O pedreiro Nelson, 35 anos, teve o primeiro contato com o crack aos 17 anos. Na época, ele morava no bairro de Capão Redondo, em São Paulo, e trabalhava como feirante. O relacionamento diário com ex-presidiários foi o que pavimentou seu caminho em direção às drogas. Quando trocou de emprego e passou a trabalhar como pedreiro, abandonou o crack. O início de um relacionamento amoroso também pesou bastante nessa decisão. Foram dois anos de muito trabalho, paz e amor.
Mas a morte da namorada em razão de um aneurisma cerebral deu um outro rumo à vida do pedreiro. Sem motivação, largou o emprego. Logo depois, perdeu o pai, com quem morava, vítima de um câncer de pulmão. Ainda mais sem perspectiva na vida, ele começou a beber. Sem família e sem mulher, decidiu sair andando pelo mundo. A rodovia Anhanguera passou a ser sua casa. “Eu sentia muitas saudades do meu pai e da mulher. E era na estrada que eu tinha um pouco de paz”, frisa.
Nessa caminhada aparentemente sem rumo, dormindo e comendo nos postos e restaurantes de beira de estrada, Nelson chegou a Ribeirão Preto. Lá foi bater à porta de um albergue em busca de comida e repouso. Permanecei ali por alguns dias até saber que um parque de diversões que estava na cidade precisava de trabalhadores.
Além dele, outras pessoas do albergue conseguiram o emprego, entre elas uma mulher que lhe chamou a atenção. Nascia ali um novo relacionamento amoroso. Ambos passaram a viajar com o parque. Não demorou muito, Rose (nome fictício) anunciou que estava grávida.
Nelson largou o serviço e voltou para Ribeirão Preto, onde alugou uma casa e começou a mobiliá-la. Quando estava tudo em ordem, foi buscar a amada. Apesar da vida estabilizada, o costume de ficar nos bares bebendo com os amigos colocou o pedreiro em atrito com a esposa.
As brigas foram se intensificando e ele voltou a usar crack. “Comecei com uma pedra por semana, depois duas, depois uma por dia, quando me dei conta já estava completamente dominado pela droga”, relata. Quando a mulher descobriu, ela estava prestes a ter o filho. Rose queria a separação, mas decidiu dar mais um tempo. Logo depois, foi para a maternidade para ter o bebê. Permaneceu lá durante cinco dias.
Enquanto a esposa estava fora de casa, Nelson vendeu botijão de gás, fogão e todo o enxoval do bebê, incluindo fraldas e o berço, que o casal havia ganho de amigos. Tudo foi transformado em droga e, literalmente, virou fumaça.
Quando a esposa voltou com o filho para casa, o pedreiro disse que ladrões haviam levado tudo. Com essa história, Nelson conseguiu um cheque do patrão para repor tudo o que estava faltando. O valor seria descontado aos poucos do pagamento. Mas, conversando com os vizinhos, Rose descobriu que o “ladrão” que havia levado as coisas da casa era o próprio marido. Inconformada com a atitude do marido de vender as roupas do próprio filho para comprar droga, ela pediu a separação.
Nova chance
Nelson voltou para o albergue, onde conseguiu uma passagem para Bauru, que era onde morava a família da esposa. “Eu sabia que ela viria para cá”, diz. Depois de três meses pedindo dinheiro nos semáforos para pagar o aluguel da pensão e o consumo de crack, ele foi procurar a esposa e disse que tudo seria diferente. Como na época havia pouco trabalho em Bauru, eles decidiram se mudar para Campinas. Passaram até a frequentar igreja, mas, a pretexto de comemorar a bom momento, Nelson voltou a beber. Com pouco dinheiro, resolveram ir para Americana, onde o aluguel era mais barato.
Lá, o pedreiro vendeu a aliança e usou uma parte do dinheiro para pagar a dívida com aluguel e outra parte para gastar com bebida. Quando chegou em casa, o brilho da aliança nova, adquirida em uma barraquinha de produtos do Paraguai, chamou a atenção da esposa. Resultado: nova separação. “Naquele dia, ela me falou que nunca mais eu veria ela nem o filho”, relembra.
A partir daí, Nelson voltou para o crack, peregrinou por Campinas, Bauru e Ribeirão Preto, onde se afundou de vez nas drogas. De novo em Campinas, começou a praticar delitos, como assaltos, para conseguir dinheiro para o crack. Vivia na rua e dormia em uma casa abandonada.
Por causa de seus constantes crimes, ficou com medo de ser morto e decidiu deixar Campinas. De lá, foi de novo para Ribeirão Preto, onde continuou com os crimes. Com R$ 600,00 mais uma TV de tela plana que havia furtado, adquiriu uma moto, embora não tivesse habilitação. Em um belo dia, foi fechado por um veículo e para evitar a colisão desviou e foi arremessado ao chão. Nelson foi levado desacordado para o hospital. Como os funcionários estavam em greve, ele foi encaminhado para Bauru.
Como estava em Bauru, decidiu procurar novamente a esposa. Mas, sem dinheiro, ficou com medo de que ela não o aceitasse. Foi então que começou a pedir dinheiro nos semáforos, mas o que conseguia gastava em droga. Assim, Nelson voltou à vida de mendigo. “Foi quando cheguei à conclusão de que minha vida não tinha mais jeito. O fim era uma questão de pouco tempo. Eu só queria poder ver o meu filho pela última vez”, conta.
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Tratamento
Pouco depois de ter chegado a essa conclusão, Nelson ouviu falar da Comunidade Bom Pastor, que trabalha na recuperação de dependentes químicos. Ele procurou se informar onde era e partiu em busca de seu último fio de esperança.
Ainda de muleta e com o pé muito dolorido devido ao acidente, conseguiu chegar ao local, onde está há cerca de 25 dias. Nesse tempo, transformou-se numa outra pessoa. Com os cabelos cortados, barba feita, cavanhaque bem alinhado, roupa limpa, ele foi visitado pelo sogro e pela sogra que moram em Bauru.
“Eu nunca havia sido abraçado pelo meu sogro. Mas como ele viu que eu estou disposto a me livrar da dependência, ele me abraçou”, relata Nelson. O sinal de apoio foi expresso também pela esposa, que esteve na entidade semana passada para revê-lo. Ela contou que imaginava que o marido estivesse morto.
Para completar a série de reencontros, falta apenas ver o filho, que hoje está com 5 anos. Mas esse só irá visitá-lo quando o tratamento estiver mais avançado. “A mãe tem medo de trazer o menino e ele querer ficar comigo ou que eu volte com eles para casa”, justifica.
“Ainda tem muito para se fazer aqui dentro, mas quando eu sair daqui quero ser um espelho para o meu filho”, afirma Nelson. “Agora, ele vai ter para quem cantar na escola no Dia dos Pais”, promete.