08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

NOS BAILES DA VIDA


| Tempo de leitura: 3 min

Passei 4 dias recluso no meu apartamento, pensando na vida, nas contas para pagar (claro!), na vida, na família e para confessar, não tinha ânimo para sair... Numa destas terças-

feiras, minha mãe completou 90 anos e... O Espaço Cultural Vó Celina vai caminhando devagar, sem ajuda oficial ou particular, mas vai caminhando com Thiago Neves e o senhor José-pedreiro fazendo a obra. Segundo Cacilda Becker, existem empresários que enriquecem com o teatro- dizem. Não fizeram teatro, fizeram negócio. Quem faz teatro, seja empresa, seja governo, estará sempre perdendo dinheiro. Existem aqueles empresários que adoram a cultura, mas são poucos..mas asseguro-lhe que quem faz teatro não se importa muito com isso.

“É uma verdade! Estamos há 42 anos nesta luta, neste ofício e não deixamos provas. A posteridade não nos conhecerá. Quando o diretor ou ator para o ato teatral, nada fica. A não ser a memória de quem o viu. Quem vai lembrar que em 1968, no Automovel Clube, estreava minha primeira peça como autor e diretor (grande coisa!)..a memória é fraca! A memória tem vida curta.

Sempre acreditei que o teatro como formador de opiniões pode ser uma saída para tirar o governo da falência moral e mostrar ao público que o trabalho sério é uma grande solução. Procurei nesse tempo todo fazer isso, tentar incomodar os que estão sossegados. Acredito neste mar de mais de 100 peças dirigidas não fiz nenhuma concessão a esse ou aquele, claro que não ganhei nada com isso, mas durmo sossegado! Não fui puxar o saco de vereador, deputado, senador...quero passar aos meus filhos pelo menos ética, educação, correção de atitudes e de direitos - o mínimo que posso deixar a eles!

A verdade é que os anos passam...as lembranças são eternas. Vivemos lições de vida, aprendemos a vasculhar nas nossas recordações do coração e a acariciar lindos momentos que se foram para não mais voltar. Os anos passam...42 anos é muito tempo! Meus amigos (Henrique Perazzi, aprendi a admirá-lo, Chris, da Jucesp; Ricardo Oliveira, Luiz Fernando, Paulinho, da MPL, Márcio da Copical, Denise, Carlos e Pedro DÍncao, Emerson Hortolan, João Francisco Tidei de Lima, Duda, Ricardo Coube, dr. Márcio, dr. Flávio, dr.Enidelcio, Mari, Giordano, Marcelo Rino, Cleide, Cinthia, Andre, Marco Giaferi, Maria Lúcia Nejm de Carvalho (companheira de muitos anos, mãe do Thiago e Talita, que me ajudou muito..), Marlene (primeira esposa, que criou e educou Aline), Maria Lucia Badin (que passou pela minha vida de forma positiva e até hoje grande amiga), Carlos, Vera, Fabiano, Josie, Fernando, Celinha, Beth e Marcos, Paulinho e Marcus Vinicius, minha família pequena, mas uma família grande no sentido geral da palavra... e outros importantes, que deixo de colocar por problemas de espaço nesta coluna, meus alunos ao longo de 42 anos e o sempre companheiro, amigo, orientador João Jabbour). Gratidão por tudo é pouco... Obrigado por acreditarem em mim quando eu achei difícil acreditar em mim mesmo.

Obrigado por dizer, algumas vezes, o que eu realmente precisava ouvir, em vez do que eu queria que você dissesse, e por ter me mostrado um outro lado a considerar. Obrigado por terem posto tanta sabedoria, cuidado e imaginação na nossa amizade, por compartilhar tantas coisas boas e por marcar tantas lembranças sobre nós. Obrigado por serem sempre honestos comigo, gentis e presentes quando necessito.

Tento enfrentar meu medo e minha solidão, pensando grande, pensando nos amigos, estou lutando comigo mesmo para seguir a frase de Jean Barrault: “O teatro é o primeiro soro que o homem inventu para se proteger da doença da angústia.” Que Deus não permita que eu perca o romantismo, a vontade de viver, ter grandes amigos, beleza e alegria de viver, equilíbrio, o brilho no olhar, a ajudar as pessoas, vontade de amar, ser grande, mesmo sabendo que o mundo é pequeno...E que meus problemas sejam resolvidos com ajuda dos despertadores, afinal, eles tentam acordar as pessoas para a vida. Preciso aproveitar mais isso, acordar logo, antes que o próximo despertador faça mais barulho.

Paulo Neves - diretor de teatro e professor do D’Incao Instituto de Ensino