09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: José Abras Sobrinho

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

Vida feita sobre obras e alicerce familiar

José Abras Sobrinho é um mineiro com coração bauruense. Aos 76 anos de idade, e com a lucidez de menino, ele diz que estava em seu destino morar em Bauru. “Tudo conspirava, desde o meu trabalho, até o encontro com o grande amor de minha vida”.

Dividido entre as faculdade de medicina e engenharia, ele seguiu as orientações dos tios e se tornou engenheiro. Por 12 anos “seo” José foi gerente habitacional da Companhia de Habitação Popular de Bauru (Cohab). Através dele, cerca de 8 mil casas foram entregues à famílias da cidade e região. “ A Cohab fez um trabalho muito bonito. Ela atendia a necessidade habitacional do povo, verdadeiramente”, garante.

Aos 21 anos de idade, o engenheiro aposentado foi o diretor de sistema financeiro mais jovem do Brasil, quando então trabalhou na Companhia Urano de Capitalização, em São Paulo. Também atuou no campo, nas fazendas da família. Atualmente, desde o falecimento de sua esposa, sua dedicação está voltada às filhas. “Minha maior realização foi meu casamento e minhas filhas. A família é tudo, é vida, é educação”. Ele acredita que boa parte dos problemas sociais seriam solucionados ou evitados se a família brasileira fosse mais unida e valorizada.

A paixão e a curiosidade pela medicina, o amor por Bauru, a arte de ser pai e mãe de duas jovens, sem contar as realizações pessoais e profissionais, também fazem parte da entrevista que ele concedeu ao Jornal da Cidade. Confira os principais trechos.

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Jornal da Cidade - O que o trouxe a Bauru?

José Abras Sobrinho - É uma longa história. Acho que talvez fosse meu destino vir para Bauru. Quando criança, ainda nos anos de 1941, saía com minha família de Belo Horizonte para São Paulo, onde tomávamos o trem da Paulista para chegar a Bauru e seguir para Birigui. Fizemos isso várias vezes. Depois fui morar em São Paulo para estudar, foi lá que me tornei engenheiro. Em 1961, vim para a região de Bauru onde assumi, em Pirajuí, a direção da Usina Miranda, uma usina de açúcar que encerrou seu funcionamento em 1966. Depois disso, trabalhei no Rio de Janeiro com sobrinhos e irmãs. Nesse meio tempo, voltei a São Paulo e conheci uma moça que era funcionária do antigo Banco Noroeste. O nome dela era Sônia Galvão de Souza, nos conhecemos e nos casamos. Como a família dela era daqui, resolvi morar na cidade. Tudo me chamava a Bauru, desde as viagens, o trabalho em Pirajuí e conhecendo em São Paulo, cidade com mais de 12 milhões de habitantes, uma moça bauruense.

JC - Exerceu a engenharia assim que chegou na cidade?

José - Quando cheguei, trabalhei em uma empresa chamada Casa Maior Construções e fui engenheiro de algumas fundações de torres da Embratel. Lá, conheci o gerente da Embratel que me convidou para frequentar a Assenag, uma associação de engenheiros onde conheci vários colegas e fui convidado para participar da administração. Fiquei conhecido no meio e recebi convite para trabalhar na Companhia de Habitação (Cohab) de Bauru.

JC - Qual era sua função na Cohab?

José - Fui gerente habitacional por 12 anos. Participei da entrega de vários conjuntos como o Bauru 21, Bauru 22...Entreguei o conjunto de Botucatu e Bebedouro. Ao todo, foram cerca de 8 mil casas construídas com minha participação. Sempre estive presente nas entregas e visitas. Representava a diretoria e acho que foi um trabalho muito bonito. Ela atendia a necessidade habitacional do povo. Depois que a Cohab deixou de participar do sistema nacional de habitação, a coisa foi entregue à Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), que produziu casas em alguns setores, principalmente na Capital. Já no interior, isso não atende a necessidade da população. A Cohab Bauru fazia pesquisas de mercado e as necessidades de cada região. Foi uma pena o que aconteceu com as Cohabs em geral.

JC - Aposentou-se na Cohab?

José - Sim. Depois da aposentadoria, passei três anos no Estado do Rio de Janeiro ajudando meus sobrinhos e minhas irmãs com a fazenda de gado de leite. Acordava às 4h00 para acompanhar a tiragem de leite. Fazia por prazer e para ajudar meu sobrinho que ficou sendo o único homem da família depois que meus cunhados morreram. Porém, a idade já estava me impedindo de realizar o trabalho da fazenda. Então voltei a Bauru.

JC - Já havia trabalhado no campo antes?

José - Quando trabalhava na Usina Miranda, eu já tinha mexido com gado. Era diretor de algumas empresas proprietárias de fazendas grandes na região e o patrimônio pertencia aos meus tios. Fui diretor de oito organizações do grupo. Aos 21 anos de idade, eu era diretor tesoureiro de uma companhia de capitalização em São Paulo, a Companhia Urano de Capitalização, o diretor de sistema financeiro mais jovem do Brasil, na época.

