08 de julho de 2026
Articulistas

Jogo de cena

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Num conto de Julio Cortázar, o personagem sentado em uma poltrona verde lê uma história na qual um homem prepara-se para apunhalar um indivíduo que lê uma narrativa em que será assassinado. O autor produz, assim, um movimento entre diferentes níveis de ficção, fenômeno associado por Cortázar ao princípio de vasos comunicantes. O texto do conto comunicando-se com outros textos. Este processo é chamado de “metaficção”, termo proposto por William H. Gass. Metá em grego: “depois de”, “além de”. Outro exemplo: em Dom Quixote de la Mancha o protagonista interrompe o espetáculo de marionetes e investe contra os bonecos acreditando combater os mouros. Na ficção de Cervantes a realidade do seu personagem investe contra bonecos ficcionais. No filme Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcok o protagonista é um fotógrafo profissional imobilizado no seu apartamento por uma fratura na perna engessada. A câmera começa focalizando uma fotografia na parede que nos mostra o instantâneo de um acidente numa corrida de carros. Enquanto o bólido capota uma das rodas se solta e vem na direção de quem olha a foto. Está explicado porque o fotógrafo quebrou a perna. O paciente, para passar o tempo dedica-se a espionar os vizinhos dos apartamentos em frente, com a teleobjetiva da sua câmera. Apropria-se das vidas alheias e o leitor-telespectador se posta atrás do protagonista, atuando como voyeur de outro voyeur. O filme parece elaborar uma ética do olhar ao propor ao espectador o desafio de ver muito além dos limites alcançados pelos olhos.

Tudo o que eu escrevi até agora não foi criado por mim. Está em “O livro da metaficção”, de Gustavo Bernardo (Tinta Negra). Recorri a este autor para fazer uma autorreflexão depois que passei a desconfiar da impossibilidade de se concluir o que é real neste país. Na minha concepção burguesa - pobre de mim -, pensei dominar por completo os mecanismos de apropriação e reprodução do real. Ledo em engano. Dia destes assistia pela televisão as cenas da tragédia dos soterramentos nos morros fluminenses, já com aquela sensação do já-visto. De repente começa a chover forte, de verdade, sobre o meu telhado. Senti uma coisa ruim, como se a qualquer momento fosse também acontecer comigo algo parecido com aquilo que via na telinha. Imaginei o muro do vizinho sendo derrubado pela enxurrada e as águas barrentas invadindo o meu ambiente doméstico. Sou informado que a “tragédia anunciada” de fato ocorreu porque as verbas destinadas à contenção das encostas foram desviadas para a Bahia, pelo então ministro baiano Geddel Vieira Lima. Lula entra em cena no noticiário e defende o “aloprado” companheiro. Diz que estão fazendo do desastre fluminense um “joguinho político pequeno”. A morte de 140 pessoas e o drama dos desabrigados viraram querela política. No bloco seguinte do noticiário, Lula volta reclamando das multas que levou do Tribunal Superior Eleitoral por fazer propaganda política da sua candidata, antes do tempo. No seu improviso pede leis que permitam que ele desobedeça as leis que ele, como presidente é quem as promulga e lhes dá eficácia. Num país de tanta corrupção nos meios políticos, muitos daqueles que deveriam estar presos não querem que os presos votem. Os deputados (outra notícia) acharam um jeito de evitar que vá a plenário, para discussão, o projeto ficha limpa proposto por 1,5 milhão de eleitores, mediante subscrições nas ruas. O projeto pretende proibir que se candidatem políticos que respondem a processos e foram condenados já em primeira instância. A matéria terá que ser examinada pela Comissão de Justiça, da qual participa um deputado que “se lixa para a opinião pública”. A comissão é uma espécie de gaveta oficial. Para demonstrar que nem tudo é inércia no Congresso, corremos o risco da aprovação da “Lei Maluf”, ação em causa própria que pretende coibir a ação do Ministério Público. O seja, mandar para a cadeia o agente do Ministério Público que não apresentar a prova provada contra a autoridade denunciada. Cadê o dinheiro do Maluf no exterior? Quem disser que ele tem e não apresentar as notas contadas está preso.

Posso estar dizendo bobagem, mas é a isto que chamo de “metaficção nacional”, a fuga à mimese (recriação da realidade), à representação do real nos moldes da estética romântico-realista na qual fui criado. Sinto-me naquele quadro de René Magritte (A perspicácia) no qual o pintor pinta a si mesmo olhando para um ovo e cria um pássaro em outra tela, dentro da tela em que retrata. Por sua vez a tela é fotografada, multiplicando o processo metaficcional. No caso brasileiro, seria como se o país tivesse sido colocado entre parênteses. A própria realidade do cidadão fica suspensa pela dúvida: será que essa realidade não passa de desdobramento, espelho, refração, simulacro, ilusão? É o fim do fim.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC