10 de julho de 2026
Articulistas

Queremos ou não, somos o problema

Paulo César Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

É muito pouco provável que tenhamos sucesso em minimizar as tragédias causadas pelo clima porque, até aqui, enxergamos a Terra como mera bola de rocha pronta para satisfazer nossas necessidades. Agimos como proprietários; achamos que ela existe unicamente para nosso conforto e benefício.

A mera redução da queima de combustíveis fósseis e da destruição de nossas florestas não representa resposta suficiente para deter o aquecimento, principalmente das águas do mar, pois a mudança climática acontece mais rápido do que somos capazes de reagir a ela.

Mas não se trata somente da poluição ou da perda da biodiversidade, a causa central dessas tragédias é o excesso de pessoas. Sete bilhões de pessoas, almejando as comodidades do primeiro mundo, são mais do que o planeta consegue suportar.

Não seria nada simples definir a capacidade de carga da Terra. Dependeria de como as pessoas vivem, de como cultivam o solo, do impacto de suas indústrias. Além dessas propriedades humanas, é preciso considerar que a própria Terra não é uma constante: o planeta tem suas características e seus próprios ciclos.

A respiração é uma poderosa fonte de dióxido de carbono: as exalações da respiração e outras emissões gasosas de quase sete bilhões de pessoas e dos animais que criamos para nossa sobrevivência são responsáveis por 23% de todas as emissões de gases de efeito estufa. Se acrescentarmos as emissões oriundas das atividades de cultivar, colher, vender e servir alimentos, chega-se quase à metade de todas as emissões de gases que desandam nosso clima.

O aumento populacional obriga a agricultura a se expandir, os campos estão cheios de monoculturas, as florestas são industriais com eucaliptos semeados em fileiras disciplinadas, bem fechadas para maximizar a quantidade de madeira. O aumento populacional faz expandir nossas cidades e o mundo natural que sobra fora delas e fora das fazendas, já não consegue mais regular a química e o clima da Terra.

Queremos ou não, somos o problema.

O Sol despeja sobre a Terra uma quantidade fantástica de energia: em média 1,35 quilowatt para cada metro quadrado onde ele brilha diretamente. A maior parte dessa energia é absorvida como calor latente, que é aquele calor que não provoca um aumento de temperatura, mas uma mudança de fase ou de estado físico: esse calor é o responsável pela evaporação das águas e pelo derretimento do gelo, principalmente, dos pólos. Em alguns poucos anos, o Sol não terá mais a extenuante tarefa de derreter o gelo, que reflete 80% da sua luz e todo esse calor, canalizado agora na forma de calor sensível, irá elevar, ainda mais, a temperatura dos oceanos e dos continentes.

Um clima mais quente, com águas mais quentes, atrai mais chuvas e ela produz inundações em nossas cidades impermeabilizadas e no campo, vai evaporar com tal rapidez que será bem menos útil as plantas.

Outra observação importante é que o aumento da temperatura, além de aquecer o mar, torná-lo mais inóspito e provocar sua expansão, faz o mesmo com o ar: ele se expande à medida que se aquece deixando nossa atmosfera mais turbulenta. Estamos, portanto, indo ladeira abaixo, numa descida acidentada que fica cada vez mais escarpada, em direção a um mundo mais quente.

Não creio que os perigos mais graves que enfrentaremos sejam provenientes da mudança climática em si, mas indiretamente da fome, da escassez de água potável e da disputa por espaços e recursos naturais. Neste período inter-glacial, desfrutamos de doze mil anos de paz climática, mas poderemos, em decorrência da superpopulação e das alterações provocadas pelo aquecimento, nos defrontarmos com uma guerra climática que deixará os poucos sobreviventes com um padrão de vida comparável ao da Idade da Pedra.

Somos o que somos e pouco poderia ser feito para evitar as alterações adversas do clima. Não devemos nos culpar por isso, temos sim que, por meio da adaptação, nos preparar para o fracasso.

O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da faculdade de engenharia da Unesp - câmpus de Bauru