09 de julho de 2026
Ser

Realização pessoal: Mãe: alegrias x desafios

Giselle Hilário
| Tempo de leitura: 3 min

O conflito de ser mãe no século 21 vai muito além das fraldas e dos dentinhos nascendo, noites mal-dormidas ou o melhor período para voltar a trabalhar fora. A mulher moderna vive hoje um descompasso. Apesar de ter dado passos importantes rumo à sua independência social e financeira, livrando-se do rótulo de “sexo frágil”, em muitos casos – e casas – ainda briga contra o estereótipo do real significado de ser mãe.

Hoje, além de ser mãe, as que escolheram ir para o mercado de trabalho precisam ser profissionais dedicadas. Em muitas empresas, driblar as facilidades da solteirice e as que optaram por não ter filhos. As que escolheram ficar em casa para cuidar dos filhos e do marido em tempo integral têm uma outra batalha: contra o preconceito. São poucas as pessoas que entendem que a mulher tem, sim, direito de escolher ficar em casa.

A psicóloga Kimy Otsuka Stasevskas, em sua dissertação de mestrado “Ser mãe: narrativas de hoje”, defendida na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, avalia que no mundo moderno o conceito da família ideal - pai, mãe e filhos - continua o mesmo de séculos atrás, onde a mãe representa uma figura pura, única responsável pela educação e formação dos filhos e sempre presente. “Mas a mulher de hoje sai para trabalhar, muitas vezes é a chefe da família e por isso carrega consigo uma carga muito mais pesada, uma realidade que não se encaixa nesses padrões antigos”, enfatiza Kimy Stasevskas.

Para sua dissertação, a psicóloga entrevistou mães com idades entre 17 e 24 anos, moradoras da zona oeste da cidade de São Paulo. O objetivo era analisar o sentimento da mulher moderna pela maternidade, levando em conta o contexto histórico e cultural que as cercavam. Ela constatou que existe uma disparidade entre as motivações e a realidade que levam uma mulher a escolher a maternidade.

Em seu trabalho, Kimy Stasevskas deixa claro que nos tempos atuais, as realizações pessoais de uma mulher não estão restritas apenas à maternidade, ainda que esse sentimento constitua um dos pilares da identidade feminina, também por pressão da sociedade.

A escritora Lô Galasso, autora do livro “Ser mãe é sorrir em parafuso” (Integrare Editora), diz que há mulheres que cultivam o grande sonho dourado de casar e ter filhos. Para elas, a maternidade representará a possibilidade da realização maior, a grande promessa de felicidade e plenitude eternas. “Dispõem-se, por isso, a renunciar a qualquer objetivo de caráter pessoal, entendendo que sua realização virá através do próprio convívio com os filhos”, diz. “Foi assim no passado, quando as mulheres eram educadas tão somente para serem esposas e mães.” Outras mulheres, além de desejarem filhos, acalentam projetos de realização profissional e pessoal. E a dupla jornada de trabalho exige energias infinitas, diz Lô.

De qualquer modo, escreve, todas lutarão para se adequar ao mito da “mãe santa”, por tantos anos perpetuado e cultuado. “Segundo o mito, a mãe deveria se realizar plenamente dedicando-se a vida toda só à família e essa Sagrada Renúncia garantiria a ela, no futuro, a Grande Felicidade e a Eterna Gratidão dos filhos e do marido. Mais tarde, como a Grande Felicidade e a Eterna Gratidão parecem não chegar nunca, a mãe começa a coçar a cabeça grisalha se perguntando onde foi que ela errou...”