Um trajeto que antes levada 20 minutos, hoje toma o dobro do tempo. Uma avenida construída com três faixas já não suporta a quantidade de carros que circulam pela cidade. Apesar de não chegar perto da situação caótica que se vê nas grandes cidades, o trânsito de Bauru já afeta o comportamento das pessoas. A irritação causada por um congestionamento, aliada ao estresse acumulado no dia a dia, já periga transformar as ruas da cidade em barris de pólvora. Para a psicóloga Raquel Almquist, doutora em psicologia do trânsito, moradores de municípios médios demoram a aceitar que o trânsito está influenciando negativamente suas vidas.
Já faz tempo que o trânsito da cidade deixou de ser cenário de ações de gentileza, mas ultimamente a violência tem sido mais notória. Na madrugada de anteontem, uma briga de trânsito em Bauru quase termina em tragédia, quando um dos envolvidos sacou uma arma e atingiu de raspão duas pessoas.
Mesmo que situações extremas como essa sejam raras, é comum ver bate-bocas, pessoas levantando o dedo médio, buzinando e xingando pelas ruas de Bauru.
Impacto
Raquel, que também faz parte do departamento de psicologia da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), explica que os moradores de cidades médias, como Bauru, Ribeirão Preto, entre outras, demoram para aceitar o impacto que o trânsito gera em suas vidas. “As pessoas ainda estão com a ideia de que cidades do Interior estão calmas”, avalia. “É uma falsa sensação de que não está acontecendo”, diz a especialista. “Mas os congestionamentos acontecem. Pequenos ou não, influenciam”, destaca.
Ela avalia que o processo começa quando o trânsito passa a provocar mudanças na rotina da pessoa. “Os pequenos atrasos, os congestionamentos. O que se fazia em 15 minutos, leva meia hora. E isso vai gerando uma irritação constante”, observa. Aliada ao estresse, essa exposição constante a uma situação irritante, uma hora leva a alguma atitude explosiva, observa a psicóloga.
E por que isso ocorre com maior frequência no trânsito? De acordo com a especialista, no carro, os condutores se sentem “armados”. “É uma falsa sensação de segurança, de força. A pessoa está dentro de uma armadura, que é o carro, mais protegida de quem está lá fora”, observa Raquel. “Você está irritado, estressado e leva uma fechada. O que você faz? Dá uma buzinada para o cara, que possivelmente está tão irritado e estressado quanto você. Duas pessoas se encontram em uma situação limite e acabam explodindo”, avalia.
O tenente Roberto Trujillo Júnior, comandante do Pelotão de Trânsito da Polícia Militar (PM) em Bauru, avalia que o problema não é exclusividade dos bauruenses. “É uma questão cultural do brasileiro. Ele perde a esportiva. Mesmo estando errado, sempre se coloca numa situação como sendo verdade. O brasileiro não tem cultura de trânsito”, destaca.
Porém, ele avalia que situações extremas como a de anteontem tendem a diminuir. “Discussões sempre vão acontecer. Mas chegar a sacar uma arma, esse tipo de situação deve se tornar coisa rara. A lei está cada vez mais rígida e o porte de armas é muito restrito”, observa o comandante.