09 de julho de 2026
Bairros

Mulher e política: relacionamento ainda tímido

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

Quando o assunto é política, o Conselho Municipal da Condição Feminina (CMCF) de Bauru não tem muito o que comemorar. Isto porque, mesmo após inúmeras e importantes conquistas que vão desde a possibilidade da mulher usar calças até a recente conquista de Lei Maria da Penha, perpassando o direito de voto, o relacionamento entre mulheres e política ainda é bastante tímido.

De acordo com o Fórum Econômico Mundial, realizado em 2009, o Brasil ocupa o 82º lugar entre os 134 países participantes na equidade de gênero. Número que significa um retrocesso, já que em 2007 o país era dono da 73ª posição. Quando os números são apreciados em nível de Bauru, a situação das mulheres se mostra ainda mais desconfortável.

Dos 16 parlamentares que ocupam o cargo de vereador na Câmara Municipal da cidade, apenas uma é mulher, a demista Chiara Ranieri. No Executivo, a petista Estela Almagro é a vice-prefeita e o quadro de 14 secretários municipais traz duas mulheres: Vera Caserio (Educação) e Darlene Tendolo (Bem-Estar Social). Nas 90 associações de moradores, 30 são presididas por lideranças femininas.

“Os indicadores da participação das mulheres na política são apenas reflexo da cultura machista presente na sociedade. A política sempre foi vista como uma atividade masculina. Este campo sempre foi pautado por homens. A mulher sempre encontrou dificuldades para penetrar nele, primeiro, porque os homens não têm interesse na participação das mulheres; segundo porque muitas delas criam barreiras psicológicas e preconceituosas sobre o assunto. Além disso, elas encontram problemas em se posicionar neste meio e ter de conciliar a atividade com os afazeres domésticos, que ainda recaem sobre suas costas”, analisa a cientista política Maria Teresa Miceli Kerbauy, doutora em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

De acordo com as integrantes do CMCF, as barreiras culturais existentes na sociedade ainda são fatores decisivos na baixa atuação feminina no campo político. Para salvaguardar o direito das mulheres e tornar o meio mais democrático, foi criada uma lei que estabeleceu que os partidos políticos deveriam reservar pelo menos 30% de suas vagas a candidatas mulheres. Se por um lado as mulheres parecem não fazer questão de exercer este direito, os homem também parecem não se preocupar com o fato.

“Em época de eleição, os partidos ficam desesperados atrás de mulheres para preencher as cotas, porque senão as vagas têm de permanecer sem ocupação. Depois, quando o processo de campanha começa, as mulheres são postas de lado e não recebem apoio nenhum”, reclama Haydèe das Dores de Souza, membro e fundadora do CMCF.

Já Acyr Santinho Motta, presidenta e também fundadora do CMCF, um outro lado deve ser avaliado. “Acho que os homens sabem de nossa competência e por isto não estimulam e até inibem a candidatura de mulheres. Eles têm é medo de perder mais este campo para nós”, brinca Acyr.

Brincadeiras à parte, para Maria Teresa, por si só a existência da cota já é um símbolo da timidez feminina em assuntos políticos. De acordo com ela, se o campo fosse igualitário, não existiria a necessidade de cotas. “A relação mulher-política caminha a passos lentos, mas temos de considerar que é algo recente. Somente na década de 30 é que as mulheres conquistaram o direito a votar e a liberdade. As cotas existem para estimular e garantir o direito à candidatura. Claro que ainda é uma pequena porcentagem de mulheres que se elege, mas isto pode mudar”, analisa.

____________________

Sem medo

Foi por meio e incentivo de um homem que Haydèe das Dores de Souza, 62 anos, membro do Conselho Municipal da Condição Feminina (CMCF) e integrante do diretório do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) de Bauru, se engajou na política. Na época, seu marido era assessor de gabinete do então prefeito Antônio Tidei de Lima.

“Como ele começou a trabalhar com isto, fui percebendo que era uma boa ferramenta para eu batalhar pela causa feminista. Fui conhecendo um pouco a cada dia e estou firme e forte até hoje. A política é apaixonante. Todas as mulheres deveriam ter esta relação de amor com o País e com a própria causa”, sugere Haydèe.

Mas para se manter no partido, Haydèe conta que teve de se impor. “Se a gente não mostra a que veio, perdemos a voz. Por isto, nas reuniões do partido faço questão de participar e dar minha opinião. Tem de ser assim, senão somos tolhidas”, explica.

Quem também entrou no campo político incentivada pelo marido é Juliana Gaion Tobias, 53 anos, responsável pelo núcleo feminino do Partido Social da Democracia Brasileira (PSDB). Diferente de Haydèe, Juliana reivindicou seu espaço na política somente há 3 anos. “Percebi que podia dar a minha contribuição para a política. Nós, mulheres políticas, não queremos ocupar o lugar dos homens e, sim, o nosso espaço, trabalhar em conjunto, unir forças”, justifica Juliana.

Já Edilene Benedito de Souza, 25 anos, membro do diretório do Partido dos Trabalhadores (PT) e secretária da Juventude do PT, engajou-se na política por amor, quando tinha apenas 16 anos. Ela conta que sempre gostou e teve interesse na possibilidade de melhorar o país onde ela mora.

“Para você ter uma ideia, eu gostava tanto de política que, quando eu era criança, quis homenagear o Lula e dei ao meu cachorro o nome dele. Daí, logo que tirei meu título de eleitor procurei o PT e me candidatei. Nunca enxerguei a política como um sacerdócio masculino”, conta Edilene.

Para ela, a atuação feminina na política tende a aumentar gradualmente. “Este ano, temos duas pré-candidatas à presidência da República. Isto é inédito”, comemora.

____________________

Mulher não vota em mulher

O Conselho Municipal da Condição Feminina enfrenta, atualmente, uma grande briga. E, esta vez, os alvos não são homens e sim mulheres. Isto porque, de acordo com as integrantes da organização, muitas mulheres têm preconceito contra a atuação feminina na política e, por isto, não apoiam nem votam em mulheres.

“Você acredita que ainda tem mulher que diz que ‘mulher não deve se intrometer nestas coisas de política’? Pois isto é uma realidade. Um dos nosso principais objetivos é mudar esta concepção. Mostrar que podemos, sim, ser boas administradoras das cidades, Estados e até do País”, afirma Haydèe das Dores de Souza, 62 anos, membro do Conselho Municipal da Condição Feminina (CMCF).

Uma prova, segundo ela, é os vereadores que atualmente ocupam seus cargos na Câmara Municipal de Bauru. “As mulheres são 51% do eleitorado bauruense. Então, o que justifica a existência de apenas uma vereadora nos representando?”, questiona.