JC - E por que a faculdade de engenharia?

José - Porque se escolhesse medicina, não teria tempo para me dedicar à profissão. Já engenharia, sim. Acho que medicina é um apostolado. Um médico precisa se dedicar 24 horas por dia. Como engenheiro, eu estava mais ligado à administração de empresas e à parte técnica, coisas que eu já fazia. Meu avó queria que eu fizesse medicina, mas meus tios acharam mais importante eu ser engenheiro para trabalhar com eles.

JC - Faria tudo outra vez?

José - Olha, eu gosto de engenharia, mas seria médico. Sempre gostei da medicina e me interesso por ela até hoje. Até tenho boas histórias sobre isso. Sempre cuidei da saúde de minhas filhas porque minha esposa tinha problemas de saúde. Então, eu acordava à noite, levava à médica e sempre prestava atenção na profissional. Eu telefonava para a médica, dizia os sintomas das meninas e perguntava se podia dar tal remédio. E, na maioria das vezes, eu acertava. Com o tempo, minha família me telefona para perguntar o que era bom para tal coisa. Tornei-me um médico sem ser formado (risos). Um belo dia estava no consultório dessa médica da família e disse a ela que a injeção de antibiótico que ela receitava doía muito e se ela não podia receitar uma mais leve. Ela pegou livro vermelho e disse: “Neste livro estão as doenças e os remédios, você não precisa mais vir aqui, pode fazer consultas”. Somos amigos até hoje, mas gosto mesmo da medicina.

JC - Bauru está no coração?

José - Amo Bauru. Foi aqui que criei minhas filhas, onde elas estudaram e têm suas vidas. Também fiz um ambiente de amizade maravilhoso aqui. Frequentei o Rotary, a Maçonaria...Sempre fui ativo na cidade. Precisei me afastar desses grupos quando minha esposa faleceu porque minhas obrigações aumentaram. Quando Sônia morreu, Jenny tinha 19 anos e Carla 14 anos. Não podia sair e deixá-las sozinhas em casa. Estavam começando a namorar e precisava acompanhar, cuidar e orientar.

JC - Como foi ser pai e mãe de duas adolescentes?

José - Graças a Deus minhas filhas foram bem orientadas pela mãe e não me deram nenhum trabalho. Participavam e me ajudavam nos problemas da casa. Até hoje elas me ajudam em tudo.

JC - Qual foi sua maior realização na vida?

José - Meu casamento e minhas filhas. A família é a importância primordial na vida de qualquer ser humano. Infelizmente, hoje estão deixando de dar o devido valor à família. Ela é tudo, é vida, é educação. Se a união familiar tivesse o valor necessário, não veríamos tantos problemas, tantas drogas e crimes. O brasileiro deveria meditar e pensar mais a respeito e reconstruir as famílias.

JC - No perfil, o senhor dá nota 10 a dois políticos. Já participou de alguma forma desse universo?

José - Nos anos 60 eu fui convidado a ser candidato a deputado federal. Na época, trabalhava com um tio que era deputado federal. Houve uma reunião de vários deputados estaduais da região para tentar derrubar meu tio e me convidaram para lançar minha candidatura. Não aceitei porque não podia trair minha família.

JC - Qual é seu desejo atual?

José - É ver minhas filhas casadas, com bons empregos e felizes. Meu sonho é a felicidade delas. E, se Deus me der essa oportunidade, ver os netos.

JC - É um homem religioso?

José - Meu pai era ortodoxo, muito religioso e nos orientou assim. Não sou nenhum beato, mas todo domingo vou à missa ou acompanho pela TV, faço minhas orações... Agora na Páscoa, fiz minha confissão para a comunhão. Desde criança eu cumpro com minhas obrigações religiosas.

JC - Como é sua rotina hoje?

José - Gosto de acordar bem cedo, ler o Jornal da Cidade, cuidar de minhas filhas e dos afazeres da casa com a senhora que trabalha conosco, ver TV, fazer algumas compras...

JC - O senhor é um homem realizado?

José - Sim, porque fiz um pouco de tudo e procurei fazer bem. Apenas não me realizei economicamente porque, quando podia ficar rico, não o fiz por questão de princípios. Às vezes penso: Será que fui burro ou fui honesto? Mas ao menos durmo com a consciência tranquila.

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Perfil

Nome: José Abras Sobrinho

Idade: 76 anos

Local de Nascimento: Belo Horizonte/ MG

Signo: Libra

Esposa: Sônia (falecida)

Filhos: Jenny e Carla

Hobby: Cuidar das filhas

Livro de cabeceira: Bíblia

Filme preferido: Romance

Estilo musical predileto: Música Clássica

Time: Corinthians e Atlético Mineiro

Para quem dá nota 10: Rodrigo Agostinho e Pedro Tobias

Para quem dá nota 0: Aos vereadores que pensam só em política e esquecem de Bauru

E-mail: cajen@zipmail.com.br