08 de julho de 2026
Ser

Amor incondicional: Mãe: gente como a gente

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 5 min

O amor delas é único, incondicional. Em razão desse sentimento que chega a ser incompreensível, elas abrem mão de seus desejos, seus sonhos e, por vezes, de si mesmas: tudo por um filho. O que faz do “colo de mãe” um dos melhores lugares do mundo, onde se encontra refúgio, conforto, respostas. Devem ser por essas e outras razões que fica difícil acreditar na “humanidade” das mães e que para elas também existam limitações. Sim, porque por mais super-heroínas que elas possam ser, toda mãe tem a sua kriptonita.

É o que mostra Marilene Krom. Confira a entrevista abaixo, onde a psicóloga aborda esses “mitos”, mostra como evitar que dedicação transforme-se em anulação e como fazer desse relacionamento o mais saudável possível, para ambos: mães e filhos.

Jornal da Cidade – É possível definir o que é ser mãe?

Marilene Krom – Apesar do extinto natural da preservação da espécie, o que é ser mãe resulta de uma construção histórica, cultural e até pessoal, determinada pela própria história da humanidade diante da questão de como foi sendo modificado o sentido de família e a importância da criança. A evolução do pensamento humano e o ganho no expressar a sua afetividade são coisas que ampliaram a concepção do que é ser mãe. Hoje ela é mais abrangente, a mãe se preocupa com tudo: desde os cuidados básicos aos relacionamentos amorosos e a profissão dos filhos.

JC – Não foi assim desde sempre?

Marilene – Antigamente, nos séculos 16 e 17, as pessoas tinham um grande número de filhos e eles morriam muito. Até aos cinco anos de idade, por exemplo, não se dava muita importância para as crianças, as pessoas não investiam muito na relação afetiva, porque não sabiam se aquele ser ia sobreviver. O surgimento do papel dos educadores, da instituição escola, os ganhos na saúde preservando as crianças das doenças da infância, entre outros fatores vão contribuindo com a valorização da criança, que deixa de ser um acontecimento da vida para tornar-se um projeto dos pais. E nesse contexto, a mulher ganha a dimensão da grande mãe, daquela que pode tudo; aquela que abre mão de tudo pelos filhos e se responsabiliza pelo sucesso deles.

JC – É isso que faz do “colo de mãe” tão confortante?

Marilene - O cuidado está no cerne da concepção de mãe. Sabe-se hoje o quanto é importante ser amado para se desenvolver a capacidade de amar, e o quanto as primeiras experiências afetivas são importantes. É uma delícia um colo de mãe, porque ela ama e esse amor tem uma dimensão muito grande, um amor incondicional, diferente dos outros amores, que são condicionais a troca, por exemplo. O que você quer é ver o filho feliz, bem, realizado. E mesmo quando crescemos, em muitas situações, o contar com o apoio e muitas vezes com o colo materno é importante, pois diante das agruras da vida se tem onde ancorar e se refazer para continuar.

JC – Esse amor único é a razão de, por muitas vezes, esquecermos da “humanidade” das mães?

Marilene – Não somos pessoas perfeitas, ninguém é, nem mesmo as mães. Nas situações difíceis, quando a mãe se sente culpada pelo filho fazer escolhas penosas, por exemplo, as vezes as mães se perguntam onde erraram. Mas o importante é termos feito o que podíamos e considerávamos o melhor e compreender que também somos seres humanos com limitações. Fazemos tudo pelo filho, mas esse tudo tem que ir até o ponto de nossa humanidade. A mãe se culpa muito, mas ela tem que compreender que fez tudo que podia fazer naquele momento, naquela determinada situação.

JC – Quando a dedicação, de natural, torna-se excessiva?

Marilene – A partir do século 20, a mãe começa a ter o que chamamos de “culpa materna”. Todo o movimento de liberação feminina, onde a mulher conquista seu espaço, encara a vida profissional e faz com que a mulher saia de casa é um processo muito complicado para elas, que continuam acumulando tarefas e se responsabilizando, de maneira ainda mais intensa, pelo bem-estar do filho. Tem ainda outras questões como o fácil acesso às drogas e a violência que intensificam a preocupação com os filhos. O que você precisa é estar atento ao momento que o filho está vivendo. Em cada fase, seu papel não deixa de ser mãe, mas sua função tem que ir mudando. Você não precisa estar de plantão para a hora que o filho precisar. Você tem a sua vida, suas necessidades, você tem suas expectativas e se você não se cuidar como pessoa, não vai ser feliz.

JC – Como encontrar o equilíbrio?

Marilene - Quando os filhos saem de casa, por exemplo, eles não precisam mais de tanta proteção, eles precisam da sua afetividade. O que é importante é o predomínio da função afetiva, a qualidade desse vínculo afetivo que você tem com seu filho. Ele tem que saber que ele é amado por você e que ele pode contar com você. As vezes é necessário você se afastar um pouco para deixar que eles escolham. Você deve sempre acompanhar a caminhada do seu filho, mas de diferentes maneiras: primeiro você o leva pelas duas mãos; depois é bom que você passa a se posicionar atrás dele, atenta para oferecer apoio na hora em que ele precisar.

JC – O que é mais importante para essa relação manter-se sempre saudável?

Marilene – O vínculo. Mesmo se o filho estiver longe, você liga, ele sempre liga, alimentando esse relacionamento. E a mãe mulher não deve se esquecer da sua condição de ser, manter a sua qualidade de vida e a sua felicidade, nada agrada mais quem nos ama do que nos ver bem. Assim também são os nossos filhos e este é o cerne do amor, querer o outro feliz e cuidar deste vinculo afetivo como uma coisa viva.

Marilene Krom é doutora em psicologia clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), psicoterapeuta e professora universitária. É autora dos livros “Leitura e Diferenciação do Mito: Histórias Familiares de Adolescentes com Problemas” e “Família e Mito: Prevenção e Terapia”, ambos publicados pela Summus.