aumentada, assim como o grupo que continuou com o mesmo estilo de vida. Durante a pesquisa, a aluna relata que um dos atletas que não mudou o estilo de vida morreu em decorrência de um infarto durante o jogo.
De acordo com a professora Sandra Lia do Amaral, que foi a orientadora do trabalho, o panorama retratado pela pesquisa é extremamente preocupante. Segundo ela, muitos dos atletas estudados apresentavam uma associação de pelo menos três fatores de risco para doenças cardiovasculares, que é a principal causa de morte no Brasil e no mundo.
Eles estão se expondo ao risco de um possível acidente vascular cerebral (AVC) ou de uma morte súbita”, alerta. Outro dado que causou espanto foi que 94% dos pesquisados pertencem às classes A e B. Trata-se de um público teoricamente bem informado e com condições de fazer um acompanhamento médico regular.
Segundo ela, além dos atletas, quem organiza os torneios e quem comanda as equipes amadoras também deveriam se preocupar com as condições dos atletas. Desta forma, poderia se evitar que uma atividade que tem como objetivo o lazer não se transforme em tragédia.
Procurar um médico e um profissional de educação física é sempre importante. É uma maneira de prevenir diversos problemas de saúde”, recomenda Sandra.
Foi o que fez o mecânico montador Elder Silva Neves. Desde os 12 anos ele tem o futebol com os amigos como algo sagrado. Por causa do histórico familiar de hipertensão, ele realiza um checkup todos os anos.
É um cuidado que ele não abre mão. É uma forma de praticar o esporte que mais gosta com responsabilidade. “Acho que até os 50 anos dá para continuar jogando sem nenhum problema”, comemora.