09 de julho de 2026
Bairros

Bauru chega perto de 200 mil veículos

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

O que já era perceptível a olhos vistos para qualquer motorista de Bauru se tornou estatística: a frota da cidade cresceu 7,5% no último ano e fechou o mês de março com 195.938 veículos, segundo dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) de São Paulo. Se o ritmo de crescimento se mantiver nos próximos meses, a estimativa é de que a marca dos 200 mil automóveis – entre eles motocicletas, carros, ônibus, caminhões e caminhonetes - seja ultrapassada até meados de julho de 2010.

Com um emplacamento médio de 41 veículos por dia entre abril de 2009 e março deste ano, Bauru ganhou 13.699 veículos nos últimos 11 meses e superou a proporção de um veículo para cada dois habitantes. Como resultado diante de uma malha viária estagnada, o trânsito se torna cada dia mais lento, desafiando a paciência dos motoristas e a capacidade de resolutividade do poder público.

A fonoaudióloga Adriana Pessutto Montilha, 25 anos, por exemplo, enfrenta diariamente uma situação que beira o absurdo. Para percorrer pouco mais de seis quilômetros no trajeto entre a sua casa, na Vila Pacífico e seu local de trabalho, na alameda Octávio Pinheiro Brisolla, ela demora cerca de 20 minutos em horários considerados normais.

Se nessas ocasiões a velocidade média desenvolvida fica na casa dos 18 quilômetros por hora, em hora de ‘rush’, principalmente por volta das 18h, não ultrapassa os dez quilômetros por hora. “Como sei que o trânsito para toda hora, geralmente saio de casa de cara lavada e aproveito para me maquiar no caminho até o trabalho. No semáforo vermelho, dá tempo de fazer tudo: passar pó, lápis, rímel, batom, blush e, às vezes, até a sombra”, brinca, bem humorada.

A receita para economizar alguns minutos em meio ao tráfego que corrói o tempo das pessoas vem sendo seguida por muita gente, inclusive homens, conforme já observou a cabeleireira Regina Lúcia de Oliveira, 38 anos. “Eu sempre dou uma retocada no batonzinho, uma ajeitada no cabelo, mas ainda na semana passada vi um homem penteando o cabelo enquanto esperava o sinal abrir. Sem contar a quantidade de motoristas que agilizam seus compromissos por celular. Embora seja proibido, também é bem comum”, aponta ela.

Soluções paliativas

O ‘boom’ da frota de veículos nos últimos anos está ligado, basicamente, a dois fatores. Um deles é a estabilidade da economia, com maior oferta de emprego, o que possibilitou à população realizar planejamentos financeiros de longo prazo. O outro é a facilidade de acesso ao crédito que possibilitou às pessoas que até então usavam ônibus terem o próprio carro ou moto. Com a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), entre dezembro de 2008 e março de 2010, as vendas tiveram um novo impulso a atingiram patamares recordes.

Para dar conta deste crescimento que não tem data para cessar, no entanto, todos os investimentos realizados pelo poder público parecem ser insuficientes. Como o próprio espaço disponível para a implementação de melhorias viárias está esgotado, restam apenas a aplicação de soluções paliativas que resolvem problemas pontuais por curtos períodos, até que novamente a frota se expanda.

Internamente, na Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), já foi iniciada a discussão sobre a mudança de abordagem a respeito do trânsito, voltada para investimentos que privilegiem sistemas alternativos de mobilidade como bicicletas e ônibus coletivos. Procurado pela reportagem, no entanto, o atual presidente do órgão, Nico Mondelli, não pode conceder entrevista ontem.

Mudança necessária

Qualquer das obras realizadas pela prefeitura para melhorar do trânsito de Bauru - como a remodelação das avenidas Nações Unidas e Comendador José da Silva Martha, por exemplo - poderão se esgotar rapidamente caso a frota de veículos em Bauru continuar crescendo no mesmo ritmo dos últimos anos. Já é consenso entre especialistas na área que somente a adoção de uma postura administrativa que privilegie o transporte coletivo ou não motorizado será capaz de oferecer soluções para o trânsito no longo prazo.

No ano passado, a Emdurb já apontava para a necessidade de modificar a discussão sobre o trânsito da cidade e investir em infra-estrutura e ações que privilegiassem o uso de bicicletas, ônibus coletivos e a circulação de pessoas a pé. Mesmo sem apontar prazo para a mudança de postura, a empresa afirmou ser possível inverter o incentivo à locomoção individual e seguir exemplos bem-sucedidos de sistemas alternativos de mobilidade.

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Motorista não costuma usar as vias alternativas

O trânsito de Bauru ficou tão lento em qualquer hora do dia também porque as vias de grande fluxo de veículos continuam a ser a primeira opção de trajeto para a esmagadora maioria dos motoristas, o que, literalmente, faz com que o tráfego fique cada vez mais carregado. Segundo o tenente Roberto Trujillo Júnior, comandante do Pelotão de Trânsito de Bauru, são poucas as pessoas que possuem o hábito de buscar caminhos alternativos, em ruas secundárias, para se deslocar no Centro expandido da cidade.

“O bauruense só muda sua rota se ele se depara com o trânsito muito lento. Mas não tem a cultura de se planejar antecipadamente para fazer um caminho menos movimentado assim que sai de casa. Se tivesse, certamente ele chegaria ao seu destino mais rapidamente, mesmo se esse segundo trajeto for mais longo”, ensina o comandante.

Ele lembra que, além de evitar a lentidão no trânsito, o motorista que evita os locais por onde passa grande quantidade de veículos também tem menos chance de se envolver em acidentes. Conforme o JC tem divulgado amplamente, o crescimento da frota está intimamente associado a um aumento significativo no número de mortes em Bauru.

Para se ter uma ideia, em 2009 o trânsito matou 14% mais que os assassinatos registrados na cidade. Enquanto 32 pessoas morreram em decorrência de acidentes entre janeiro e novembro do ano passado, o número de vítimas de homicídios no mesmo período foi de 28 no município.