09 de julho de 2026
Articulistas

Erupções tóxicas

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Ninguém pode ignorar a importância do bom funcionamento do sistema financeiro no seu papel de dar suporte às inovações que são o verdadeiro motor do desenvolvimento econômico. E, a par de promover o progresso, proporcionar o clima de estabilidade que minimize os riscos dos empreendedores durante a maturação dos investimentos. A economia mundial continua se intoxicando com as erupções nos mercados financeiros que significam a absoluta negação daquele duplo papel. Ao mesmo tempo abriu-se, no entanto, uma oportunidade rara para que os governos de todo o mundo encontrem os meios de impor uma nova regulação que dificulte, pelo menos, a repetição da patifaria que imperou nos mercados financeiros desde antes da virada do século.

O que se deseja é restabelecer as condições de funcionamento do sistema financeiro global para que ele sirva ao setor produtivo (e não sirva-se dele), alocando com eficiência os recursos que estão disponíveis para ampliar os investimentos e gerar empregos na indústria, agricultura e serviços. Um sistema que desenvolva mecanismos de administração de riscos que o habilitem a financiar as inovações nas atividades do setor produtivo da economia, cujo retorno tem grande diferença do que é oferecido à sociedade pelas “inovações” nos mercados financeiros.

Ross Levine, um dos economistas mais respeitados por suas análises empíricas sobre a relação entre o aperfeiçoamento do sistema financeiro e a aceleração do crescimento econômico, disse que “os últimos séculos demonstraram que as inovações financeiras são cruciais, de fato indispensáveis, para a sustentação do crescimento econômico e da prosperidade. As finanças são poderosas. Os últimos anos demonstraram que as inovações financeiras podem ser, também, instrumentos da destruição das economias”. É precisamente esse o problema. Como desafiou Paul Volcker, o duro e competente “chairman” do FED nos anos 70 do século passado e hoje assessor do presidente Obama, “quero que me mostrem a mais leve evidência de que as volumosas inovações financeiras dos anos recentes tenham feito qualquer coisa para impulsionar a economia”.

Não se pode esquecer que foram os Bancos Centrais dos países desenvolvidos que (entre 1990 e 2005) promoveram a destruição dos mecanismos de controle construídos a partir da catastrófica crise de 1929, cujas causas, “mutatis mutandis”, são as mesmas da crise que agora vivemos: 1) falta de transparência; 2) venda de papéis a incautos que acreditavam na “segurança e honestidade” dos vendedores; 3) superalavancagem que levou à bolha na bolsa e 4) operações de risco com recursos de terceiros de boa fé.

Tem razão Paul Volcker. Não há evidência empírica que os “Credit Default Swaps” (CDS) ou outros “derivativos” em moda tenham dado a mais leve contribuição para aumentar a produtividade e estimular a atividade real da economia. O que salta aos olhos é que, ao contrário, eles foram causa eficiente para produzir a tragédia que desempregou milhões de trabalhadores.

O sistema financeiro brasileiro, por causa de alguns acidentes históricos e, talvez, alguma virtude, salvou-se, felizmente, dessa destruição com apenas alguns arranhões. Acordado, ele avança depressa na auto-regulação com a criação da Central de Exposição a Derivativos (CED) controlada pela FEBRABAN, instrumental para o bom funcionamento da Cetip e da BMF&Bovespa que pretendem gerenciar os seus riscos.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br