09 de julho de 2026
Geral

De Bauru ao Amapá pelo subterrâneo

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

Se todos os canos que estão enterrados no chão de Bauru fossem enfileirados, daria para construir uma ligação subterrânea entre a cidade e Macapá, Capital do Amapá, no extremo norte do País. São aproximadamente 3.100 quilômetros de tubos dos mais variados tipos, diâmetros e materiais.

É um labirinto tão complexo como antigo, que serve para levar água até as residências, comércio e indústrias e o esgoto produzido nesses lugares para (infelizmente) o rio. De acordo com o Departamento de Água e Esgoto (DAE), que gerencia essa parafernália invisível, são cerca de 1.590 quilômetros de rede de água e um pouco menos que isso utilizado pela rede de esgoto.

Boa parte dos canos que estão sob os pés dos bauruenses, adotivos ou nativos, data do início do século. O abastecimento começou a ser feito em 1912, após a entrada em operação do primeiro reservatório da cidade. Isso aconteceu um ano depois da chegada da energia elétrica a Bauru.

Parte desse sistema permanece até hoje. As ligações de água mais antigas são as do Centro da cidade e as da região oeste, onde estão os bairros Vila Falcão e Independência. Por conta da idade avançada, a tubulação está bastante deteriorada em alguns pontos, o que provoca incessantes vazamentos em todo o sistema, como os ocorridos na semana retrasada.

De acordo com o DAE, são registrados, em média, cerca de 100 vazamentos de água todos os dias. A estimativa é de que a cidade perde aproximadamente 40% de toda água que entra no sistema de abastecimento.

Boa parte desses vazamentos não é nem notada. A água que escapa do encanamento fica apenas no mundo subterrâneo e não chega à superfície. Quando isso ocorre (da água subir) é porque a quantidade desperdiçada é tanta que a terra não é mais capaz de absorvê-la.

Os sistemas de água e esgoto de Bauru formam uma rede tão intrincada de canos debaixo da terra que o presidente do DAE, Rafael de Almeida Ribeiro, chega a compará-los com as veias do corpo humano. Na concepção dele, a Estação de Tratamento de Água (ETA) seria o coração do sistema, as adutoras seriam as artérias e os canos menores, as veias.

E assim como ocorre com o corpo humano, com o tempo a circulação começa a enfrentar problemas. Alguns simples, outros mais graves. Segundo Rafael, as adutoras da cidade são bem antigas. A que passa debaixo do canteiro central da avenida Comendador José da Silva Martha, por exemplo, é feita de fibrocimento (cimento reforçado com fibras de amianto). Trata-se de um tipo de material que não é mais produzido.

“É coisa muito antiga. Dá até receio de mexer. A hora que começar a rachar e quebrar, é uma coronária que vai parar. Não vai chegar água no reservatório da Praça Portugal”, alerta.

A outra adutora, que segue em direção à Vila Falcão, rompeu há pouco mais de uma semana e deixou 140 mil sem água. Para fazer o conserto, as bombas tiveram de ser desligadas. Quando elas entraram novamente em funcionamento, a pressão provocada pela água causou rompimentos menores em outros pontos. Para Rafael, esse é um indicativo de que a validade do material já expirou ou está expirando.

Trocar toda a tubulação antiga por uma nova é algo necessário, porém, demandaria muitos recursos e compreensão dos moradores. “A substituição de todo material antigo é algo a longo prazo e que causará transtorno”, avisa o presidente do DAE.

Substituir os quatro quilômetros de adutora que sai da ETA e vai até o reservatório da Praça Portugal poderia ser algo um tanto complicado. Isso porque a adutora em funcionamento passa sob o canteiro central da avenida Comendador José da Silva Martha, uma das mais movimentadas da cidade.

Construir uma outra, ao lado desta, significa interditar parte da avenida para a circulação e operação de máquinas pesadas.