09 de julho de 2026
Articulistas

Desconhecimento ou intolerância?

Marcos Augusto de Freitas
| Tempo de leitura: 4 min

Fiquei estarrecido ao ler na coluna Opinião de ontem, dia 26, o artigo "Homossexualidade e a igreja de Jesus", mas não julgo a falta de conhecimento. Contudo, há de se esgrimir o que verdadeiramente as escrituras sagradas dizem a respeito da homossexualidade. A palavra mais bela do Evangelho de Jesus Cristo é “qualquer um” e quer dizer que todas as promessas de Deus são dirigidas a todos os seres humanos. Isto inclui os gays e as lésbicas. É uma tragédia que a Igreja Cristã não esteja preparada para lidar com este assunto e tenha excluído as pessoas por serem homossexuais!

No entanto, o Livro Sagrado que quer ensinar o amor total, incondicional, foi e é usado para fazer muito mal; lembremos apenas da “Santa” Inquisição, quando sábios e sábias, as “bruxas” e os “bruxos”, eram queimados simplesmente porque ameaçavam o poder machista estabelecido. Também a escravidão e o massacre das nações indígenas nas Américas, perpetrados por protestantes e romanos, por pessoas que se consideravam cristãs, foram justificados lendo-se a Bíblia.

Hoje, encontramos os maiores homofóbicos entre os cristãos, e seu discurso é o do amor. Tentam justificar ódio, intolerância, preconceito, desprezo, discriminação, farisaísmo, moralismo, ignorância, perversidade, exclusão, violência, com a citação de versículos das Sagradas Escrituras. A Bíblia é uma coleção de livros escritos durante cerca de mil anos para relatar a história da relação de Deus com o povo hebreu e os cristãos. Foi escrita em varias línguas, com diferentes formas literárias, e reflete culturas muito distintas da nossa atual. Estes fatores são decisivos para interpretar corretamente a Bíblia em seu contexto.

Cito aqui as cartas de Paulo em Romanos e primeira carta aos Coríntios, quando ele faz alusão ao homoerotismo, que o faz para dar um exemplo, para ilustrar um assunto que está explicando. Não é o homoerotismo, que é o interesse do Apóstolo Paulo. No entanto, não podemos ignorar sua forte conotação, mas podemos compreender o texto e o contexto. Na Carta aos Romanos, Paulo escreve sobre a rebelião contra Deus e suas conseqüências. O resultado óbvio dessa rebelião é a separação de Deus e as coisas boas que se tornam perversas.

Mas Paulo, desconhecendo o sentido atual da palavra homossexual, escreve para pessoas as quais ele considera heterossexuais e que procuravam os prostitutos e prostitutas sagrados para aí cumprirem ritos de fertilidade, ou homens casados, que no mundo romano mantinham relações sexuais com meninos e rapazes. Se continuarmos a ler o texto, vemos que Paulo enumera uma lista de atitudes destas pessoas: “Toda a sorte de injustiça, perversidade, avidez e malícia; cheios de inveja, assassínios, rixas, fraudes e malvadezas; detratores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, arrogantes, fanfarrões, engenhosos, desleais, sem coração nem piedade...” (Rm 1,29-32). Sinceramente, vejo agora, em pensamento, tantos amigos gays e tantas amigas lésbicas e não consigo percebê-los assim, muito ao contrário.

Uma outra história que criou uma lenda maior foi a destruição das cidades de “Sodoma e Gomorra”, que ocorreu porque os homens eram homossexuais; daí surgia o termo sodomia/sodomita. Durante séculos, gays e lésbicas têm sido vítimas da falta de hospitalidade das famílias cristãs, por causa de uma “interpretação mal intencionada” deste texto bíblico (Lv 18,22 e Lv 20,13); estas eram leis destinadas a manter o povo hebreu puro e separado de outros povos, sobretudo dos que adoravam ídolos sacrificando crianças e com a “prostituição sagrada”, tanto masculina como a feminina, nos cultos à fertilidade. Um hebreu que praticasse essas coisas que os babilônios e cananeus praticavam, era “abominável”. Mas entre estas coisas “abomináveis”, incluía-se, por exemplo, semear dois tipos de sementes no mesmo canteiro, comer carne mal passada ou camarão, fazer sexo estando a mulher menstruada, entre outros. Hoje alguém consideraria “abominação” comer carne mal passada ou carne de porco? Por que se querem aplicar estas normas literalmente apenas para os homossexuais, não será por preconceito, por falta de amor? Ou os que citam a Bíblia a conhecem de verdade?

Percebo honestamente que a Bíblia não faz nenhuma condenação generalizada da homossexualidade. Se elas e eles usarem a Bíblia como regra de fé, elas e eles deverão, como cristãos, ter uma vida de fé. Fazer isso é seguir o caminho de Deus, é caminhar nos caminhos de Deus. Fazer isso é amar a Deus de todo o coração, de todo entendimento e de toda a alma. Fazer isso é ser um verdadeiro discípulo e seguidor ou discípula e seguidora de Jesus e ter a certeza de um dia estar com Ele no Céu. Amém.

O autor, Marcos Augusto de Freitas, é jornalista